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Voltei a participar numa prova, e nunca o meu propósito enquanto corredora esteve tão alinhado

A EDP Virtual Race trouxe de volta a minha paixão por colocar um dorsal e correr com um grupo, mesmo que, na verdade, estivesse sozinha. Vejam o vídeo.

Antes de lerem este texto sobre a minha prova gostava que recordassem o artigo que publiquei sobre a forma como encarei a corrida durante o período de quarentena. Estava longe de imaginar um isolamento de 47 dias, privada do um dos bens mais preciosos que temos na vida: a liberdade. Contudo, essa condição nunca me impediu de continuar alinhada com a minha meta para 2020: correr melhor mais, e melhor.

Não é correr Maratonas.

Não é fazer o meu melhor tempo nas provas.

É muito mais do que isso. 

É correr melhor, e correr melhor é olhar para a corrida como uma ferramenta benéfica para o nosso estilo de vida. Não quero andar cansada, a treinar demais e a sentir-me ansiosa, quero que a corrida simplesmente contribua para melhorar o meu potencial como atleta, como mulher e, sobretudo, como ser humano. Quero sentir-me serena e chutar a ansiedade para canto. Ela não pode ser mais do que eu, mas por vezes cansa-me estar sempre a lutar contra ela. 

Aqui estou a falar, por exemplo, daquele vício que aparece nos atletas recreativos ou de elite que estão sempre a participar em provas e focados no ritmo que o relógio acusa. Já tive esse vício, mesmo quando não estava em preparação para provas. Quando me apercebi disso, tive que voltar às origens e voltar a correr apenas pelas sensações. E é uma maravilha! Depois somos surpreendidos com tempos fantásticos, como aconteceu na sexta feira com a EDP Virtual Race. 

Na verdade, eu só quero mesmo é sentir-me BEM e LEVE a correr. São estes dois estados que depois são transportados para as outras área da minha vida. 

É só isso.

Leiam o artigo. Depois dessa leitura vão entender o porquê de me sentir tão entusiasmada com uma prova como esta,

A EDP Virtual Race

Esta foi uma prova virtual e de apenas 10 quilómetros que, na verdade, é a distância de provas que menos me entusiasma. Porém:

  • Pude fazer um teste e saber como está a minha atual condição física desde que iniciei o meu trabalho com um treinador de corrida;
  • Não corria provas desde o dia 31 de Dezembro e, em boa verdade, não sinto um grande entusiasmo desde a Maratona de Nova Iorque. Aquele entusiasmo de quem andou a treinar com um objetivo, entendem?
  • Estive durante 2 meses a correr à beira de casa, longe do rio e do mar.
  • E no meio de toda esta conjuntura, esta corrida tem um DORSAL. E o dorsal é o chavão de parte da minha motivação. O dorsal faz-me correr de peito orgulhoso. É a prova de que sou uma das escolhidas, uma das afortunadas. Ninguém tem um igual ao meu. Aquele nome e aquele número são meus. E é sobretudo a prova de que estamos todos ligados porque, quem se inscreve, tem direito a um. Só quem se inscreve tem direito a levar este distintivo. É um pormenor mas que, do ponto de vista emocional, me diz muito. Há coisas que não se explicam, só se sentem. É tudo uma questão de energia.

Tudo isto levou-me a encarar esta corrida com muito entusiasmo. E por isso decidi, porque a vontade era muito, partilhar convosco todo o meu ritual — desde o acordar até completar os 10 quilómetros — no dia de uma prova.

Senti tudo. O meu sono foi leve, a vontade de ir à casa de banho tornou a surgir, tal e qual como nos dias de prova, e as borboletas a caminho do ponto de partida eram as mesmas. 

A única diferença foi não ver a festa. Mas, curiosamente, senti-a. No momento de carregar no START do relógio só queria dizer aquilo que digo sempre a quem está à minha volta:

“Não ganho dinheiro com isto e não tenho nada para provar a ninguém, nem mesmo a mim. Mas neste momento, isto é só a coisa mais importante da minha vida.”

Escolhi partir da Fundação EDP. Foi ali que fiz o primeiro treino d’Os IncríBeis de 2020, é ali que passo muitas vezes a correr. Queria muito começar de frente para aquela deslumbrante paisagem: o rio Tejo e a Ponte 25 de Abril. 

E lá fui. Arranquei, eram 7 horas da manhã.

Comecei como terminei: sempre serena. Há uns meses se me perguntassem como seria possível correr serena aos ritmos a que fui, diria que era impossível. Claramente que não estava a rolar, e também sabia que queria ir rápido, mas nunca, em momento algum, estive desconfortável com a minha prova. 

Recordo-me de sentir exatamente o contrário no dia em que fui sub40 aos 10 quilómetros no Grande Prémio de Natal há uns anos. Nessa prova, fiz uma média de 3’58 min/km e tive a preciosa ajuda do Rui e do João que foram as minhas lebres. Foi um sofrimento. Só queria que aquilo acabasse. O objetivo era só correr em menos de 40 minutos. Hoje penso: mas que desafio estúpido foi aquele se sabias que te ia causar tanto sofrimento?

