Há momentos em que o corpo parece dizer “acabou”. E, às vezes, o que faz a diferença entre parar e recomeçar não é força de vontade, é o ser bem acompanhado. Foi por isso que pedimos ao Pedro Santos, personal trainer do Carlos Gonçalves para escrever esta crónica. A história do Carlos Gonçalves (podcast Bela DoBem, Sabedoria da Longevidade) mostrou-nos, de forma incontornável, que um personal trainer pode ser muito mais do que alguém que entrega um plano de treino: pode ser um ponto de viragem quando há dor, medo, diagnóstico ou a sensação de “não consigo”.

O Pedro é um profissional empenhado, ligado ao mundo das patologias. Ele estuda e lê sobre patologias que lhe chegam, tentando compreender cada caso, acompanhando com presença, ajustando com responsabilidade e procurando resultados reais, respeitando a história de cada um. Vê o indivíduo e não apenas o corpo.

E é isso que queremos que fique claro: não basta fazer desporto. Não basta um pacote, uma app ou treinos (online ou presenciais) sem acompanhamento real. Quando há dedicação e presença, o profissional importa — e muito.


O meu nome é Pedro Santos. Sou pai de uma jovem de 19 anos, entusiasta de quase todo o tipo de desporto, adoro viajar e sou um apaixonado pelo que faço a nível profissional. A minha grande motivação é pôr as pessoas felizes e fazê-las ver os benefícios da atividade física como um pilar de um estilo de vida saudável.

Ao longo dos anos, fui percebendo uma coisa com cada vez mais clareza: o treino é só a superfície. O que muda verdadeiramente a vida de uma pessoa não é apenas o exercício em si, é o que ela aprende sobre si enquanto treina: consistência, confiança, disciplina, limites, paciência, autonomia e a capacidade de voltar a acreditar.

É por isso que acredito que um personal trainer é muito mais do que um treinador do corpo. Um bom acompanhamento não serve apenas para “atingir objetivos”.
Serve para recuperar qualidade de vida, resgatar movimento com segurança, criar rotinas sustentáveis e, muitas vezes, ajudar alguém a reencontrar sentido numa fase mais frágil ou exigente.

A minha ligação ao exercício é intrínseca: sou alguém que sempre praticou atividade física, desde os tempos do pré-escolar até aos meus atuais 47 anos de idade. Este percurso tem sido muito variado. Começou com uma fase inicial mais lúdica e desorganizada, através de brincadeiras de rua, futebol e corridas. Evoluí, depois, para uma prática mais organizada com a natação regular e treinos orientados. Passada essa fase, dediquei-me a modalidades como o voleibol, futebol, basquetebol e atletismo no âmbito do desporto escolar.

Mais tarde, tive de optar e tornei-me atleta federado de voleibol, jogando a modalidade durante 14 anos. Foi precisamente nesse período, em 1996, que nasceu o meuinteresse pelo treino de força e musculação.

Formação e o início do trabalho com saúde e bem-estar

Comecei a minha formação em Ciências do Desporto (Motricidade Humana) e, ainda durante a licenciatura, especializei-me em musculação e cardiofitness. Estagiei num Health Club situado ao lado do Hospital Ortopédico da Parede. Este enquadramento proporcionou-me o contacto com casos pré e pós-operatórios com uma frequência muito superior ao normal. Em conjunto com a equipa do clube, tive uma aprendizagem suportada por casos clínicos sempre desafiantes, o que permitiu um crescimento rápido e solidificado na área da saúde e do bem-estar.

Cada caso era um objeto de estudo permanente que me obrigava a estudar e a procurar a melhor solução, de forma a entregar-lhe melhor qualidade de vida e saúde. Para tal, procurava ajuda em colegas mais experientes e, muitas vezes, contactava os próprios médicos para perceber como tinha corrido a intervenção e saber a sua opinião sobre os próximos passos.

Procurava sempre garantir a máxima segurança na prescrição, socorrendo-me frequentemente do ACSM (American College of Sports Medicine) e de outras entidades de referência científica.

Um compromisso: saúde com segurança

Desde sempre assumi o compromisso de entregar saúde com segurança. O meu lema, que mantenho até hoje, é: “Muitas vezes, menos é mais. Se não sabes, para quê inventar?”

Acredito que cada pessoa tem uma história única: um passado desportivo, um historial clínico, uma anatomia e fisiologia próprias, um contexto profissional, uma família e um estado psíquico diário. Cada caso é um caso, e compete-me a mim, com a minha formação e experiência, mostrar o caminho certo para atingir os objetivos de forma segura e saudável.

Movimento, mente e relações humanas

Ao longo deste caminho, a formação contínua tem sido uma constante, como deve ser para qualquer profissional atualizado. Depois disso, tive oportunidade de crescer ao trabalhar durante 8 anos numa clínica de adição, a CRETA, onde desenvolvi conhecimento sobre outras realidades do mundo da adição, o que me ajudou a crescer imenso no âmbito das relações humanas.

