Na DoBem, interessa-nos olhar para a saúde para lá da superfície dos sintomas, das rotinas perfeitas e da ideia de que basta “fazer tudo certo” para o corpo ficar bem. Há temas que pedem mais profundidade, mais cuidado e mais silêncio antes da resposta. O trauma é um deles.
Quisemos trazer esta reflexão para o canal porque falar de trauma não é falar apenas do passado, nem apenas da mente. É falar do corpo, do sistema nervoso, da forma como certas experiências podem permanecer inscritas em padrões de alerta, proteção, bloqueio ou exaustão. Sem transformar o trauma numa explicação para tudo, mas sem ignorar o seu impacto real na saúde.
Convidámos Diana Ferreira, médica com percurso em oncologia, cuidados paliativos, medicina integrativa e de estilo de vida, porque a sua voz reúne ciência, experiência clínica e uma escuta profundamente humana do corpo. Nesta crónica, Diana propõe-nos uma pergunta essencial: e se alguns corpos não estiverem a falhar, mas apenas a repetir aquilo que aprenderam para sobreviver?
Durante muito tempo, achei que cuidar do corpo e da mente era suficiente
Durante muito tempo, acreditei que cuidar do corpo e da mente era suficiente para alcançar saúde. Alimentação, exercício, sono e suplementação por um lado; psicoterapia, reflexão e yoga por outro. Dois caminhos que, teoricamente, deveriam convergir no mesmo resultado: sentir-me bem. Ainda assim, havia qualquer coisa que não encaixava, quer na minha saúde, quer na prática clínica.
Na medicina, somos treinados para procurar causas, identificar padrões e organizar sintomas. Partimos do princípio — com alguma razão — de que, se identificarmos a causa do sofrimento, estaremos mais próximos de o resolver. Em muitos casos, particularmente em doenças agudas, isso é verdade. Mas há um tipo de sofrimento que não se resolve apenas com compreensão, disciplina ou com a soma das estratégias certas.
Há pessoas profundamente disciplinadas, que fazem “tudo certo” e ainda assim não melhoram de forma consistente. E há outras que sabem exatamente o que lhes faria bem, mas não conseguem mudar. Não por falta de vontade, mas por algo que não conseguem explicar. Durante muito tempo, também eu não conseguia.
Hoje percebo que muitos dos nossos comportamentos fazem sentido, mesmo aqueles que parecem autossabotagem. Existe uma lógica interna, muitas vezes invisível, que tenta proteger, regular ou manter algum equilíbrio no corpo. O problema é que esse equilíbrio nem sempre coincide com aquilo que, do ponto de vista clínico, reconhecemos como saúde.
Houve uma fase da minha vida em que a doença oncológica me obrigou a parar. Não foi apenas um diagnóstico. Foi uma rutura na forma como eu me organizava por dentro e habitava o meu próprio corpo. Mais tarde, comecei a reconhecer o mesmo padrão em muitas pessoas com histórias diferentes, mas com um denominador comum: um corpo em estado de alerta, mesmo quando a vida atual já não parecia justificar esse alerta.
Foi aí que algo mudou na minha forma de exercer medicina. Deixei de ouvir apenas o que os doentes diziam e comecei a observar o que o corpo mostrava: a respiração, a tensão, o ritmo, a forma como se organizavam nas relações. O corpo começou a revelar dimensões da experiência que nem sempre apareciam no discurso.
Percebi que não estava apenas perante histórias difíceis, mas perante sistemas nervosos em alerta. E isso muda tudo. Há experiências que passam e há experiências que ficam. Não apenas como memórias, mas como formas de funcionamento que fizeram sentido no momento em que a experiência aconteceu e que, com o tempo, podem tornar-se desajustadas e até prejudiciais.
É a isto que muitas abordagens clínicas e somáticas chamam trauma. E talvez uma das ideias mais importantes — e mais mal compreendidas — seja esta: o trauma não é definido apenas pelo que aconteceu, mas também pelo que o sistema nervoso não conseguiu integrar.
O que é o trauma — e o que muitas vezes não vemos
Durante muito tempo, o trauma foi associado quase exclusivamente a eventos extremos: guerra, abuso, catástrofes. Hoje, muitas abordagens clínicas deslocam o foco do acontecimento em si para a forma como o organismo conseguiu, ou não, processar essa experiência.
