Dar o litro pelo planeta: lições de uma seca prolongada

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26.08.2022

Desde sempre que me lembro de o meu pai ter na cozinha um alguidar para aproveitar água (higienização de alimentos ou águas de cozedura ou lavagem de loiça); na casa de banho, na zona do chuveiro, um balde para recolher água do banho; e, fora de casa, depósitos de recolha de águas pluviais em vários pontos. Práticas que vinham de trás, de décadas de uma memória de escassez e de poupança. E que eu, tantas vezes, em miúda, achava exageradas e descabidas.

Em que momento perdemos, enquanto sociedade, a consciência de que esse líquido se trata de um recurso valioso, escasso e essencial à vida? De toda a água doce existente no planeta Terra apenas podemos usar para consumo humano cerca de 1,2%. Ela está (omni)presente em tudo o que fazemos e consumimos.

Mas parece que, com as importantes conquistas do desenvolvimento, demos este “ouro azul” como garantido, seguro e de qualidade, e deixámos de ter noção do seu valor e da sua importância e só nos lembramos quando, de repente, somos confrontados com a sua ausência nas torneiras, nos leitos dos rios e ribeiras expostos, nas barragens, nos poços e furos…

Desde fevereiro enfrentamos, tal como o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) alertara, uma situação de seca, que se agravou com a recente onda de calor, e que não mostra sinais de mudança. Esta seca meteorológica (associada à não ocorrência de precipitação) exacerbou-se, de acordo com o índice PDSI (Palmer Drought Severity Index), em todo o território, com um aumento muito significativo da área em seca severa, estando agora grande parte do território (67,9%) nessa classe e 28,4% em seca extrema (MONITORIZAÇÃO DA SECA (IPMA)[1].

São inegáveis as alterações climáticas e a vulnerabilidade do nosso país (e não só, é um problema global), sujeito a fenómenos cada vez mais frequentes, extensos e violentos.  E a água, como afirmava Johan Rockstrom na sessão ‘The future of humanity on earth’, Nobel Week Dialogue, 2018 ‘Water Matters, “é a vítima número um da mudança climática. Ou por existir em excesso ou por ser escassa, e sempre na altura errada.”[2]

E se, segundo as Nações Unidas, cada pessoa precisa de 110 litros de água por dia,  e cada português, gasta, em média, 187 litros; precisamos de reduzir drasticamente este número, trabalhar a nossa eficiência hídrica e a sustentabilidade na utilização deste recurso.


A eficiência hídrica e a sustentabilidade deste recurso escasso e essencial à vida são fundamentais a vários níveis:

  1. é um imperativo ético, de justiça social: a sua gestão tem de garantir que todas as pessoas tenham acesso a água e dela possam usufruir. De igual modo, é um problema intergeracional; é preciso ter em conta também o bem-estar e o futuro abundante das gerações futuras. Não pode ser um privilégio de alguns; É um direito de todos.
  2. é um imperativo ambiental: a água é um recurso limitado que é necessário proteger, conservar e gerir para garantir a sustentabilidade dos ecossistemas e dos serviços que estes proporcionam à sociedade em geral e para garantir a sustentabilidade de outros recursos intrinsecamente associados.
  3. é uma necessidade estratégica: trata-se de um recurso sem o qual não há vida; assegurar o aumento de disponibilidade da água é investir na Natureza e na sua capacidade autónoma de regeneração.
  4. é um fator de interesse económico: a água é um importante fator de produção; a sua gestão eficiente permite maior racionalidade dos investimentos; e, ao nível do consumidor, uma redução dos encargos.
  5. é uma obrigação normativa, do ponto de vista nacional e comunitário.

Importa, por isso, rever o nosso comportamento (coletivo e individual) e começar hoje mesmo a adotar pequenos gestos de poupança hídrica e de redução do seu consumo. Deixo-te alguns gestos simples e muito práticos, para, em função do teu contexto, poderes adaptar e aplicar ao teu dia a dia. Porque o planeta precisa de todos a dar (poupar!) o litro!


35 IDEIAS PARA POUPAR ÁGUA

em 8 áreas de atuação

PREVENÇÃO

  • Reparar fugas e torneiras a pingar.
  • Manter em bom estado as tubagens; em caso de rebentamento, fechar a torneira de segurança e chamar um técnico.
  • Não descartar pelo ralo ou na sanita: óleos, restos de comida, cabelos, pelos, cotonetes, pensos, tampões, toalhitas, medicamentos – podem entupir as canalizações, contaminar e prejudicar o tratamento das águas residuais na ETAR.
  • Colocar um contentor na casa de banho para evitar descargas de água desnecessárias e problemas nas estações de tratamento de águas residuais.

