De “fast fashion addict” a ativista: a minha história

Eunice Maia Eunice Maia
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18.05.2022

Sou uma completa outsider no mundo da sustentabilidade e sinto-me, muitas vezes, uma fraude por isso. A minha formação académica nunca passou pelo tema, o meu percurso profissional desenhou-se num noutro sentido e o meu trajeto pessoal, então, nem se fala – longe, muito longe dos valores que me guiam atualmente! A minha história de transição ecológica é completamente improvável e os pontos (que estiveram sempre lá, como diria Steve Jobs) só se uniriam muito mais tarde. 

O meu passado, entre os 18 e os 33 anos, foi pautado por um consum(ism)o excessivo e irresponsável, apagado de qualquer consciência ambiental e totalmente desvinculado de uma preocupação com o impacto causado pelos meus gestos. Nesse passado, como dizia, não há qualquer vestígio de ativismo ambiental.

Bem pelo contrário, eu era a personificação de um pequeno “desastre” a esse nível: todos os meses esbanjava uma parte muito significativa do meu ordenado em roupa e acessórios em lojas de fast fashion. Quando chegava a casa, o impulso dava lugar ao vazio, a felicidade instantânea da aquisição dava lugar à angústia da acumulação sem lógica. Tinha o armário cheio, mas não me conseguia ouvir, nem encontrar em tanto ruído, em tanto estímulo.

O meu único contributo — pensava eu na altura — era reciclar, e esse gesto enchia-me as medidas, aplacando-me a culpa de consumir tanto.

A minha infância, no entanto, foi de profunda comunhão com a natureza e de respeito absoluto por esse elo sagrado — algo que eu só valorizaria depois. Sou minhota, cresci entre levadas graníticas e granjas abundantes, entre o milho e a vinha, no regaço verde da aldeia. Pertenço a uma família de gente do campo, que nele trabalhou e nele encontrou sustento durante várias gerações. 

Lembro-me do meu pai, desde sempre, correr ao fim de semana da cidade (e depois de uma semana de trabalho extenuante) para o campo, de ansiar por aquela liberdade a cada dia, e de o achar louco por preterir o conforto de casa para se enfiar no frio, na chuva, na solidão de umas leiras de terra.

Imputei-lhe o mesmo diagnóstico de loucura quando fizemos centenas de quilómetros para ir perceber com especialistas do assunto como fazer vermicompostagem. Em nossa casa, sempre se separou o lixo, sempre se compostou no quintal e se deu nova vida aos resíduos orgânicos que, depois de transformados em adubo, fertilizavam a nossa horta. Tudo isso acontecia sem que eu interviesse ativamente — era até o oposto, fazia questão de me manter longe dessas rotinas e escapulia-me sempre que podia a estas tarefas. 

Sem nunca o pretender ser, o meu pai talvez tenha sido o primeiro «ativista ambiental» que conheci. O seu amor à terra, que eu não percebia, agora enternece-me, comove-me e inspira-me. Foi com ele que aprendemos a semântica da poupança (energia, dinheiro, comida…) e aplicámos, sem saber, a lei de Lavoisier: «Nada se perde, tudo se transforma.» 

Apesar destas minhas raízes, durante muitos anos, ironicamente, permaneceria numa espécie de “alienação feliz”,  a minha existência continuaria a ser marcada pelo consumismo exacerbado e por uma certa futilidade, como se «ter» fosse um imperativo (e o único) sinal de felicidade e de sucesso.  Comprava (muito), descartava (muito) e as consequências do meu consumo, nomeadamente, o lixo crescente, permaneceriam longe da minha vista e, sobretudo, longe da minha consciência.

Foi uma história de amor que me uniu a um açoriano, o meu marido Eduardo, e que me empurrou para a capital. Viver em Lisboa quando se é de fora é sentir constantemente o apelo do regresso, é andar com a província instalada para sempre dentro do nosso coração. 

