A urgência de lutar contra o analfabetismo motor das crianças

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31.05.2022

Nós somos o resultado de múltiplas opções que tomamos no nosso dia a dia, incluindo na nossa saúde e bem-estar. Se isto é bem visível na idade adulta, nem sempre percebemos o enorme impacto que tem – o que fizemos ou não – enquanto crianças e jovens. São idades em que absorvemos tudo, para o melhor e para o pior, e em que se desenham os primeiros traços de uma vida mais ou menos saudável.

É, em parte, aos pais a quem cumpre tomar e orientar as decisões mais certas e é, muitas vezes, aqui que reside grande parte do problema. A criança por natureza escolheria brincar e desenvolver-se fisicamente, dando resposta a toda uma enorme teia de alterações morfológicas, mentais e hormonais que pedem desafios, atividade e superação. Talvez possa parecer estranho falar em superação nas crianças, mas é disso que se fala, quando, por natureza, se entrega à tentativa de sucesso superando as suas fragilidades com o objetivo de vencer. Falamos de algo tão inapto quanto respostas que não têm de ser exigidas, mas estimuladas através dos contextos certos que as desafiem de forma constante.

E como o fazer?

Com o jogo… O jogo desenvolvido de forma divertida é o combustível certo para promover adaptações impossíveis de alcançar de outras formas. Porque a conquista, a perseverança e a procura pelo melhor resultado tem início no estímulo lúdico do jogo. Estes são os primeiros alicerces de uma educação positiva, pensada na criança e no jovem.

Existem imensas possibilidades de apresentarmos às crianças e jovens caminhos a seguir, mas sem dúvida que a prática desportiva se mostra, cada vez mais, como uma das ferramentas mais eficazes e imprescindíveis na formação pessoal nestas idades.

A prática desportiva, desenvolve processos de autonomia, mas também de cooperação com os outros, ensina a respeitar colegas e adversários no limite de regras bem estabelecidas, promove aptidões de perseverança e de sabermos o que é lutarmos por objetivos, sejam eles individuais ou de grupo. O melhor de tudo? É que esse crescimento individual pode ser feito com estímulos positivos induzidos pelo jogo, pela vontade de fazermos melhor numa simbiose corpo/mente que nos torna mais fortes e mais capazes, não apenas enquanto jovens, mas para toda a vida.

Quando pensamos no Dia da Criança, pensamos em presentes ou em festa,… Nos restantes dias do ano, lembramo-nos de tarefas, de horas sentadas, bem-comportadas, sem grandes apelos de criatividade e perdidas numa imensidão de conhecimentos que definimos como fulcrais para a sua vida futura. Como se a sua saúde e bem-estar dependesse da sua memória ou raciocínio mental.

Esquecemo-nos facilmente do que nos fez felizes enquanto crianças e desenhamos o seu desenvolvimento em torno de outros valores que não consideram o maior de todos os patrimónios: a sua saúde física e mental. Depois, ficamos em choque com uma prevalência brutal de obesidade entre os mais jovens, problemas sérios e crescentes de saúde mental, de descontrolo emocional severo, de pouca autoestima, de um analfabetismo motor completo e de uma incapacidade de controlar uma saúde perdida muitas vezes para sempre, em idades tão jovens.

Na verdade, quando esquecemos de trabalhar o corpo em contexto escolar, nem nos apercebemos que o impacto é muito mais vasto e entra no domínio mental e intelectual. É como se estivéssemos a colocar extensas e complexas informações de software num hardware cada vez mais obsoleto e incapaz de lidar com as mesmas.

É tempo de darmos à criança e ao jovem um conhecimento global do seu corpo, das suas aptidões e dos valores mais estruturantes. De os deixar crescer numa harmonia não compatível com estarem 8 a 10 horas por dia sentadas.

Em Portugal, caberá aos pais e à comunidade envolvente, a criação de oportunidades qualificadas de prática desportiva que resolvam um problema de um sistema educativo que não se centra no que verdadeiramente é importante para as crianças.

Não podemos definir objetivos de sucesso escolar centrados em horas sem fim de estudo, sem percebermos que podemos encaminhar crianças e jovens para um abismo de uma desregulação fisiológica, que a médio prazo até no domínio intelectual vai ter prejuízos imprevisíveis.

A necessidade das crianças e dos jovens passa acima de tudo, pela construção de um corpo harmoniosamente treinado com impactos já muito bem estudados na performance cognitiva. Estes são os verdadeiros alicerces para que, no momento certo, qualquer jovem que se entregue de forma dedicada e apaixonada a uma área, desenvolva competências absorvidas. Os pressupostos para a aprendizagem ficam assim colocados no lado da saúde física e mental, edificando as capacidades estruturantes para o futuro.

Bem sabemos que, nos dias de hoje, é complicado que as crianças tenham a liberdade de outros tempos. Receios de segurança levam-nos a controlar o seu crescimento num sistema mais protegido. A escola está muito longe de cumprir a sua função, onde se consideram as horas de tempo sentadas em sala de aula mais importantes do que as horas de atividade física. As coletividades desportivas não têm os apoios que deveriam ter para chegarem a mais jovens e de os manterem focados numa atividade desportiva regular. Cabe aos pais entenderem a importância dessa prática regular e de desenvolverem oportunidades para os seus filhos se envolverem com o desporto, de apoiarem e fazerem parte de projetos desportivos na sua comunidade e de os fazer crescer à medida das suas possibilidades. E de tudo fazerem para terem os melhores técnicos desportivos com os seus filhos e de valorizarem a importância desses treinadores e a qualidade da sua formação. Se procuram escolher os melhores médicos para resolverem as doenças das crianças, porque não se procuram os melhores treinadores para promoverem a sua saúde? Se não forem os pais a apostarem no crescimento de iniciativas desportivas de impacto social elevado e em ambientes tecnicamente qualificados, poucas oportunidades surgirão para aliciar os jovens a uma prática desportiva regular.

Hoje, Dia Mundial da Criança, é também o dia de despertar memórias de criança em cada adulto. Pela influência que têm os adultos (em especial os pais), o dia de hoje é de todos os que queiram ver em cada criança um sinal de um futuro melhor para todos.

Paulo Colaço

Docente na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, Paulo Colaço tem também uma experiência de mais de 30 anos como treinador de atletismo em diferentes disciplinas do atletismo com um foco mais particular, nos últimos anos, na corridas de velocidade e de meio-fundo e fundo.

Ao longo dos últimos tempos acumulou igualmente diversas intervenções em diferentes desportos coletivos na área da condição física.