I Am Isabel Silva

Fui andar durante quatro horas para a Serra da Estrela — e por momentos achei que não ia aguentar

Conheci uma das maiores referências no trail nacional, o Hélio Fumo, e percebi como é diferente correr na serra e na estrada.

Desde 2015, quando descobri a minha paixão pelas corridas, que sou corredora de estrada, mas desde muito cedo que toda a gente me dizia “Isabel, quando é que aventuras no trail? Vais adorar, é fascinante”. Claro que isto é tudo muito relativo e cada modalidade tem o seu encanto, não é verdade? Mas realmente havia muita gente a tentar convencer-me a experimentar, e, muito antes desta aventura na Serra da Estrela, o meu batismo de trail aconteceu na ilha do Faial nos Açores, na Rota dos Vulcões dos Capelinhos.

Na altura, quando participei nesta prova, percebi o que toda a gente dizia. O trail é realmente uma modalidade muito diferente da corrida de estrada, e a maior diferença é que não podemos pensar nos quilómetros que vamos percorrer. Aqui a pergunta é “quantas horas é que vais correr?”, porque, na verdade, numa prova de trail há momentos em que corremos, em que fazemos trotes, escalada, e há outros em que andamos, simplesmente.

Claro que, além de tudo isto, estamos no meio das montanhas e em contacto direto com a natureza, portanto aqui o mood e o registo não é só fazer o melhor tempo possível e melhorar a performance. Também faz parte, claro, como em qualquer modalidade, mas no trail importa desfrutar deste momento com a natureza e tudo o que ela tem para dar e, mais importante ainda, sairmos da nossa zona de conforto, superar as dificuldades e chegar ao fim.

Quando fiz esta prova nos Açores percebi isso mesmo, e lembro-me que foram 21 quilómetros em que fui muito focada no tempo e no ritmo a que queria ir. Só que ao fim de um quilómetro percebi que isso era impossível. Tudo isto para vos dizer que nessa prova dos Capelinhos andei durante 10 quilómetros, e como o meu chip estava focado na corrida de estrada, até estava impaciente. Estava uma tempestade gigante, tanto que andei no meio da lama, e não fosse a ajuda de dois atletas que estavam ali a passar, não sei se teria terminado o percurso.

Essa é outra das características do trail, o espírito de entreajuda que há. Quando correm uma prova, é fundamental que nunca se sintam sozinhos, e se precisarem de ajuda, a pessoa que passar por vocês, ao ver que estão em apuros e precisam de ajuda, tem de dar auxílio. É mesmo uma regra no trail.

Portanto, toda a experiência que tive nos açores, apesar do mau tempo, foi de facto incríBel. Consegui ver paisagens e sítios que, de outra forma, nunca teria tido oportunidade de explorar. E é esta a magia do trail. Conhecemos trilhos e trajetos que de outra forma não poderíamos conhecer. Portanto, depois disso entendi o que as pessoas queriam dizer com “vais adorar a magia do trail”, porque nesta modalidade podemos contactar com a natureza no seu estado mais puro

Corri esta prova no Faial e só voltei a viver essa experiência agora, com o Hélio Fumo, o nosso campeão nacional de trail. Mas antes de vos falar do nosso dia na Serra da Estrela, vou contar-vos quem é, afinal, o Hélio Fumo.

O sétimo campeão: Hélio Fumo

Aos 36 anos, o Hélio Fumo é o homem em que vocês devem confiar se alguma vez quiserem ir fazer uma corrida de trail. Eu estive com ele a fazer uma prova de quatro horas, e bastou esse tempo — que para ele, na verdade, não é nada — para perceber que é realmente uma máquina.

É uma das nossas maiores referências no trail e foi o Melhor Português no Campeonato do Mundo de Trail. Já participou em várias provas nacionais e internacionais, onde já bateu recordes aos 42 quilómetros, como aconteceu na prova de abril deste ano na província de Ístria, na Croácia.

Mas muito antes disso, o Hélio foi atleta de meio fundo — é mesmo assim que se diz —, e fazia provas de velocidade de 800, 1500 e 3000 metros. Começou com 14 anos, quando veio de Maputo para Portugal morar com os avós paternos, juntamente com o primo que estava no Odivelas Futebol Clube, e fazia várias atividades relacionadas com atletismo. Aos 19 passou a treinar com o Juventude Operária de Monte Abraão, onde se especializou em médias distâncias, e três anos depois começou a treinar no Benfica.

Foi graças a esta mudança que conseguiu uma bolsa de estudos na Universidade Lusófona, onde fiz uma licenciatura em Psicologia e está neste momento a terminar o mestrado em Psicologia Social e Organizacional. Tem também uma marca de roupa e acessórios ligados ao trail, a “Faz Fumo”, que vende camisolas, T-shirts, etc.

Neste momento, está a preparar-se para fazer o Ultra Trail da Turquia, na Capadócia, que faz parte do circuito mundial de trail.