Como refere Gabor Maté, médico canadiano com trabalho reconhecido nas áreas do trauma e da dependência, o trauma não é apenas o que nos acontece, mas aquilo que acontece dentro de nós como resultado do que vivemos. É a forma como o organismo se adapta quando não consegue processar e integrar uma experiência. É por isso que duas pessoas podem viver o mesmo acontecimento e ter respostas completamente diferentes.
Por outro lado, Bessel van der Kolk, psiquiatra e um dos principais investigadores na área do trauma, trouxe uma ideia que hoje é central: o trauma não vive apenas na memória da história, vive também no corpo. O corpo pode manter essa experiência sob a forma de padrões fisiológicos: na forma como reage, como se ativa, como recupera ou, muitas vezes, como não consegue recuperar.

Importa também dizer o que o trauma não é. Não é fraqueza, nem falta de resiliência. Não está limitado a eventos extremos. E nem todo o trauma se traduz num diagnóstico clínico. A Perturbação de Stress Pós-Traumático é um diagnóstico específico, com critérios definidos. Mas a realidade do sofrimento humano é mais ampla e grande parte dela existe fora desses limites formais.
Também é importante não transformar o trauma numa explicação universal para todos os sintomas. Fadiga persistente, alterações do sono, queixas digestivas, dor crónica ou inflamação podem ter múltiplas causas e devem ser avaliadas clinicamente. Ao mesmo tempo, sabemos que experiências de stress prolongado, adversidade ou ameaça podem influenciar profundamente a fisiologia.
Nem sempre estamos perante Perturbação de Stress Pós-Traumático. Mas podemos estar perante um sistema nervoso desregulado. Talvez uma das mudanças mais importantes seja esta: deixar de ver o trauma apenas como um tema de especialidade, ou mesmo apenas como um tema médico, e começar a reconhecê-lo como um fenómeno transversal à saúde.
Porque não estamos apenas a falar de mente. Estamos a falar de um corpo que aprendeu a viver em modo de sobrevivência e que continua a funcionar como se a ameaça ainda estivesse presente.
O trauma vive no corpo e organiza-se em estados fisiológicos
Grande parte do que o corpo guarda não está acessível à memória consciente. Existe uma diferença entre o que sabemos e o que sentimos. Podemos saber que já passou e, ainda assim, sentir que não passou. O corpo reage antes de a mente interpretar. E, mais do que histórias, organiza-se em estados fisiológicos.
Quando existe segurança, o corpo permite relaxamento, conexão e recuperação. Quando existe ameaça, o corpo mobiliza-se. No estado de luta ou fuga há energia, aceleração e urgência: o corpo prepara-se para agir. Há uma sensação implícita de capacidade, como se internamente surgisse um “é preciso agir e eu consigo”: consigo responder, consigo sair da situação, consigo fazer alguma coisa.
Quando a ação não é possível, por incapacidade real ou por ser sentida como ameaça, o sistema pode entrar em imobilização. Podemos olhar para estes estados de forma simples:
- Segurança: estado de relaxamento e conexão. Permite presença, clareza mental, recuperação e relação com os outros. O corpo sente que pode descansar porque não há ameaça imediata.
- Luta ou fuga: estado de mobilização. A frequência cardíaca aumenta, a respiração acelera, o foco estreita. Existe energia disponível para responder, agir ou sair da situação.
- Freeze ou congelamento: imobilização com alta ativação. O corpo está em alerta máximo, preparado para agir, mas bloqueado. Há tensão interna, hipervigilância, mente acelerada e dificuldade em avançar. É como carregar no acelerador e no travão ao mesmo tempo.
- Colapso: imobilização com baixa ativação. O sistema desliga para se proteger. Pode haver quebra de energia, sensação de vazio, apatia, distanciamento ou mente enevoada. Tarefas simples podem parecer demasiado exigentes.
Todos estes estados são respostas de sobrevivência e todos fazem sentido num determinado contexto. O problema surge quando se tornam persistentes e o sistema perde flexibilidade. Em muitas leituras clínicas do trauma, uma das marcas importantes é precisamente essa perda de flexibilidade entre estados: o corpo deixa de conseguir regressar com facilidade à segurança, ao descanso ou à conexão.
