fernando pimenta

I Am Isabel Silva

Campeões. Treinei num caiaque pela primeira vez com o Fernando Pimenta — e fui à água, claro

Treinei três vezes num dia, fui desafiada a fazer 1000 metros num caiaque e ainda fiz uma sesta a meio da tarde. Soube-me pela vida.

Desde que comecei a correr o País a conhecer alguns dos nossos maiores campeões nas mais diversas modalidades que cheguei a uma conclusão muito importante. Não basta só sermos bons, não basta termos a técnica, treinarmos dia e noite ou fazermos uma alimentação equilibrada. Para se ser um grande atleta há que ter foco, determinação, vontade de sair da zona de conforto e de nos superarmos todos os dias e, especialmente para estes atletas, importa ser o orgulho do País que representam. O Fernando Pimenta, o nosso campeão na modalidade de K1 de canoagem, é um desses atletas.

Um verdadeiro homem do Norte, não fosse ele nascido e criado em Ponte de Lima, de onde nunca quer sair, e que quer ser o melhor canoista do mundo, mas sempre com o símbolo de Portugal ao peito. Para o conseguir, o Pimenta foca-se muito em três pilares que, tal como eu, considera essenciais para conseguir ser um bom atleta: treinos diversificados e regulares, uma boa alimentação ajustada às necessidades mas, acima de tudo, o descanso.

Como sempre, ainda antes de vos contar como foi o nosso dia de treinos, vou falar-vos um bocadinho de quem é este homem que já nos deu tantas alegrias. Conheçam o nosso quinto campeão.

O quinto campeão: Fernando Pimenta

Conquistou 88 medalhas internacionais e 52 nacionais desde que começou a praticar canoagem, em 2001, quando com 12 anos começou a praticar canoagem. O Fernando Pimenta, que vive em Ponte de Lima desde que nasceu, em 1989, é o nosso campeão na modalidade de canoagem que já venceu uma medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, com o parceiro Emanuel Silva.

Muito antes de a canoagem entrar na sua vida, o Pimenta começou a nadar. Tinha 4 anos e foi o médico que aconselhou os pais a inscreverem-no na natação para que o corpo se desenvolvesse mais. Entretanto, 8 anos depois, começou na canoagem no Clube Náutico de Ponte de Lima, onde ainda hoje continua a treinar com o Lucas, o seu coach.

Tirou um curso tecnológico de desporto, chegou a estudar Fisioterapia, mas a canoagem passou a ser uma prioridade na vida. Desistiu do curso que estava a tirar em Coimbra e regressou a Ponte de Lima para treinar. Por esta altura já tinha ganho alguns títulos, tendo conquistado o primeiro em 2005, quando entrou para a seleção nacional e conseguiu ganhar uma medalha de ouro no Festival Olímpico da Juventude Europeia, na categoria de K4 500 metros. Quando estive em Ponte de Lima, o Pimenta estava a preparar-se para os Jogos Olímpicos de Tóquio e, neste momento, já conseguiu a classificação para a prova e vai estar a representar Portugal na modalidade de canoagem.

Mas até lá chegar o Pimenta vai ter de manter o foco. Nos treinos, na alimentação e até no descanso, de que ele tanto gosta e que até eu adorei no dia em que estive a treinar com ele. Ora vejam como foi este dia em Ponte de Lima.

O treino com o Pimenta

Como já vos expliquei, se há algo que une todos os campeões que conheci até agora é o seu foco. E na verdade, depois de ter passado este dia com o Pimenta entendi porque é que ele é o melhor. É que ele é mesmo muito focado, não só nos treinos mas também na alimentação e no descanso.

O nosso dia começou com uma corrida de ativação de metabolismo. Foram apenas 40 minutos o que, para mim, não é nada de especial porque estou habituada a treinar todos os dias. Como sabem, estou neste momento a treinar para a Maratona de Nova Iorque. Na altura em que gravámos esta reportagem ainda não estava nessa fase mas, mesmo assim, continuo a treinar e, por isso, aquele treino não seria nada de especial.

A melhor parte desta corrida foi perceber que o Pimenta é tão acarinhado pelas ruas de Ponte de Lima, a terra que o viu crescer. As pessoas têm orgulho genuíno e fazem questão de mostrá-lo. Foram várias as que nos cumprimentaram e incentivaram enquanto corríamos, e se leram algum dos meus textos sobre maratonas — leiam a experiência de Londres aqui — sabem como para mim é importante ter este incentivo.

O primeiro desafio surgiu depois, quando fui com o Pimenta fazer séries na canoa. Eu nunca tinha entrado num caiaque para fazer séries e assim que comecei percebi que, de facto, não é só a força de braços que conta. É preciso ter uma boa técnica e e muita força de core para manter o equilíbrio durante as provas.

Depois disto, fomos almoçar, e o Pimenta é um homem de alimento. Está sempre a dizer que a alimentação é o nosso melhor combustível e que “se fores treinar sem combustível, não vais ter energia”, e é por isso que ele como sempre na medida certa e com a devida antecedência. Além disso, é um homem do norte, que gosta de comer, mas que ao mesmo tempo é capaz de manter o foco e controlar a gula. “É segurar o touro e não comer mais do que a dose certa”, disse-me ele. Ora bem! Aqui se vê a dedicação de um verdadeiro campeão.

Durante o almoço estávamos a conversar, eu, o Pimenta e a namorada dele, que também é canoista, mas de maratonas, e percebi o amor que ele tem ao desporto, à vida que escolheu e, acima de tudo, à sua cidade. “O meu sonho é representar o nosso País, dar o melhor de mim e ser o melhor canoista do mundo, mas não quero sair de Ponte de Lima. Sou feliz aqui, quero cá estar e se um dia tiver um negócio, que quero ter, será aqui, no Norte.”

Mas além de comer e treinar bem o Pimenta não descura as horas de sono, e aqui não falamos só nas horas que ele dorme à noite mas também na sesta. É que todos os dias, depois do almoço, o Pimenta dorme uma sesta de 30 minutos antes de ir até ao ginásio fazer treino de força  com o coach dele, o Lucas, que eu adorei conhecer. É uma simpatia de homem e o braço direito do Pimenta, que o entende como atleta mas também como ser humano e, por isso, adapta os treinos em função disso mesmo.

Adorei estar com o Fernando Pimenta neste dia. É uma pessoa muito divertida e o típico homem do Norte. Com ele, percebi que é preciso mesmo dedicar a vida ao desporto para se ser o melhor porque, se o Pimenta tivesse outro trabalho e stress acrescido, garantidamente não nos tinha dado tantas vitórias e tantas alegrias como deu até agora. Mas a verdade é esta, a mente também comanda a vida, e é por ter uma mente tão focada que o Pimenta, como todos estas campeões, são uma inspiração tão grande para mim.

Uma coisa vos digo, malta. É que no dia a seguir eu estava toda dorida daquele treino de caiaque. Quem diria que depois de ter ido à água e sem nunca ter entrado num caiaque de competição eu ia conseguir percorrer os mil metros em menos de sete minutos?

Se não viram a entrevista ao Pimenta, recordem aqui no Você na TV desta manhã aqui.