Como é que eu consigo correr durante muito tempo sem parar?

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12.09.2022

Parece-me importante fazer, em primeiro lugar, uma contextualização temporal: estou a preparar a minha 12º Maratona e estou a menos de um mês de a correr na cidade de Chicago. Os desafios desportivos, pessoais e profissionais variam ao longo das preparações, ou não fosse a vida um constante e emocionante reboliço de transformações. O nosso papel será  aceitar que estamos sempre numa aprendizagem constante e usá-la a favor do nosso desenvolvimento pessoal. 

Mas há algo mágico nesta acumulação de experiências de maratonas e suas respetivas preparações: quando gostamos verdadeiramente de treinar e entendemos a poderosa ferramenta terapêutica que isso é, ficamos cada vez mais despertos para o seu impacto na nossa saúde em geral e na nossa performance em particular. 

Tenho 36 anos e se, por um lado, a tendência é acharmos que com a idade estamos menos capazes de atingir metas fabulosas (porque somos matéria e essa é finita), por outro, a sabedoria e maturidade que adquirimos fruto das nossas experiências podem levar-nos a uma forma física e mental absolutamente extraordinárias. 

É assim que me tenho sentido nos últimos meses. 

Mas calma. Porque atingir esta sensação dá um trabalho do caraças! O trabalho de questionar porque nos sentimos cansados ou fortes e entender o porquê dessas sensações, assim como a vontade e a resiliência de encontrar as respostas para a solução dos nossos “problemas”. Este será um trabalho eterno: questionar, refletir para alcançarmos a melhor versão de nos próprios.

Eu estou no caminho. Mas o que descubro sobre mim consegue ser tão fabuloso que arranjo sempre motivação e força para não me perder na jornada. 

Vou mais longe em relação à pergunta do titulo deste artigo: como é que eu consigo correr durante tanto sempre, sem parar, e a uma velocidade competitiva?

Há uma série de fatores que jogam a favor deste tema desde a alimentação, descanso, gestão de stress e prescrição de treino de corrida. 

No meu caso, em particular – já tendo a mente desperta para bons hábitos de alimentação e descanso – aquilo que foi a minha grande viragem a nível de rendimento de treino foi a partir do momento que decidi – pela profunda paixão que tenho pela modalidade – ter um treinador de corrida que, para lá da formação, conhecimento e experiência na área serem enormes – tem um alinhamento de valores exatamente igual ao meu.

Hoje, podíamos falar sobre a prescrição de treinos que me permitem correr mais rápido durante mais tempo. Mas esse será um tema que vou deixar para o Paulo Colaço que é, para além de meu treinador de atletismo, mentor deste canal. 

Para vos aguçar o apetite, deixo-vos aqui algumas considerações que ele escreveu para a Revista INSIDE (uma revista especializada em corrida):

“As adaptações fisiológicas em consequência do tempo de duração de uma sessão de treino ou da velocidade à qual essa sessão é realizada são diferentes e devem ser consideradas quando se prescreve treino de corrida. As diferenças que podemos introduzir no processo de treino são enormes, mas basicamente suportam-se em duas opções principais:  correr mais tempo ou correr mais rápido?

Falamos basicamente de conjugar opções de volume e de intensidade de treino da melhor forma possível e para isso existem algumas noções que temos de ter bem presentes para fazer as melhores opções. 

A mitocôndria tem um papel decisivo na melhoria do rendimento de um corredor, sendo a enorme “fábrica energética” durante um esforço de características prioritariamente aeróbias. Por isso mesmo, os treinos de corrida contínua de longa duração tem sido vistos como importantes para o aumento do conteúdo mitocondrial muscular. A questão que entretanto se coloca é até que ponto esse aumento se deve ao treino com maior volume e intensidade mais baixa ou ao treino de mais curta duração e de maior intensidade?!”

OOORAAA BEEEMMM!!! Aqui esta um tema que causa algumas dúvidas, sobretudo para maratonistas que na sua preparação fazem treinos com muito volume de treinos: os chamadas treinos longos de 30 Km’s ou de duração superiores a 2 horas. 

Menos volume, mais intensidade e reforço muscular direcionado para o corredor fizeram milagres na minha performance. Para breve falaremos deste tema. Agora quero focar-me apenas na força da nossa mente. Por muito bem preparados que possamos estar para uma prova, o corpo irá sempre fazer aquilo que a mente comandar. Não duvido que um corpo bem preparado torna a mente mais forte. Mas… numa prova ou mesmo num treino em que sabemos que é mais desafiante, é normal sentir cansaço e desconforto. Posso referir dois momentos concretos onde tenho este tipo de sensações:

  • Séries na pista, sejam longas ou curtas;
  • Treinos longos superiores a 90 minutos com aquela intensidade que está a um click de se tornar desconfortável. Entendem o que quero dizer? O desafio é manter essa velocidade durante muito tempo. 

Preparar a Mente – para a Maratona de Chicago e para a Maratona da Vida

Ter uma mente forte, para mim, é ter bem definido o propósito do que estou a fazer. Entender o que estou a fazer e o porquê de o querer fazer dá-me motivação e otimismo para superar os momentos mais difíceis. E porquê? Porque sei que a experiência que estou a ter vai ser benéfica para mim, porque sei  a minha intenção.