Em particular, nos estados de congelamento e colapso, podem surgir comportamentos inconscientes para preservar segurança. Por exemplo, comportamentos de submissão podem tentar evitar conflito; comportamentos de ajuste relacional podem levar a pessoa a agradar, antecipar necessidades externas e abandonar as suas próprias necessidades.
Internamente, pode surgir algo como: “é preciso manter o outro seguro para eu estar seguro”. Estes padrões podem passar despercebidos, mas implicam um afastamento persistente de si mesmo, com consequências emocionais e fisiológicas importantes.
Para guardar: nem sempre o corpo está a resistir à cura. Muitas vezes, está a repetir uma estratégia antiga de proteção.
Nem todo o trauma vem de um evento
Para muitas pessoas, as marcas de trauma não têm origem num momento isolado, mas em experiências repetidas ao longo do tempo, sobretudo nas fases iniciais da vida. É aquilo a que chamamos trauma de desenvolvimento.
Trauma de desenvolvimento não é necessariamente o que aconteceu. Muitas vezes, é também o que não aconteceu: previsibilidade, segurança, presença, um adulto com quem pudéssemos contar. A teoria da vinculação, inicialmente descrita por John Bowlby, sugere-nos que o desenvolvimento acontece em relação. O sistema nervoso não se regula sozinho desde o início; aprende a regular-se através da relação com o outro.
Na abordagem somática, descreve-se frequentemente o trauma como algo que surge quando o organismo é exposto a “demasiado, demasiado rápido ou demasiado cedo”, ou a “demasiado pouco, durante demasiado tempo”. No primeiro caso, o sistema é inundado por uma intensidade que não consegue processar. No segundo, não há necessariamente um evento marcante, mas uma ausência prolongada ou uma repetição que desorganiza.
Pode ser a falta de segurança, de previsibilidade ou de apoio, mas também a presença constante de crítica, invalidação ou tensão relacional. Experiências que, isoladamente, podem parecer pequenas, mas que, ao longo do tempo, mantêm o sistema em adaptação contínua.
Quando essa segurança não está disponível, o sistema adapta-se: aprende a estar em alerta ou a desligar, a antecipar, a agradar ou a conter. Essas adaptações foram inteligentes e necessárias num determinado contexto. Mas podem tornar-se padrões persistentes, mesmo na idade adulta.
Muitas vezes, aquilo que chamamos “a minha forma de ser” é, na verdade, a forma como o sistema nervoso aprendeu a encontrar segurança, mesmo quando essa forma, no presente, já não protege: limita.
O que o trauma pode fazer ao corpo
Quando o sistema nervoso permanece tempo demais em modo de sobrevivência, o impacto não é apenas emocional. É fisiológico e biológico. O stress, por si só, não é o problema. Em situações agudas, o stress permite-nos responder, agir, sobreviver. No entanto, quando essa ativação se prolonga no tempo, deixa de ser funcional e passa a ter um custo alto.
O neuroendocrinologista Bruce McEwen introduziu o conceito de carga alostática para descrever precisamente esse desgaste: o impacto acumulado no organismo quando os sistemas de adaptação ao stress são ativados de forma repetida ou contínua. Também o neurocientista Robert Sapolsky ajudou a explicar como a exposição prolongada ao stress pode alterar múltiplos sistemas.
Num estado de alerta persistente, o corpo pode começar a funcionar de forma diferente: maior tensão muscular, respiração mais superficial, sono fragmentado, alterações digestivas, maior reatividade emocional e dificuldade em entrar em estados de descanso profundo. O organismo passa a priorizar a sobrevivência em detrimento da reparação. Com o tempo, estas alterações podem deixar de ser apenas funcionais e contribuir para uma maior vulnerabilidade física e emocional.
No cérebro, em contextos de stress traumático ou adversidade prolongada, podem observar-se alterações estruturais e funcionais em áreas associadas à deteção de ameaça, à memória, ao contexto e à regulação executiva. Também o metabolismo e a resposta inflamatória podem ser afetados.
O corpo deixa de ser apenas reativo. Passa a estar moldado pela experiência repetida de ameaça. Neste contexto, a questão da segurança torna-se central. Modelos como a teoria polivagal, proposta por Stephen Porges, trouxeram uma contribuição importante ao enfatizar o papel da segurança na regulação do sistema nervoso, ainda que algumas das suas propostas continuem sob debate científico.
