carro elétrico

I Am Isabel Silva

Ter ou não ter um carro elétrico? Para mim não é questão.

Desde que mudei de um carro a combustão para um carro elétrico, a minha vida mudou. Fui obrigada a parar, a desacelerar. E quero partilhar a minha experiência convosco.

Tudo o que faço na minha vida tem de ter um propósito. Nunca fui de fazer as coisas porque sim ou só “por fazer”. As nossas ações dizem muito de nós e acabam por refletir o caminho que queremos trilhar para a nossa vida, e foi por isso que decidi trocar o meu carro a combustão por um carro elétrico.

Se, quando acordo, como todo os dias uma fatia de pão torrado com banana e cubinhos de curcuma e gengibre não é porque “dizem para eu comer porque faz bem” que eu vou começar comer esta combinação diariamente. Podia até ser, mas seria redutor se eu não soubesse responder à pergunta: mas porque é que o fazes?

A curcuma e o gengibre são duas combinações perfeitas para reforçar a nossa imunidade e acelerar o metabolismo. Se assim o é, então vou mesmo à fonte e como da forma mais primitiva possível. Sobretudo porque tudo o que metemos cá dentro conta e determina a nossa força e vitalidade, e sinto-me bem com esta rotina. Melhor, mais do que sentir, sabe-me bem.

Ora, isto para dizer o quê? Que uma da metas do meu 2020 passou por aderir à mobilidade elétrica. E esta decisão surge não porque a sociedade me está a pedir ou porque o ar está cada vez mais poluído. Quer dizer, também, mas não só por isso. 

A decisão surge porque quero realmente contribuir para uma mobilidade mais verde e mais limpa. Porque eu quero acompanhar e evoluir na busca de caminhos mais sustentáveis para mim e, no final de contas, para os outros.

Em tempos li, algures, que um dos factores que contribui para um estado emocional mais feliz e equilibrado, é o de atuar em comunidade e sentirmos que estamos a ser úteis para algo superior às nossas rotinas do dia a dia. 

Está muito claro na minha cabeça as razões que me fazem querer ter um carro elétrico:

— Zero Emissões de CO2

— Zero Poluição Sonora

— Mais poupança nas deslocações porque o preço da eletricidade é sempre mais reduzido e mais estável do que o preço dos combustíveis fósseis

— Menos custos de manutenção (por exemplo, não preciso de mudar o óleo e lubrificantes)

— Incentivos Fiscais (os veículos elétricos são isentos de Imposto Único de Circulação e Imposto Sobre Veículos)

— Dístico Verde (com este dístico posso estacionar em qualquer canto de Lisboa e não pago mais por isso)

Posto isto, e tendo meu propósito alinhado, sinto-me suficientemente segura e motivada para enfrentar os desafios que se avizinham.

Nunca se esqueçam que, qualquer decisão que tomemos, mesmo sabendo que será em nosso benefício, traz sempre prós e contras. Temos é de perceber se nos compensa ou não.

Faço aqui mais um ponto de comparação com situações da minha vida: não é por amar correr e, sobretudo, participar em maratonas, que não existam vários momentos dos meus treinos em que me apetece desistir e me sinto desmotivada. Não basta gostar para ganhar. Para sermos certeiros, temos de ter disciplina e saber o que queremos. 

E vocês agora estão seguramente a querer perguntar: então e conta lá as tuas aventuras no que toca à autonomia e local para carregar o teu elétrico.

Estes dois últimos pontos, na minha opinião, são daquelas coisas que nós só podemos falar, depois de experimentar, e não podemos, como se costuma dizer, “emprenhar pelos ouvidos”. Isto depende de muita coisa: do carro, das baterias, do posto de carregamento. Mas depende, sobretudo, do nosso mindset.

Este foi o meu desafio ao trocar para um carro elétrico

A partir do momento que trocamos um carro a combustão por um elétrico e, nota importante, temos apenas um carro elétrico na garagem, que a nossa vida desacelera obrigatoriamente. 

Não vale a pena querer pensar numa viagem de Lisboa para o Porto em menos de três horas, porque ela durará sempre mais do que isso. Não vale a pena pensar que conseguimos carregar um elétrico a 100%, como quando se abastece um carro a gasolina ou gasóleo. 

Falando da minha experiência com o carro, em 30 minutos consigo carregar o equivalente a 150 quilómetros se utilizar um carregamento rápido. Se optar por carregar em casa na Wall Box, que está instalada na garagem, preciso da noite inteira,  o que não é necessariamente mau.

Tudo isto para vos dizer que, quando introduzimos uma nova rotina na nossa vida, que vem substituir outra altamente enraizada, temos de estar disponíveis para sair da zona de conforto e acreditar que a premissa “primeiro estranha-se e depois entranha-se” funciona. E funciona mesmo!

Falando das minhas deslocações, que normalmente são sempre em cidade, posso garantir-vos que ter um elétrico é um sonho. Em Lisboa, não faltam locais para carregamentos, e o pára-arranca no trânsito acaba por ser regenerador para a nossa bateria. A travagem faz com que o carro produza ele próprio energia, por isso se diz que estes são os carros ideais para andar pela cidade.