E foi o que nos aconteceu aos dois. Estávamos desenraizados e longe das nossas origens. Até que chega o ano de 2013 e uma reviravolta. Num projeto que é fruto do amor que nos une, sonhámos e criámos a primeira mercearia biológica 100% a granel em Portugal — a Maria Granel, que abriria as portas em novembro de 2015. O conceito nasceu exatamente como homenagem a essas raízes comuns associadas à terra, como uma forma de recuperarmos a ligação afetiva que sentíamos nas nossas pequenas comunidades de origem, tão bem cristalizada no imaginário coletivo das antigas e tradicionais mercearias de bairro. E o que primeiro assomou como simplesmente uma mercearia biológica a granel foi depois crescendo como conceito dentro de nós (e da minha vida) e afirmando-se (e construindo-se) como projeto de redução de desperdício, a primeira zero waste store nacional. 

Pelo caminho, e graças à Maria Granel, duas mulheres mudariam para sempre a minha vida, mudariam a forma como eu olhava para o mundo e, em particular, a forma como eu (não) olhava para o desperdício que gerava: Bea Johnson (“mãe” do movimento internacional Zero Waste) e Ana Pêgo (bióloga marinha e “artivista” que sensibiliza, através da arte e oficinas e um livro, para o problema do lixo marinho).

Ambas me fizeram refletir, com o seu exemplo, sobre o desperdício que estava a gerar – ambas me incentivaram, sem o saber, a iniciar a minha jornada pessoal de transição ecológica. Algo nas duas e nas suas histórias, na sua humanidade, tocou o meu coração, ressoou em mim, fazendo-me agir para cuidar melhor (de mim, dos outros e do mundo). 

Talvez por ter estado do outro lado na «minha outra vida», sei que a ecologia, a sustentabilidade (e talvez, ainda mais, o movimento zero waste ), podem, por vezes, parecer radicais, deixando reservas a quem quer mudar, por não saber bem o que fazer, como fazer, por onde começar, por ter medo do erro ou de se sentir julgado e «marginalizado», cheio de culpa por não chegar ao «zero» nem perto disso. Sinto tantas vezes essas mesmas emoções, essa «ecoansiedade». Nessas alturas, quando mergulho na dúvida, quando me sinto impotente por falhar tanto, lembro-me da Bea e da Ana, daquilo que me motivou a mudar. E lembro-me também da frase da Anne-Marie Bonneau (zero waste chef) que me resgata imediatamente, pelo seu otimismo e força, desse dilema interior: «Nós não precisamos de um grupo de pessoas a praticar zero waste [ou ecologia, no geral] de forma perfeita; precisamos de milhões a fazê-lo de forma imperfeita.» 

Acredito muito no poder dos pequenos gestos imperfeitos. O zero é uma utopia, mas é uma meta pela qual vale a pena lutar e fracassar todos os dias. Continuo a sentir-me uma fraude, mas é a imperfeição do meu caminho que me dá constantemente força para continuar e para melhorar. E agradeço muito ao meu passado consumista por me ter dado esta lição de empatia. 

Eunice Maia

Eunice Maia é a fundadora da “Maria Granel”, a primeira zero waste store e mercearia biológica 100% a granel em Portugal.

Autora dos livros “Desafio Zero – Guia prático de redução de desperdício dentro e fora de casa” e “Diz não ao desperdício com o Simão” (em co-autoria com a Betweien). Escreveu o prefácio da edição portuguesa do livro “Zero Waste Home”, de Bea Johnson, uma das suas maiores inspirações.

Vencedora do prémio nacional Terre de Femmes, da Fundação Yves Rocher, para a preservação da biodiversidade. Encara a sustentabilidade do planeta como uma missão de vida.

É uma ativista que luta pelo consumo consciente, pela redução de desperdício e por um estilo de vida low waste. Criou o “Programa Z(h)ero”, projeto educativo ambiental premiado de redução de desperdício em ambiente escolar e empresarial.