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Passei 47 dias a correr sozinha, em segurança, ao nascer do sol e em silêncio. Agora quero contar-vos tudo

Nunca quebrei as regras impostas no decorrer do estado de emergência. Adaptei-me. Fui feliz, apenas com rotinas novas. Esta é a minha experiência.

Vocês já sabem, não é novidade, sou completamente apaixonada pela atividade física, especialmente por correr, não só porque desfruto do processo, mas também pelo bem-estar que me provoca no corpo e na mente depois do treino. Então quando se fala de correr ao ar livre, melhor ainda. É um alimento precioso para a minha energia e entusiasmo e, tão ou mais importante, para o meu rendimento e produtividade. 

Quando foi decretado o estado de emergência, percebi que a nossa vida e a forma como iríamos interagir com os outros e estar na natureza ia mudar radicalmente a partir desse momento. Entre várias reflexões que fiz, pessoais, profissionais e empresariais, uma delas foi a de perceber como ia integrar o desporto no meu dia a dia. 

Quem ama sentir-se ativo e com saúde dá sempre um jeito. Podia continuar a fazer as minhas sessões de alongamentos, os meus circuitos na sala de minha casa ou até mesmo na varanda que, embora seja pequenina, tem uma vista que me inspira e motiva sempre que decido fazer rondas de skipping alto e baixo com intensidade alta (aqui dava-lhe forte e saía da minha zona de conforto para ativar o metabolismo). Mas iria sempre faltar qualquer coisa. 

Iria sempre faltar aquela sensação de liberdade. Liberdade de movimentos. Aquela liberdade que não te confina a quatro paredes, que tem o cheiro da terra, o vento desafiante, os pingos da chuva e o som das folhas das árvores e dos passarinhos. Ah, e a luz do sol que só não me aquece porque quando o vejo ainda vai tímido.

Esta liberdade que me inspira e me transforma só encontro na corrida, e só quando corro lá fora. Na estrada, no parque, à beira do rio ou do mar. Não me interessa, na verdade. Só tem é de ser lá fora.

Amo correr e sou profundamente feliz quando calço umas sapatilhas e desbravo caminho. Por isso, tive de perceber se podia sair à rua para isso e o que é que tinha de fazer para estar em segurança e garantir que estava a respeitar a comunidade. Tinha de haver um jeito, porque amo correr.

Reparem, há quem leia este texto e não esteja a sentir o mesmo que eu, e quanto a isso tudo certo. E da mesma forma que correr é o meu alimento preferido, por outro lado,  consigo viver sem ele e continuar serena e positiva. Mas vai obrigar-me a uma nova ginástica física e mental que, se puder evitar, melhor ainda. Já bastam todas as mudanças que estão a ocorrer. 

Acordei no dia 18 de Março, às 6 da manhã, como sempre e, manda a rotina, tomei o pequeno almoço devagar e li as notícias. Abri a app do “Público” e vi a seguinte notícia:

“Estado de emergência: pode correr no parque, mas sozinho. As pessoas estão autorizadas a sair de casa para ir comprar alimentos, receber cuidados de saúde, comprar medicamentos, passear o cão e até correr no parque. Mas, sozinhas e mantendo a preocupação de cumprir o distanciamento social”

Honestamente, já não me lembrava do dia em que os meus olhos brilharam tanto. Não era o meu treinador, amigos ou família que estavam a dizer que eu podia correr. Não era sequer o órgão de comunicação social. Era o Estado! Que grande Alegria que tive naquele momento.

Nesse mesmo dia comecei a correr. 

Pode até parecer ridículo, mas senti o mesmo que sentia na adolescência quando os meus pais, depois de alguns dias em reflexão, me deixavam fazer uma viagem com as amigas ou ir a uma festa até as 3 da manhã. É aquela permissão que te tranquiliza e te faz atuar de consciência tranquila. 

Como em tudo na vida, se me estão a dar liberdade para fazer algo que tanto valorizo e amo, então o meu compromisso, seguramente, é garantir que sou 100% responsável. E ia ser, caraças, ninguém me poderia apontar nada. Sobretudo, porque gosto de me orgulhar de ser uma exemplar agente de saúde pública. 

Então, o que tive de fazer para garantir que mantinha o distanciamento social e que, por outro lado, dava espaço para que todos que assim o entendessem pudessem desfrutar desta condição de liberdade?

1) Sozinha já ia, mas durante este momento ia sempre ao nascer do sol, e à beira de casa. Sempre corri muito à beira mar e rio, mas, por agora, não ia dar. Até vejo algum romantismo em criar saudade desses sítios onde corria. O reencontro, que quando vos escrevo este artigo ainda não aconteceu, será mágico, certamente. 

Ir a esta hora significava garantir que poucos, muito poucos, estariam a correr ou a fazer caminhada. E que, quando os encontrasse, garantir a distância de segurança seria tarefa fácil. E assim o foi. Nunca me enganei. 

2) Não fiz treinos superiores a 45 minutos. Para uma atleta com veia de maratonista, estes são treinos bastante curtos. Mas é a única forma de garantir que há espaço para todos. No meu pensamento, quanto mais tempo corresse, mais pessoas podiam aparecer. Então vamos ser rápidos, porém, eficientes. 

Nesta fase diverti-me muito nos treinos. O Paulo Colaço, o meu treinador, deu-me sempre treinos com estímulos diferentes para me manter sempre motivada. Ora rolava, ora fazia um progressivo, ora fazia um intervalado de alta intensidade. 