O treino com o Hélio

Como vos expliquei, neste dia com o Hélio voltei a viver aquela magia que é fazer corrida em trail. É que é mesmo muito diferente de fazer uma prova em estrada, e foi realmente incríBel.

Começámos o dia a recordar as regras do trail, como podem ver nesta primeira reportagem. Antes de correr, temos de garantir que tudo o que vamos precisar está na mochila, ao contrário do que acontece na corrida de estrada, em que é só pegar nas sapatilhas e ir correr.

Quando combinei com o Hélio fazer esta corrida, ele disse-me que quando faz corridas no dia a dia escolhe sempre um de dois sítios: a Serra da Sintra e a Serra da Estrela. Na altura ele ainda me perguntou onde é que preferia fazer, e, claro, que lhe disse logo “Hélio, a Serra da Sintra é linda e maravilhosa, mas é mesmo aqui ao lado e posso ir lá todos os dias. Se vou ter esta experiência com o Hélio Fumo, eu quero ir para a Serra da Estrela.”

E assim foi. Ficámos numa estalagem muito querida e onde fomos muito bem recebidos em Loriga, e foi daí que partimos. A corrida foi de cerca de quatro horas, e podem acompanhar a nossa aventura na segunda parte da reportagem.

Nestas imagens conseguem ver o quão diferente é correr em trail ou em estrada. É que aqui é praticamente impossível estar sempre a correr, não só porque há trajetos em que temos mesmo de andar, mas porque há momentos que merecem que paremos para desfrutar da paisagem da Serra da Estrela, da natureza, e escutar o silêncio.

Essa foi uma das coisas que o Hélio me disse durante o nosso percurso. É que às vezes ele gosta de passar o dia todo na montanha, só para desfrutar. Os treinos são como um momento de meditação para ele. Tem dias em que o Hélio sai de casa às 7 da manhã e só regressa às 19 horas e nem sequer se dá conta de que o tempo passou, e é mesmo verdade. Eu nem percebi que tinham passado quatro horas. Tinha relógio, mas perdi completamente a noção do tempo.

Outro dos assuntos de que falámos foi desta mudança radical que o Hélio fez na vida dele. Como vos expliquei, ele foi atleta de meio fundo e fazia provas de velocidade, e é curioso ver como é que ele conseguiu mudar o chip e, acima de tudo, vingar nesta modalidade. Só mesmo quem conhece o trail e sabe o quão mágico é fazer estes percursos é que percebe porque é que esta mudança foi tão radical.

Quanto a mim, gostei muito da experiência e sei que muitos corredores de estrada provavelmente também vão desfrutar muito de um percurso de trail. Mas é muito importante que todos os que estão a ler este texto percebam uma coisa, se não tiverem experiência, é muito importante irem acompanhados por alguém que perceba disto. Mesmo que levem telemóvel e que tenham o percurso assinalado, não vão sozinhos. Foi o que eu fiz, e escolhi logo ir com o melhor dos melhores.

Terminámos na Torre da Serra da Estrela, e foram quatro quilómetros intensos para mim. Cheguei mesmo a pensar que não ia conseguir terminar, mas lá chegámos, a precisar de reforço, e são essas imagens que vocês podem ver na última parte da reportagem.

Fomos comer ali num espaço na Torre da Serra da Estrela, e percebi outra coisa curiosa sobre o Hélio. Ele não é uma pessoa que come muito. Acho que o corpo dele já está habituado a isso, entendem? Antes de partirmos ele comeu um bocadinho de pão seco, e quando chegámos comeu um pouco de Regueifa. Depois, quando fomos almoçar, bebeu um copo de água com limão, pediu uma omelete de queijo e fiambre com um bocadinho de arroz e legumes, só isso.

Ele desgasta-se muito nas provas e tem cuidado com a alimentação, porque diz que no trail a leveza do corpo é muito importante, por isso, não pode engordar. É mesmo uma pessoa muito regrada. Mas a verdade é esta, come na dose certa, se não, não aguentava. E para vocês perceberem bem o que quero dizer, esta corrida de quatro horas foi uma brincadeira para ele, porque o Hélio costuma fazer corridas longas de 50 ou 60 quilómetros num só dia. Para ele, estar o dia inteiro na serra não é nada.

Lembro-me que, nesse dia, quando nos despedimos e regressámos a Lisboa, ele ainda me disse que ia rolar durante mais umas horas para a Serra de Sintra “isto foi um aquecimento para mim, Isabel”, foram as palavras dele. E vocês dizem “ele não bate bem”, bate, bate. Esta é a realidade dele, e nós, quando criamos a nossa rotina, ela deixa de ser exigente ou difícil. É simplesmente a nossa rotina, não é?

Fico cada vez mais impressionada em conhecer os nossos atletas e em perceber a forma como eles se focam e disciplinam para chegar ao topo. E se não tiveram oportunidade de ver como foi a nossa entrevista esta manhã, recordem aqui no TVI Player.

VÍDEO

Rodolfo Franco