Então e é o quanto basta? Nem pensar. Agora que sei o propósito tenho de passar à ação, caso contrário não passam de desejos. E para isso acontecer é preciso ter um plano que tem de ser cumprido com disciplina e de uma forma concentrada. Ter uma rotina e não vacilar é o primeiro passo. Mas depois, em todos os momentos que estamos a treinar, temos de estar atentos ao que estamos a fazer: escutar o corpo, perceber se a perna está leve ou pesada, se a respiração está ofegante, se o core está forte. Ter esta percepção dá-nos orientações do ponto em que estamos. 

E por fim, a mente forte nunca desiste. Ela persiste porque acredita. Ela insiste… e conquista! Resiliência não é teimosia. Trabalhá-la obriga-nos a pensar melhor, a gerir o stresse, o desconforto  e, muito importante, a adaptar-nos à mudança, deixando de ter pressa para acabar. 

É este tipo de treino que a Maratona me dá e que eu aplico em todas as outras áreas da minha vida. 

Não há nada mais gratificante do que conquistar algo que nasceu do nosso suor. É essa sensação de orgulho e conquista que me move e tranquiliza nos momentos mais desconfortáveis.

Neste treino de 105 minutos, na Vagueira, o objetivo era claro: aumentar o volume de treino com uma intensidade progressiva, respeitando os meus limiares aeróbios. Este treino teste validou o que já havia sentido nas últimas semanas: estou a fazer uma boa preparação, porque as sensações estão a ser boas. Mas isso só é possível por causa dos muitos treinos em que desafio o meu conforto. Este inclusive. 

Como conseguir manter a qualidade do ritmo ou até mesmo ir aumentando a velocidade? 

Não são só as pernas que correm. O coração corre, sobretudo quando o corpo esta a ficar cansado. E é nesse momento, quando aparecem os demónios a dar sinais de que até podemos parar ou abrandar, que eu chamo a minha força e resiliência e inverto o discurso e digo a mim mesma:

“Agora é que vamos ver quem é que está capaz ou não. Agora é o momento mais interessante. É o momento para colocares em prática a tua capacidade de te adaptares e gerires o conforto no desconforto.”

Há uma imagem que nunca mais me vou esquecer: a imagem do Eliud Kipchoge – recordista do Mundo na distância de Maratona –  na Maratona de Londres. Eu também la estava a correr e cruzei-me com ele – ele já a terminar a prova e eu a chegar aos 21 Km’s. Quando olhei para o outro lado da estrada vi-o e consegui, por segundos, apreciar o seu rosto a correr a uma velocidade astronómica: estava com um ar concentrado, porém sereno. 

É assim que deve ser. Estarmos concentrados no que estamos a fazer naquele exato momento pede-nos ponderação e calma. A concentração é um estado de mindfulness. E quando assim é, por muito difícil que tudo pareça ser, torna-se parte do processo. É treinando a mente de forma regular e durante algum tempo nos momentos mais difíceis que faz com que relativizemos o desconforto. A médio prazo, ele até começa a ser prazerosa. 

Desafiar-me a estar confortável e calma a partir dos 90 minutos de treino, com uma correta prescrição de treinos, é uma lição e uma chapada de luva branca a todas as minhas crenças limitativas. 

Como diz a canção: “É mesmo preciso ter calma e nunca dar o corpo pela alma.”

Eu só consigo correr sem parar, durante muito tempo a uma velocidade de 4:15 min/km, porque encontro prazer nesta dor que só me faz crescer. 

Eu, Isabel

A Isabel nasceu a 8 de maio de 1986 e é natural de Santa Maria de Lamas. Licenciou-se em Ciências da Comunicação, pela Universidade Nova de Lisboa, e fez uma pós-graduação em Cinema e Televisão pela Universidade Católica. Fez um curso de Rádio e Televisão no Cenjor e foi o seu trabalho como jornalista e produtora de conteúdos na Panavídeo que a levou para a televisão, em 2011. Durante 10 anos apresentou programas de entretenimento e, de forma intuitiva e natural, percebeu que aquilo que a move é a criação de conteúdos que inspirem, motivem e levem os outros a agir. Tem uma paixão enorme por comunicar e tudo o que comunica está intimamente ligado a uma vida natural carregada de energia, alegria e simplicidade.

É autora dos livros “O Meu Plano do Bem”, “A Comida que me Faz Brilhar”, “Eu sei como ser Feliz” e da coleção de livros infantis “Vamos fazer o Bem”.

Descobriu a paixão pela corrida em 2015, em particular pela distância da Maratona – 42.195m. Tem o desejo de completar a “World Marathon Majors” que inclui as 6 maiores Maratonas do Mundo. Já correu Londres, Boston, Nova Iorque e Berlim.

Esta vontade de gerar um impacto positivo nos outros levou-a a criar novas áreas de negócio, como um ginásio de eletroestimulação – o Efit Isabel Silva – uma marca de snacks saudáveis, a IncríBel e a VOA.

A 14 de Dezembro de 2016 lançou o blogue Iam Isabel e que hoje, numa versão mais madura, mas igualmente alegre e enérgica, é o canal DoBem.