Garantir estes dois pontos obrigou-me a ter uma rotina de horários muito pouco flexível no que toca à hora de me deitar. Começar a correr entre as 6h30 e as 7 horas fazia-me sempre acordar às 5 da manhã porque, no meu caso, tenho um prazer enorme em tomar um bom pequeno-almoço. Quando digo bom não tem de ser em quantidade, mas em qualidade. 

Comia sempre duas torradas de pão de fermentação lenta (podem ver a receita do meu pão aqui) recheadas com banana, manteiga de amêndoa, raspas de curcuma e gengibre. Acompanhava com um bocadinho de água quente com limão. Enquanto isso, lia as minhas notícias e depois, claro, tenho o meu momento de passeio com o Caju. Saltar este ritual é por em causa a minha motivação e energia no treino. Queria isso dizer que, entre as 21h30 e as 22h15 da noite anterior apagava as luzes do quarto. Descansar melhor faz-me acordar e treinar melhor. Gosto de viver com disciplina, gosto de regras, não tanto porque me permitem atingir os meus objetivos mas, sobretudo, porque me fazem feliz. 

Durante esta quarentena foram também várias as vezes em que me deitei mais tarde e, por conseguinte, acordei mais tarde. Nesses dias não saía à rua para correr, é certo, mas até isso programava para me dedicar a outras tarefas, outros hobbies e às pessoas que me querem bem. 

Devo confessar-vos que nunca a corrida teve tanta importância para mim, como agora. 

Já corri 8 Maratonas e perdi a conta às meias maratonas e provas de 10 quilómetros que fiz desde que descobri esta paixão, em 2015. Porém, o sentimento que tive neste enquanto corria era semelhante aos momentos em que estive lesionada, impossibilitada de correr. 

Sempre dei muito valor à minha liberdade — de expressão e de movimentos — e todos os dias agradeço por ter saúde, mas nunca fui do género “só damos valor às coisas quando não as temos”. Tenho bem noção das coisas boas que tenho, mas neste momento, mais do que nunca, sentia-me ainda mais feliz por ter 45 minutos do meu dia em que arrancava das traseiras de casa, subia o Hospital Santa Maria e rumava ao Campo Grande para dar uma bela esticada nas pernas. 

Arrisco-me a dizer que nestes 46 dias de quarentena senti sempre a emoção e alegria dos momentos em que estive a correr uma Maratona. 

No meio de tanto confinamento e isolamento, poder correr é um privilégio. E estou eternamente grata por isso. Eu, e todos aqueles corredores que se cruzaram comigo nos últimos dias. 

No início, ninguém sorria para ninguém. Nem sequer olhávamos uns para os outros. Mesmo sendo permitido dar uma corrida, ainda estávamos todos com receio. Parece que queríamos correr rápido para voltar para casa. Não queríamos que ninguém nos visse com medo de um julgamento injusto. Foi por isso que, no início cheguei a começar a correr as 6h30 da manhã. Recordo-me que num desses dias chovia imenso, e fiquei feliz por isso. “A chover assim hoje não me cruzo mesmo com ninguém”. Era este o meu pensamento. 

Entretanto percebi que não tinha necessidade de ir tão cedo. “Calma Béluxa, não exageres”, e é verdade. Correr às escuras também não é benéfico. Nunca me perdoaria por uma lesão fruto de uma queda. 

Com o passar dos dias comecei a cruzar olhares com corredores, e sorria. Estávamos todos a sentir o mesmo. “Assim não tem mal nenhum. Estamos todos bem. Respeitamos a comunidade e respiramos a nossa felicidade”. 

Dei várias vezes os bons dias aos polícias. Gostava de os ver por perto. Sentia-me sempre mais segura na corrida. Melhor ainda quando também eles sorriam para mim. 

Estes foram os 45 minutos diários mais importantes da minha vida durante a quarentena. E nunca guardei segredo. Aliás, em alguns diretos que fiz nas minhas redes cheguei a partilhar convosco a minha rotina, mas só quando me perguntavam, caso contrário, não falava. Escolhi não abordar o assunto, ou melhor, não enfatizar este meu momento, tão meu e tão importante para a minha paz interior. 

Quem realmente ama correr e sente o valor que a modalidade acrescenta nas suas vidas, seguramente que fez exactamente o mesmo que eu, mas talvez no início não o tenha dito logo, com medo de julgamentos e de críticas pouco construtivas, não é verdade? Eu entendo, mas a nossa consciência está tranquila, não está? Sim, está. Ficamos bem dispostos e serenos depois de uma bela corrida, não ficamos? Sim, ficamos. Vale a pena corrermos o risco de nos desgastarmos com algum comentário pejorativo e sem fundamento, sabendo de antemão que estamos a respeitar as regras? Não. Pronto. Então foi apenas por isso. 

E para os que poderiam dizer que estamos a incentivar os outros a saírem à rua, digo, seguramente, que muito poucos saíram todos os dias às 7 horas da manhã, especialmente em dias de chuva e vento. Quem daqui que está a ler este texto o fez? É que, se o fizeste, deixa-me dizer-te que um dia destes quero ir correr contigo. E quando tudo passar, abraçar-te também. 

No dia em que gravei este vídeo pedi ao meu querido Rodolfo para me acompanhar, ao longe. Estávamos a dias de terminar o Estado de Emergência. Queria muito mostrar-vos um bocadinho dos mágicos 45 minutos que vivia todos os dias. Basta comer bem e dormir bem e a corrida torna-se na melhor terapia de sempre. É uma liberdade e uma alegria tão bonita que só mesmo vivendo é que se entende. Eu vejo isto e já só quero ir, outra vez. Obrigada pelo teu olhar, Rodolfo. Poucos me entendem tão bem quanto tu. É mesmo isto. 

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Rodolfo Franco