Independentemente do modelo usado, há um ponto consistente na prática clínica do trauma: sem perceção de segurança, o sistema nervoso tende a manter-se em estados de ativação ou imobilização.
Não são só pessoas doentes, é uma cultura hipervigilante
Quando olhamos para o trauma apenas do ponto de vista individual, corremos o risco de perder uma parte essencial da equação. Vivemos num contexto que favorece estados de ativação contínua: ritmos acelerados, produtividade exagerada, pouca margem para descanso e uma crescente desconexão do corpo, de nós próprios e dos outros.
A isto soma-se, frequentemente, uma ausência de segurança relacional consistente. Neste cenário, o estado de alerta deixa de ser exceção e passa a ser pano de fundo.
O sistema nervoso não distingue facilmente entre ameaça externa e pressão constante. Para o organismo, urgência repetida, exigência contínua e falta de pausa podem ser interpretadas como sinais de que é preciso manter-se preparado. E, quando isso se prolonga no tempo, o corpo adapta-se.
Aquilo que muitas vezes identificamos como ansiedade, cansaço ou falta de motivação pode ser a expressão de um sistema que não teve oportunidade de sair do modo de sobrevivência.
No livro O Mito do Normal, Gabor Maté propõe precisamente esta reflexão: muitas das respostas que classificamos como patológicas podem, na verdade, ser adaptações a um contexto que, em si, não é saudável. O que se torna “normal” numa cultura pode não ser, necessariamente, regulador para o corpo humano.
Neste sentido, não estamos apenas perante indivíduos desregulados. Estamos também perante contextos que não oferecem condições suficientes para a regulação.
Talvez o problema não seja apenas o que acontece às pessoas, mas aquilo a que aprendemos a chamar normal.
O que ainda estamos a ignorar na medicina
Em contextos clínicos, mesmo na medicina integrativa e de estilo de vida, a abordagem centra-se muitas vezes em alimentação, suplementação e performance. Estas são, sem dúvida, ferramentas úteis. Mas são frequentemente aplicadas a um corpo em alerta.
Estamos, muitas vezes, a tentar otimizar a biologia sem olhar para o estado do sistema que a organiza.
Um dos estudos mais relevantes nesta área, o estudo ACEs — Adverse Childhood Experiences, ou experiências adversas na infância, ajuda a compreender melhor este ponto, não só pelos seus resultados, mas também pela forma como surgiu.
Este trabalho teve origem numa clínica de perda de peso, onde se observou que muitas pessoas, apesar de conseguirem emagrecer, acabavam por recuperar o peso ao fim de algum tempo. À primeira vista, parecia uma questão de adesão ou disciplina. Mas, ao explorar mais profundamente as histórias de vida destas pessoas, emergiu um padrão consistente: uma elevada prevalência de experiências adversas na infância.
Para muitos destes doentes, o peso não era apenas uma questão metabólica ou comportamental. Era também uma forma de adaptação, uma estratégia muitas vezes inconsciente de proteção, regulação emocional ou criação de segurança.
Foi neste contexto que o estudo ACEs demonstrou uma associação relevante entre experiências adversas na infância e maior risco de múltiplas doenças crónicas, comportamentos de risco e sofrimento psicológico ao longo da vida. Embora uma associação não signifique causalidade direta, estes dados ajudam-nos a perceber como experiências precoces podem criar condições de vulnerabilidade futura.
Um dos aspetos mais marcantes deste estudo é a relação com comportamentos de risco. Estes comportamentos não surgem necessariamente por acaso. Podem ser tentativas de regulação, formas de lidar com estados internos difíceis, reduzir a ativação do sistema nervoso ou criar, ainda que temporariamente, uma sensação de alívio ou controlo.
À luz destes dados, aquilo que muitas vezes interpretamos como falta de disciplina ou resistência à mudança pode ser, na verdade, o corpo a tentar manter um equilíbrio que, embora imperfeito, foi essencial para sobreviver.
Não basta viver “saudável”, é preciso segurança
Não é difícil perceber que podemos “fazer tudo certo” e, ainda assim, o corpo continuar em alerta. Alimentação, exercício e sono são fundamentais, mas nenhuma destas estratégias substitui a regulação do sistema nervoso. Na verdade, sem regulação, não há terreno para reparação. Não se constrói saúde num corpo que ainda se sente em perigo.