Na verdade não sabia que ia ser tão duro. E a minha sorte foi aquele final, ali na Avenida da Liberdade, ser sempre a descer. Ia já com uma dor de burro que nem é bom lembrar.  Naquele dia disse que tão cedo não me submetia a um sacrifício daqueles. 

Hoje penso de forma diferente. Na altura não sabia o que sei hoje. Hoje sei que para correr mais rápido, tenho de aprender a correr melhor e que o relógio não manda mais do que o corpo e a mente, está ali só para dar umas orientações. E vai na volta gosta de nos falhar em momentos decisivos. 

Nos meus treinos que faço com o Paulo Colaço, dos Run4Excellence, trabalho sempre por tempo nesta fase, nunca a pensar nas distâncias. O mesmo em relação aos ritmos, com excepção de um dos treinos em que ele me pedia, nas séries mais longas, para tentar ir perto dos 4’10 min/km. E este ritmo tem a ver com a tal questão do meu teste de limiar anaeróbio de que já falei neste artigo. 

Curioso que, esta pouca dependência do relógio acabava sempre por me surpreender nestes treinos em que tinha de respeitar o ritmo. Ia sempre ligeiramente mais rápida, mas de uma forma natural. 

Lá mandava uma mensagem no final do treino ao coach. E ele respondia: “é isso mesmo. Estamos no bom caminho.”

Só dizia isto. Adoro sentir que tenho alguém que cuida de mim e melhor: sabe bem onde tenho de chegar sem lhe dizer nada. E eu também não lhe fazia perguntas. Para quê? Sinto-me bem e em breve vou ter essas respostas.

Já as tenho. E esta EDP Virtual Race foi o click de que precisava.

A primeira metade da prova levou-me até à Estação de Comboios do Cais do Sodré. Corri no silêncio, porém cruzei-me com alguns corredores até porque as 7 da manhã são a “nossa” hora. Muitos olhavam para mim, mas acredito que não tanto por ser eu. É que levava um dorsal ao peito bem visível. E acredito que aquilo gerasse curiosidade. Sorria  para dentro e ainda me dava mais pica para me manter no foco.

Passou tudo muito rápido, mas nunca esqueço o que senti e quem me passou pela cabeça. Não me esqueço do que senti porque nunca senti o que senti. Não me sentia em esforço, mas sabia que estava a desafiar-me. Por essa razão mantive-me rápida mas controlada até ao retorno. E depois fui desconfinando os meus receios: e se, como já aconteceu tantas vezes, me aparece uma dor no peito, como aquela da Maratona de Sevilha?

Agora sei que essas dores aparecem quando vou rápida demais. Quando vou acima das minhas capacidades. E porque será que agora não acontece? Ora lá está, como diz o Paulo: “estás mais económica. Mudámos o combustível. Estas mais ecológica”

É verdade. E tudo sem eu dar por nada. De forma orgânica. Que maravilha, pessoal!

Esta foi uma das conversas que tive com o Paulo numa das últimas vezes que fui ao Norte para fazer uma avaliação da minha condição. Esta frase veio à minha cabeça no quilómetro 5, e não foi por acaso que, de 4’06 min/km fui para os 3’56 min/km e cheguei até aos 3’53 min/km, em grande categoria. 

Perdi o receio porque sabia que estava capaz. Aí olhei para o relógio e tive vontade de rir  e pensei: “olha a miúda a dar-lhe sem dar por nada”

Foi tão isto que eu senti, por isso o meu regresso foi uma grande alegria. Quando dei por ela ja estava a ver o campo de padel ali á pé da ponte e estava na calçada portuguesa com o MAAT à direita. 

Foi lindo. 

Senti que corri uma prova à séria, e isto foi um teste que tinha de fazer porque queria muito perceber se seria a altura certa para começar a colher aquilo que estou a semear com o Paulo. 

A minha intuição nunca me engana. Estou no caminho certo e já só queria ligar ao Paulo para lhe contar a boa nova. 

E sabem o que é ainda mais surpreendente e me comoveu? Foi ligar-lhe e sentir na voz que o entusiasmo e felicidade era exatamente igual ao meu. Eu corri esta prova pelo Paulo, e ele esteve sempre no meu coração e, pelos vistos, eu no dele.

Dia 22 de Maio de 2020 subi ao pódio e conquistei o titulo de “Corredora dobem.”, porque o que realmente importa é usar a corrida para desenvolver a melhor versão de mim.

Estou grata à EDP por criar estas iniciativas na comunidade de corredores. 

Corri na sexta, mas a prova estava válida para quem quisesse completar os 10 quilómetros até domingo. Foi maravilhoso receber as vossas mensagens com o registo da vossa prova durante este fim de semana. É é tão isto: sentir que estamos todos ligados. Venham mais destas.

Para terminar, deixo-vos a última partilha que o Paulo fez no Instagram do seu projeto Run4Excellence. Estou muito grata. Sou, de facto, muito focada e cumpridora das praticas que me fazem feliz, e tudo tem mais sentido quando o trabalho é em equipa.

Agradecimentos:

EDP
Run4Excellence

Vídeo:

Rodolfo Franco