Outro ponto marcante que acrescentou imenso valor ao meu trabalho e mudou radicalmente a minha visão sobre o movimento (não apenas na vertente musculoesquelética) foi a especialização em Osteopatia. O que me levou a esta especialização foi notar que as novas tendências do fitness, como o CrossFit e atividades de alto impacto e elevada instabilidade articular, expunham os praticantes a um risco de lesão muito maior. Eu precisava de dar resposta a esses casos que me surgiam quase diariamente. Esta formação deu-me novas ferramentas para intervir ao nível do movimento e do treino.

Hoje, consigo perceber o corpo como um todo ligado pela fáscia. A Osteopatia ensina-nos que, muitas vezes, a origem de uma dor ou desconforto não está no ponto onde o sentimos, uma dor nas costas pode ser reflexo de um problema num pé.

A grande causa de lesões provém de desequilíbrios musculares originados por más posturas diárias (como no trabalho), sobrecarga de treino ou movimentos repetitivos. Esta visão permite-me diagnosticar o verdadeiro problema e resolvê-lo na origem, algo que a medicina tradicional por vezes tem mais dificuldade em solucionar.

Atualmente, enquanto  Coordenador de PTs, Personal Trainer e Instrutor de Cycling no VivaGym de Oeiras, o que me motiva todos os dias são os resultados reais e a superação dos meus alunos, tal como estes:

  • Marilu: surgiu com duas artroses nos joelhos, completamente disfuncional e incapaz de se mover devido à deformação e ao inchaço. Vivia dependente de fortes analgésicos e anti-inflamatórios. Em menos de dois meses, através de um trabalho de reforço muscular isométrico de todas as estruturas que envolvem o joelho, sentiu-se outra pessoa.
  • Carolina: com hiperlaxidão articular, dores nas costas, luxações constantes e crises de fibromialgia. Através de um reforço muscular com amplitudes reduzidas e progressão lenta, respeitando a resposta do corpo, conseguiu passar por uma gravidez com sucesso e manter a qualidade de vida, conseguindo até suportar a posição sentada, o que antes não conseguia.
  • Sérgio: tinha um conflito subacromial que causava desconforto constante no ombro. Fizemos (e continuamos a fazer) um trabalho de reequilíbrio para reposicionar a estrutura musculoesquelética de forma funcional e sem dor.
  • Sebastião (Parkinson): através de exercício físico e psíquico regular (2x por semana), com muito trabalho funcional, proprioceptivo e estímulos variados, conseguiu uma esperança de vida muito superior ao esperado.
  • Carlos: disseram-lhe que não podia correr mais (o que fazia quase diariamente) e que teria de ser operado, nunca mais voltando a correr. Atualmente, já completou 9 maratonas e inúmeras meias-maratonas através de um reforço sólido do core e adaptações progressivas.
  • João: deixou de tomar medicação para dormir e para a tensão arterial através de um trabalho cardiovascular e de resistência muscular progressivo.
  • Elisabete (Endometriose): enfrentava estados emocionais difíceis e dores musculares e posteriores desequilíbrios articulares. Através de ajustes diários constantes no treino de força e cardio, em conjunto por vezes com algum trabalho miofascial e com muita paciência para com o que a doença exige, conseguiu perder peso e aumentar a sua autoestima.
  • Ana: era sedentária e precisava de passar nas provas físicas para entrar nas Forças Armadas. Através de um treino direcionado, concretizou o seu sonho.
  • André: tinha grandes défices motores e mal sabia andar. Com um trabalho focado na consciência motora e evolução progressiva, conseguiu começar a correr.
  • Carlos: ciclista, tinha dores nos joelhos que o impediam de pedalar. Com o equilíbrio muscular adequado, voltou a desfrutar plenamente das aulas.
  • Marta: tinha uma epicondilite. Identificámos a sobrecarga muscular, aplicámos trabalho miofascial e reforçámos as estruturas deficitárias.
  • Alice: tinha osteopenia. Com trabalho de força e exercícios de impacto regular, conseguimos estancar a progressão da doença para osteoporose.
  • Pedro: com diabetes, foi através de exercício de força e cardio controlado, e uma alimentação ajustada ao esforço pré e pós-treino, controlou a glicemia e melhorou a sua qualidade de vida diária.

Patologia não é um impeditivo: pode ser o início de uma nova vida mais saudável e com mais qualidade

Durante décadas, a presença de uma patologia foi associada à limitação, ao repouso excessivo e ao medo do movimento. Hoje, graças à evidência científica, sabemos que esta visão está ultrapassada. A atividade física, quando bem orientada e individualizada, é uma das intervenções mais eficazes na prevenção, controle e tratamento de múltiplas patologias, melhorando não apenas a saúde física, mas também a saúde mental e a qualidade de vida.

Mais do que um obstáculo, o diagnóstico pode ser o ponto de partida para uma transformação positiva e duradoura.

A atividade física como ferramenta terapêutica

Hérnias discais, desequilíbrios musculares e dores crónicas

Em patologias como hérnias discais, lombalgias, cervicalgias e desequilíbrios musculares, o exercício físico estruturado fortalece a musculatura estabilizadora, melhora a postura, reduz a inflamação e diminui a dor. O sedentarismo, pelo contrário, está associado ao agravamento dos sintomas e à perda funcional.