CASA DE BANHO

  • Usar baldes para aproveitar a água que sai do chuveiro enquanto não aquece (pode depois ser reutilizada na cozinha, na limpeza, nas plantas, nas descargas,…).
  • Usar um chuveiro eficiente com redutor de caudal permite passar, em média, de consumo de água de 13 litros por minuto (chuveiros tradicionais) para 6 litros por minuto.
  • Reduzir o volume de cada descarga de autoclismo: se não tiver opção de meia descarga, colocar, por exemplo, uma garrafa com água ou outro objeto no depósito.
  • Tomar menos duches e que sejam mais rápidos (duche 15 minutos = 180 litros; 5 minutos= 60 litros).
  • Fechar a torneira enquanto se ensaboa, lava a loiça ou escova os dentes.

MÁQUINAS ROUPA E LOIÇA

  • Escolher eletrodomésticos mais eficientes, do ponto de vista energético e hídrico, pode gerar poupanças de cerca de 51% do consumo de água, para o caso das máquina de lavar roupa, e de 41% de consumo, para o caso das máquinas de lavar loiça. Na escolha destes equipamentos, além da classe energética A+ ou superior, procurar máquinas cuja etiqueta indique um consumo de água anual médio inferior a 10000 litros por ano (máquinas de lavar roupa) e 2500 litros por ano (máquinas de lavar loiça).
  • Encher com carga máxima as máquinas e escolher os “programas eco”, que demoram mais tempo, mas poupam água e energia.
  • Dispensar a pré-lavagem – os programas de lavagem normal são eficazes e suficientemente potentes para deixarem as peças limpas.
  • Se tiver de lavar roupa ou loiça à mão, utilize uma bacia, deixe de molho antes da lavagem evitando lavar com água corrente.

ALIMENTAÇÃO

(em colaboração com Joana Mendonça, nutricionista da Maria Granel)

Considerando as três vertentes da pegada hídrica, alguns alimentos acarretam uma maior pegada hídrica do que outros, consoante a água utilizada no seu processo de produção – a “água que comemos”. Aquilo que comemos pode perfazer mais de metade da nossa pegada hídrica. Uma das formas pelas quais podemos ter bastante impacto na preservação da água é através da alimentação.

  • Reduzir o consumo de carnes vermelhas (os alimentos de origem animal apresentam, de uma forma geral, uma maior pegada hídrica. Isto deve-se, em grande parte, ao processo de produção de ração para alimentação dos mesmos. Por outro lado, no caso de alimentos como os produtos lácteos, o gasto de água encontra-se também fortemente associado aos gastos ao longo da sua cadeia de produção, pois a sua utilização está normalmente vinculada à garantia das condições sanitárias e de higiene necessárias.);
  • Incluir algumas refeições de base vegetal ao longo da semana, com as leguminosas como fonte de proteína;
  • Evitar o consumo de alimentos ultraprocessados (bom para a nossa saúde e para a do planeta);
  • Reduzir o desperdício alimentar.
  • Aproveitar a água da lavagem de alimentos para regar as plantas, lavar o chão ou para descarga na sanita.

CONSUMO EM GERAL

Repensar e reduzir o nosso consumo em geral. Pensar, na ida às compras, na “água virtual”, referente à água que é utilizada como matéria-prima essencial para a produção de quase tudo o que consumimos e usamos, como alimentos, roupa, automóveis, eletrodomésticos. Por exemplo, um simples café envolve o gasto de 140 litros de água; para confecionar apenas uma t-shirt, são necessários 2700 litros de água.

HORTAS E JARDIM

  • Armazenar e regar com a água da chuva.
  • Não regar as plantas em horários de maior calor (a água perde-se com o calor, por evaporação).
  • Em vez de mangueira, recorrer a um regador para regar as plantas, usando apenas a água necessária.
  • Optar por plantas naturais da região, mais adaptadas ao clima e que exigem menos água.
  • Instalar uma rede de rega eficiente em todos os jardins e similares (por exemplo: sistemas gota a gota). Sensores de humidade no solo e de interrupção de rega na ocorrência de precipitação ajudam a regular a intensidade, evitando escoamento superficial para pavimentos ou sumidouros, que aumentam também o consumo de água desnecessário.
  • Optar por coberturas dos solos ajardinados com soluções como casca de pinheiro, pedra rolada, brita ou jorra vulcânica, que conservam durante mais tempo a humidade no solo, reduzem a germinação e o desenvolvimento de plantas infestantes, promovem a estabilização da temperatura do solo, favorecendo o bom desenvolvimento das raízes e dos organismos do solo, e previnem a erosão e a compactação causada pela chuva intensa.

LAVAGEM DO CARRO

  • Utilizar um balde com água para lavar o carro, em detrimento da mangueira e da água corrente.
  • Lavar o carro com a menor frequência possível.

