A saúde mental também se treina?

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23.08.2022

Se pensarmos nos efeitos de qualquer carga de treino, salta logo à vista o impacto provocado no crescimento muscular, na perda de gordura ou na melhoria de desempenho do nosso coração ou pulmões. Se pensarmos na melhor forma de exercitarmos o nosso cérebro, vamos lembrar-nos de trabalho mental, como jogar xadrez, escrever, ler ou preencher quadradinhos de sudoku.

Existe também, uma tendência natural de todos nós, para pensarmos nos efeitos que o cérebro tem no nosso corpo, e não tanto nos efeitos que o nosso corpo pode ter no nosso cérebro. Existem ainda chavões (muito usados no desporto) que reforçam a ideia de que “a mente manda no corpo” que nos levam a colocar em segundo plano o impacto que um corpo saudável e treinado pode ter na saúde mental e até na prestação mental.

Se pensarmos no desporto de rendimento, facilmente entendemos a importância, tanto da superação mental como a tolerância à dor física que um atleta tem de ter e que lhe permite, por mais tempo, manter intensidades de esforço elevadas. Mas até mesmo nestes casos, um corpo melhor treinado estará naturalmente mais preparado para, nas mesmas intensidade de esforço ou superiores, colocar os limites mentais em patamares de performance superiores.

Temos depois outra realidade que consiste no impacto, cada vez mais estudado, do treino na saúde mental. Está cada vez mais comprovado que a prática desportiva, mesmo informal e por períodos curtos, acaba por ter um impacto enorme na saúde mental. Algo que o exercício mental, por si só, não resolve. Sentar-me a resolver exercícios de alguma complexidade mental, não irá promover maior circulação sanguínea e oxigenação do cérebro. É preciso muito mais. A actividade física, em particular com mais intensidade e/ou volume irá promover adaptações, que não se conseguem de outra forma. Se queres manter um bom desempenho mental, tens de ter a prática desportiva como um objectivo na tua vida. Pode parecer estranho para muitos, mas o sedentarismo é o primeiro passo para uma perda acentuada de desempenho mental e de uma maior probabilidade de problemas de saúde como Alzheimer ou Parkinson. Uma pessoa que dependa da sua prestação mental, devia ser a primeira a não prescindir de uma prática desportiva diária e bem estruturada, como pré-requisito para preservar essas capacidades ao longo dos anos! A prática desportiva ativa, de forma muito particular, importantes regiões do cérebro, melhora o desempenho mental e previne, de um modo muito eficaz, um envelhecimento mais rápido.

O treino pode contribuir para a melhoria da pressão arterial, melhor saúde cardiovascular e das artérias, prevenção da obesidade, diminuição de incidência de diversos tipos de cancro, entre tantos outros efeitos que de alguma forma todos vamos conhecendo. Mas os efeitos do treino vão ainda mais longe e não param de nos surpreender. No ano passado, uma equipa de investigadores da Stanford School of Medicine, mostraram uma vez mais os enormes efeitos positivos do treino, comparando ratos sedentários com ratos sujeitos a treino elevado (com melhorias enormes no domínio mental). Mas, o mais surpreendente deste estudo, acontece quando os investigadores decidem realizar transfusões sanguíneas colocando nos ratos sedentários, sangue dos ratos treinados. E desta forma a saúde mental ou capacidade cognitiva dos sedentários melhora de forma visível. A “culpa” parece estar associada a uma proteína, que ao ganhar um conjunto de adaptações provocadas pelo treino promove a diminuição da inflamação e a melhoria do desempenho mental. Já eram bem conhecidos os efeitos positivos do treino na saúde mental e prevenção do envelhecimento mas temos agora resultados ainda mais contundentes, que tudo indicam não serem diferentes em humanos.

Estamos num momento em que a ciência nos proporciona mais poder para decidirmos melhor. Sabemos que temos de treinar o nosso corpo, para o melhorarmos, o tornarmos mais eficiente e mais afastado de possíveis doenças. A questão já não é “apenas” de ter um corpo “fit”, pois também sabemos, cada vez mais, que o corpo quando sujeito a treino, muda a nossa saúde mental de forma drástica. Mens sana in corpore sano, transporta-nos para a Grécia Antiga, e viaja com o Movimento Olímpico ao longo dos anos, numa das maiores essências do espírito olímpico e da importância do desporto nas nossas vidas. Nos dias de hoje, com a apoio da ciência, adquire um significado cada vez mais premente, em especial nos mais jovens e como mensagem para a promoção da saúde física e mental do ser humano.

Paulo Colaço

Docente na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, Paulo Colaço tem também uma experiência de mais de 30 anos como treinador de atletismo em diferentes disciplinas do atletismo com um foco mais particular, nos últimos anos, na corridas de velocidade e de meio-fundo e fundo.

Ao longo dos últimos tempos acumulou igualmente diversas intervenções em diferentes desportos coletivos na área da condição física.