Por outro lado, o sistema nervoso não responde a intenções. Responde a experiências. Segurança não é um conceito. É uma experiência que o corpo reconhece e que não podemos forçar. Integrar experiências traumáticas requer acolhimento, compaixão e tempo. Não se trata de encontrar a ferramenta perfeita, mas de criar as condições certas.
Durante muito tempo, o trauma foi abordado sobretudo através da palavra falada. Falar, compreender e dar significado é importante, mas nem sempre suficiente. Isto acontece porque o trauma não vive apenas na narrativa. Vive também no sistema nervoso e no corpo.
É por isso que, para muitas pessoas, falar não chega. Não porque a psicoterapia não funcione, mas porque há dimensões da experiência que não são acessíveis apenas pela via cognitiva.
Experiências traumáticas refletem, muitas vezes, situações em que existiu uma impossibilidade de completar uma ou várias respostas físicas. Uma das características dos estados de freeze ou colapso é precisamente a incapacidade para o movimento. Por isso, o movimento pode ter um papel importante na recuperação. Aqui, o objetivo não é performance. É recuperar a possibilidade de ação.
Caminhar com presença, dança intuitiva, yoga sensível ao trauma e outras formas de movimento podem devolver ao corpo a experiência de “eu consigo”. Já o teatro, a participação num grupo coral ou as danças em grupo podem ajudar a devolver sentido de pertença e a possibilidade de viver novas versões da pessoa para além da sua identidade traumática.
Entre as abordagens clínicas com maior evidência para Perturbação de Stress Pós-Traumático estão intervenções psicoterapêuticas focadas no trauma, incluindo EMDR e terapias cognitivo-comportamentais focadas no trauma. Outras abordagens corporais ou relacionais, como terapia somática, yoga sensível ao trauma, hipoterapia ou práticas de movimento consciente, podem ser úteis para algumas pessoas, sobretudo como complemento, desde que escolhidas com acompanhamento qualificado e ajustadas à história, sintomas e recursos de cada pessoa.
É importante dizer que, como profissional de saúde, sei que o meu papel não é tratar trauma no sentido psicoterapêutico do termo. É criar condições para que as pessoas se sintam suficientemente seguras para explorar a sua paisagem interna com toda a sua complexidade, o que inclui as suas feridas mais profundas. Talvez isto não seja tão atraente como prometer resultados rápidos e dramáticos, mas é a medicina que sinto que faz falta ao mundo.
É tempo de mudar a forma como entendemos saúde. Porque há corpos que não estão a falhar. Estão a fazer exatamente aquilo que aprenderam para sobreviver.
Para continuar a cuidar
Se este tema te toca, não o leias como um diagnóstico. Lê-o como um convite a olhar para o corpo com menos julgamento e mais curiosidade.
A pergunta talvez não seja apenas: “o que há de errado comigo?”
Talvez seja também: “o que é que o meu corpo aprendeu a fazer para me proteger?”
Na DoBem, podes continuar esta reflexão lendo outros artigos sobre psicologia somática, stress crónico e sistema nervoso em alerta e respiração consciente.
Nota: este artigo tem caráter informativo e não substitui acompanhamento médico, psicológico ou psicoterapêutico. Se este tema ativar sofrimento intenso, memórias traumáticas, pensamentos de autoagressão ou sensação de perigo, procura apoio especializado. Em Portugal, podes contactar o SNS 24 através do 808 24 24 24. Em situação de perigo imediato, liga 112.

Diana Ferreira é médica, MD, PhD, com percurso em oncologia médica, cuidados paliativos, medicina integrativa e medicina do estilo de vida. A sua experiência pessoal com uma doença oncológica, em 2020, reforçou uma visão de saúde centrada na pessoa como um todo: corpo, mente, contexto, sistema nervoso, relações e sentido de vida.
Tem formação em medicina integrativa e funcional, regulação do sistema nervoso, microbioma, coaching de saúde e yoga em oncologia. É também fundadora da Hygiá Collective, projeto dedicado à educação em saúde integrativa aplicada à vida quotidiana e às equipas.
No seu trabalho, cruza ciência, experiência clínica e cuidado humanizado, com especial atenção à saúde oncológica, doença crónica, trauma, sistema nervoso e formas mais compassivas de habitar o corpo.
Podes acompanhar o seu trabalho em dianaferreiramd.com e no Instagram @diana_ferreiramd.