Então e as viagens longas? Esse sim é o grande desafio para mim. Porém, não é impossível. 

Ainda me recordo da minha primeira viagem que fiz no meu elétrico, rumo à minha terra, Santa Maria de Lamas, a quase 300 quilómetros de Lisboa. A minha primeira viagem sozinha com o Caju.

A primeira coisa que agora me vem à cabeça sempre que faço longas viagens é: planear para não me preocupar.

Coisas que temos sempre de ter em conta ao ter um carro elétrico

— Não sair de casa sem ter o carro carregado até, pelo menos, 80%; 

— Ter um aplicação que permita saber, ao longo do percurso, onde há postos de carregamento rápidos, se estão a funcionar e se estão a ser ocupados (o meu carro, por acaso também tem este sistema de autonomia e é o meu GPS de carregamentos);

— Programar uma ou duas estações onde queremos parar e, durante o carregamento rentabilizar o tempo. Como? Seja para ter uma refeição, fazer telefonemas, ou enviar emails. No meu caso, paro durante 30 minutos no máximo;

— Aceitar que a velocidade ideal, de forma a economizar bateria, não deve ultrapassar os 100/110 KM/hora

A partir do momento que reprogramamos este chip na nossa cabeça, deixamos de ver e sentir qualquer tipo de entrave em relação à nossa escolha.

A minha condução e a forma como olhos para os carros mudaram. Está tudo certo em demorar mais tempo a chegar ao local, mas será que estou mesmo a demorar mais tempo ou estou a levar o tempo necessário para chegar de uma forma sustentável, e até mais serena e menos stressante?

A condução de um elétrico, vos garanto, é muito mais confortável e prazerosa do que um carro a combustão. Agora que já fiz várias viagens, consigo perceber a janela de oportunidades que se criaram na minha cabeça para me organizar e pensar mais ao detalhe e com mais foco nos meus pensamentos.

É aceitar, para desfrutar mais. É contrariar o stresse alucinante da nossa sociedade e perceber que o que esta certo é fazer mais vezes as coisas do nosso dia a dia devagar. 

Se já tive dissabores? Claro que sim

— Já me cheguei a um posto de carregamento com 20% de bateria e ter um carro à minha frente para carregar. Tive de esperar os 30 minutos dele e depois os meus 30 minutos de carregamento. Podia ter procurado outro posto? Podia mas não tinha bateria suficiente;

— Já cheguei a um posto de carregamento que não estava a funcionar, ao contrario do que referia na aplicação;

— Já tive de dar uma volta maior para colocar o carro carregar, e isso obrigou-me a caminhar várias dezenas de metros até chegar ao local pretendido.

E nesses dissabores, tiveste momentos bons? Sim.

Sempre que tenho um problema ou dúvida nos carregamentos, há sempre alguém que acabo por conhecer neste universo dos carros elétricos. Já me cruzei com motoristas TVDE que me deram dicas e conselhos das melhores horas e locais para carregar, por exemplo. Nos tempos em que estou a carregar, posso confessar-vos que também já fiz muitos bons contactos para a minha vida profissional. 

Lembrem-se: se querem ter um carro elétrico, o ideal é mesmo experimentarem-no em diferentes ocasiões das vossas vidas. Depois, sim, podem tirar as vossas conclusões. Digo-vos isto porque, se fosse só pelos conselhos de alguns familiares e amigos meus, nunca teria um elétrico.

Percebo a razão deles. É muito mais cómodo não sair da zona de conforto. Mas não é assim que eu gosto de viver a minha vida.

Afinal, ter um elétrico compensa, ou não?

Quando coloco tudo na balança e analiso os prós e contras, deixa de haver indecisões. Bem sei que o tema da mobilidade elétrica ainda tem um longo caminho pela frente, mas não tenho a menor duvida que, quem escolhe evoluir, deve seguir por aqui. 

Algumas pessoas já me falaram da questão do lítio, por ser um recurso não renovável. Tal como o petróleo, certo? Acho que aqui também cabe ao governo controlar a exploração deste minério e avaliar rigorosamente o impacto ambientar desta exploração. Por outro lado, também nos cabe a nós cuidar das baterias do nosso carro para durarem muitos anos e, no final das suas vidas, aproveitá-las através da reciclagem e reutilização. 

Mas sinto que o caminho é por aqui.

A minha vida mudou. Vou mais devagar, sim, mas vou menos apressada. Paro mais vezes, mas gasto menos dinheiro. Vou mais silenciosa mas reflito mais. E aprecio mais a paisagem que me envolve.

Desde junho até ao dia de hoje, esta é a minha forma de olhar para a mobilidade elétrica em Portugal, baseada na experiência do meu carro, neste caso, um Renault Zoe. 

Seguramente que muitos terão uma experiência diferente, outros nem tanto.

E voltando ao princípio, porque isso para mim é o mais importante, nunca nos podemos esquecer do nosso propósito. 

Façam este exercício e pensem: porque é que eu quero ter um carro elétrico na minha vida. Sabem a resposta?