Fibromialgia

A fibromialgia caracteriza-se por dor crónica difusa, fadiga e alterações do sono. Estudos demonstram que o exercício aeróbio de intensidade leve a moderada, aliado ao treino de força progressivo, reduz a dor, melhora a função física e o bem-estar psicológico.

Artrose e osteoporose

Na artrose, o movimento adequado melhora a lubrificação articular, reduz a rigidez e preserva a função. Na osteoporose, o treino de força e exercícios com carga mecânica controlada são fundamentais para estimular a densidade mineral óssea, reduzir o risco de quedas e promover a autonomia.

Alterações hormonais, metabólicas e fisiológicas

Andropausa e menopausa

As alterações hormonais associadas à andropausa e à menopausa favorecem a perda de massa muscular, o aumento de gordura corporal, a diminuição da densidade óssea e alterações de humor. O exercício físico regular, sobretudo o treino de força, demonstra eficácia na atenuação destes efeitos, melhorando a composição corporal, a saúde óssea e o equilíbrio emocional.

Diabetes, colesterol e obesidade

A atividade física melhora a sensibilidade à insulina, contribui para o controlo glicémico e reduz fatores de risco cardiovascular. É uma das estratégias mais eficazes no tratamento da obesidade, auxiliando na redução da gordura corporal e na melhoria do perfil lipídico.

Gravidez: exercício como promoção de saúde materna e fetal

A gravidez não é uma doença, mas uma fase de grandes adaptações fisiológicas. A prática de exercício físico durante a gravidez, quando devidamente orientada, é segura e altamente benéfica.

Os benefícios incluem:

  • Redução de dores lombares e pélvicas
  • Melhor controlo do ganho de peso
  • Diminuição do risco de diabetes gestacional e pré-eclâmpsia
  • Melhoria da postura, circulação e capacidade funcional
  • Redução do stress, ansiedade e depressão pré e pós-parto

O treino deve ser individualizado, respeitando o trimestre gestacional, o histórico clínico e as alterações biomecânicas da mulher grávida.

Saúde cardiovascular e neurológica

Problemas cardíacos

O exercício físico é parte integrante da prevenção e reabilitação cardíaca. Quando prescrito de forma segura, melhora a capacidade cardiorrespiratória, regula a pressão arterial, melhora a função endotelial e reduz a mortalidade cardiovascular.

Alzheimer e Parkinson

Em doenças neurodegenerativas, o exercício físico promove a neuroplasticidade, melhora o equilíbrio, a marcha, a coordenação e pode atrasar a progressão dos sintomas, contribuindo para maior independência funcional e melhor qualidade de vida.

Stress diário, saúde mental e comportamento

Stress crónico

O stress diário prolongado está associado a inflamação crónica, distúrbios do sono, ansiedade, depressão e doenças cardiovasculares. O exercício físico atua como um regulador natural do sistema nervoso, reduzindo os níveis de cortisol e promovendo o equilíbrio emocional.

Depressão, ansiedade e problemas psicológicos

A prática regular de atividade física está fortemente associada à redução de sintomas depressivos e ansiosos, funcionando como um complemento eficaz às abordagens terapêuticas tradicionais.

Adições

No contexto das adições, o exercício físico ajuda a regular os circuitos de recompensa cerebral, reduz a impulsividade e oferece uma estrutura positiva e saudável para a rotina diária.

A importância do personal trainer na presença de patologia

Apesar dos inúmeros benefícios, o exercício não deve ser genérico quando existe patologia. A orientação de um Personal Trainer qualificado é fundamental para garantir segurança, eficácia e progressão adequada.

O profissional:

  • Avalia o estado físico e o histórico clínico
  • Adapta os exercícios às limitações e objetivos
  • Periodiza o treino de forma progressiva e segura
  • Reduz o risco de lesão
  • Ajusta o plano de treino à evolução clínica
  • Promove adesão, motivação e educação para a saúde

O treino passa, assim, de uma simples prática física para uma estratégia de intervenção em saúde.

Trabalhar como PT é assumir um compromisso total. Um Personal Trainer é, muitas vezes, um verdadeiro Life Coach: treina, fortalece, aconselha, é amigo, psicólogo, terapeuta, massagista e nutricionista.

Ver estes resultados faz de mim um homem feliz ao final do dia e, assim, sinto que nunca trabalho.

O Pedro Santos é Personal Trainer, Coordenador de PTs e Instrutor de Cycling no VivaGym Oeiras. Com formação em Motricidade Humana (Ciências da Educação Física e Desporto) e especialização em Osteopatia (2018), trabalha com foco na segurança, individualização e progressão consciente do treino, acompanhando pessoas com objetivos de performance, bem-estar e reabilitação. Defende que o exercício físico, quando bem orientado, é uma ferramenta central para qualidade de vida, autonomia e saúde a longo prazo.