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Campeões. Inês Henriques sabia que podia falhar, mas nunca deixou de tentar

A rubrica dos Campeões tem sido uma grande oportunidade para mim enquanto repórter, mas também como atleta. Ao longo destes últimos meses tenho conhecido pessoas verdadeiramente inspiradoras e percebido como é o outro lado da vida de um atleta de alta competição. Por vezes pensamos que um atleta só treina, mas há muito mais a descobrir sobre cada um destes nossos campeões, como aconteceu com a Inês Henriques.

E se acompanhei momentos em que os atletas se estavam a preparar para competições, esta primeira temporada não podia terminar sem estar com um atleta que tinha acabado de vir de uma competição. Foi o caso da Inês Henriques, que tinha acabado de regressar do Campeonato Mundial de Doha, no Qatar, uma prova que, infelizmente, não lhe correu bem. Mas antes disso, vou falar-vos um pouco da Inês.

A décima campeã: Inês Henriques

A Inês Henriques tinha apenas 12 anos quando decidiu começar a fazer atletismo, muito por influência da irmã mais velha, a Sónia. Na altura, em 1992, a Susana Feitor que é de Rio Maior, zona onde a Inês sempre viveu, tinha sido campeã do mundo e isso foi uma grande inspiração para ela. Três meses depois de entrar para o atletismo, começou a marchar.

Sempre conseguiu obter bons resultados nas provas e conseguiu conquistar vários campeonatos nos vários escalões por onde passou e sempre lutou para que as mulheres tivessem iguais oportunidades que os homens no mundo do desporto. Ao longo dos anos sempre competiu em provas de 20 quilómetros mas, em 2016 a federação internacional de atletismo comunicou que os mínimos das mulheres iriam ser iguais aos dos homens.

No ano seguinte, Inês tornou-se na primeira mulher a bater o record dos 50 quilómetros em marcha, que cumpriu em pouco em 4h08, em Porto de Mós. Nesse mesmo ano, no Campeonato do Mundo de Londres, houve pela primeira vez uma prova de 50 quilómetros para mulheres e Inês sagrou-se campeã do mundo ao bater o record de 4h05.

Dois anos depois, em 2019, sofreu uma lesão, o que a obrigou a estar parada durante sete semanas, o que teve um impacto bastante grande na sua performance, já que a Inês competia sem parar há mais de 20 anos e nunca tinha estado parada tanto tempo. Ainda este ano chegou a participar no Campeonato do Mundo de Doha, mas, infelizmente, a prova não correu como esperava, e foi nesta fase que as nossas vidas se cruzaram.

O treino com a Inês

Quando conheci a Inês ela tinha acabado de regressar do Campeonato do Mundo de Doha e estava numa fase de férias e de descanso, em que os treinos eram muito mais reduzidos. E importa dizer isto porque esta é uma realidade da qual muitas pessoas não têm noção.

Os nossos campeões, sejam de marcha, canoagem, taekwondo ou BTT, treinam muito para as competições. Treinam porque querem dar o melhor de si nas provas, sejam elas nacionais, europeias ou mundiais. E o treino é de tal forma exigente em que chega um momento em que eles têm de desligar das suas modalidades. Para nós é apenas um desporto mas, para eles, é muito mais do que isso, é a profissão que escolheram.

Se eles não aprenderem a ter ferramentas para desligarem do trabalho é muito complicado conseguirem relaxar. É o mesmo connosco, que passamos vários meses a trabalhar e depois temos de ser capazes de ir de férias e desligar completamente. As férias passam por não pensar em trabalho e, para um atleta, o que é que isso significa? Não fazer nada que tenha a ver com a modalidade. E é nessa fase que a Inês estava.

E vocês pensam: “mas ela podia estar a treinar para relaxar”, mas não, aquilo é o trabalho dela, de tal forma que ela assume as férias e diz mesmo que tem de parar para desanuviar, não só a nível físico mas também mental. Portanto quando estivemos juntas essa foi a primeira vez que a Inês voltou a marchar depois de Doha, que foi em setembro.

Foi muito engraçado para mim porque não domino, de todo, esta modalidade, e o treino foi muito leve. Aprendemos apenas algumas técnicas e ela ensinou-me ali, na pista do Complexo Desportivo de Rio Maior, como devia marchar. Uma das coisas que tenho de reforçar é que este complexo é mesmo inacreditável. Tem umas condições ótimas, seja para atletas de elite como para os recreativos.

Durante este dia, e ao contrário do que aconteceu com os outros campeões, o dia foi mesmo muito leve e calmo. Foi interessante conhecer a história dela e perceber tudo o que aconteceu no campeonato. Não vos vou estar aqui a contar o que se passou, mas se virem a segunda reportagem conseguem perceber como é que isso mexeu com a Inês, o que só revela o amor que ela tem por esta modalidade.

Mas como é que foi o treino, afinal? Então, de manhã estivemos com o Jorge Miguel, o treinador que acompanha a Inês desde sempre, que me deu ali duas ou três indicações para que conseguisse aprender a marchar. Uma delas é que marcar é como desfilar, mas com o rabo para a frente. Ou seja, vocês não podem estar com o rabo muito empinado, tem de estar tudo bem contraído, mas com os joelhos sempre esticados. Não estão a ver bem, pois não? Vejam na reportagem e vão perceber.

Depois, fui fazer um bocadinho de marcha com a Inês. E vocês acham que marchar é lento, mas acreditem, não é. Só para terem a noção, fizemos um teste em que pus a Inês a marchar enquanto eu corria, e se forem a ver com atenção, ela vai em passo de marcha e vai ao meu lado. O ritmo dela é 4’30 a marchar, malta.

Curiosamente, nesse dia vim a descobrir que o Jorge conhece muito bem o meu rico Urbano, que me dá as melhores esfregas, como já vos mostrei aqui. Porque vocês talvez não saibam isto, mas o Urbano foi atleta de marcha há muitos anos, e ele e o Jorge são amigos. Só vos digo uma coisa, ele contou-me cá umas histórias sobre o Urbano que vocês nem imaginam.

Depois ainda tivemos tempo de ir conhecer o Centro de Alto Rendimento de Rio Maior e digo-vos, malta, é inacreditável. Vocês não estão bem a ver este centro de estágio, e eu só tenho pena de não ter tirado fotografias, mas olhem, estava ali a aproveitar o momento, sabem? É que aquilo era centro de fisioterapia, uma cantina com comida incrível, empregadas de uma simpatia que não há explicação. Ah, e ainda deu tempo para lavar a vista com os jogadores das seleções de andebol e voleibol do Brasil, todos super altos. Até fiquei com um torcicolo no pescoço.

No final do dia pedi à Inês Henriques que me mostrasse um sítio onde é feliz, e lá fomos até às Salinas de Rio Maior, onde ela gosta de ir para meditar e refletir. Foi aqui que tivemos uma conversa muito bonita e enriquecedora e posso dizer-vos que se já a admirava como atleta, fiquei a gostar ainda mais dela como pessoa, porque é uma lutadora que não desisti.

E foi assim que chegámos ao fim desta nossa rubrica, que tantas histórias bonitas me deu a conhecer. Ainda há muito para vos contar sobre estes momentos que passei com os nossos campeões, mas certamente que haverá tempo para vos falar desta minha experiência com mais detalhe.

Se não viram a entrevista desta manhã no Você na TV, vejam aqui, no TVI Player.