FORA DE CASA – CIDADANIA E ATIVISMO

Será justo (e sustentável) esperar que sejam os cidadãos, por fecharem a torneira enquanto escovam os dentes ou por aproveitarem a água do banho que acumulam num balde, a salvar o país do stresse hídrico?

A pergunta é uma provocação e a resposta é obvia: não!

Essa é apenas, como lembra Ana Serrão, da Associação Ambientalista Zero, “uma parte na contabilidade geral de um país cujas perdas na rede de abastecimento de água se contam, por si só, em centenas de milhões de metros cúbicos e que abraça novas culturas de regadio intensivo numa altura de óbvia escassez.”

O que podemos e devemos exigir das empresas e do poder político?

  • legislação e regulação para a eficiência hídrica e para a sustentabilidade na utilização deste recurso.
  • adoção de soluções eficazes para o problema das perdas de água registadas no sistema de abastecimento.
  • investimento e promoção de campanhas de sensibilização e de literacia da população sobre a pegada hídrica, de forma a que se promovam melhores escolhas mais conscientes.
  • intervenção multidisciplinar preventiva e ordenamento estratégico do território.
  • pressão para adoção de sistemas de utilização de água mais eficientes, tirando partido das soluções, equipamentos e tecnologias inovadores.
  • aposta na irrigação de precisão.
  • promoção de variedades agrícolas mais adaptadas aos recursos hídricos que a região de produção consegue fornecer.
  • aplicação dos esforços da Comunidade Europeia para a introdução de requisitos de eficiência hídrica e energética em torneiras e chuveiros produzidos na União Europeia.
  • avaliação e melhoria da eficiência global dos edifícios, ponderando a reutilização ou reciclagem da água (por exemplo das águas cinzentas) e o recurso a origens alternativas (como a água da chuva).

                  

Gota a gota. Junta a tua voz e os teus gestos a esta luta!


Para saber mais sobre este assunto

Ana Serrão. Desafio ao bom senso: a seca e a inação. Gerador [Internet]. 2022. [2022 Mar 14].

Food’s Big Water Footprint [Internet]. Water Footprint Calculator. 2022 [cited 25 March 2022].

Ferraz, A., Gonçalo, C., Serra, D., Carvalhosa, F. and Real, H., 2020. Água: A pegada hídrica no setor alimentar e as potenciais consequências futuras. Acta Portuguesa de Nutrição.

Hallström E, Carlsson-Kanyama A, Börjesson P. Environmental impact of dietary change: a systematic review. J Cleaner Prod 2015

Marston LT, Read QD, Brown SP, Muth MK. Reducing Water Scarcity by Reducing Food Loss and Waste. Front Sustain Food Syst. 2021 Apr 1;5:85

Mapping green water scarcity under climate change: A case study of Portugal Paula Quinteiroa; Sandra Rafaelaa; Bruno Vicentea; Martinho Marta-Almeidab; Alfredo Rochab; Luís ArrojaAna Cláudia Diasa.

 Avaliação das Disponibilidades Hídricas Atuais e Futuras e Aplicação do Índice de Escassez WEI+ Rodrigo Proença de Oliveira – Bluefocus / Técnico – U.Lisboa


[1] “O índice PDSI (Palmer Drought Severity Index), foi desenvolvido por Palmer (1965) e implementado e calibrado para Portugal Continental (Pires, 2003). Este índice baseia-se no conceito do balanço da água tendo em conta dados da quantidade de precipitação, temperatura do ar e capacidade de água disponível no solo e permite detetar a ocorrência de períodos de seca classificando-os em termos de intensidade (fraca, moderada, severa e extrema). A distribuição percentual por classes do índice PDSI no território é a seguinte: normal: 0%; seca fraca: 0%; seca moderada: 3,7%; seca severa: 67,9%”; seca extrema: 28,4%

[2] Citado em O uso da água em Portugal –  Olhar, compreender e actuar com os protagonistas-chave, Fundação Calouste Gulbenkian, C- The Consumer Intelligence Lab, projecto de conhecimento Return On Ideas, Março 2020

Eunice Maia

Eunice Maia é a fundadora da “Maria Granel”, a primeira zero waste store e mercearia biológica 100% a granel em Portugal.

Autora dos livros “Desafio Zero – Guia prático de redução de desperdício dentro e fora de casa” e “Diz não ao desperdício com o Simão” (em co-autoria com a Betweien). Escreveu o prefácio da edição portuguesa do livro “Zero Waste Home”, de Bea Johnson, uma das suas maiores inspirações.

Vencedora do prémio nacional Terre de Femmes, da Fundação Yves Rocher, para a preservação da biodiversidade. Encara a sustentabilidade do planeta como uma missão de vida.

É uma ativista que luta pelo consumo consciente, pela redução de desperdício e por um estilo de vida low waste. Criou o “Programa Z(h)ero”, projeto educativo ambiental premiado de redução de desperdício em ambiente escolar e empresarial.