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Sustentabilidade

“Seaspiracy”. 5 lições importantes que retiramos do documentário sobre a indústria da pesca

Estreou a 24 de março e já faz parte do top dos mais vistos na plataforma. A escravatura em navios e a polémica das etiquetas de pesca sustentável são dois dos temas centrais.

O salmão de viveiro que compramos no supermercado é alimentado com corantes químicos para ter a cor rosada a que estamos habituados quando, na verdade, deveria ser mais acinzentada e, em pleno século XXI, os barcos de pesca recorrem a trabalho escravo. Estas são apenas duas das revelações mais chocantes do “Seaspiracy: Pesca Insustentável“, o mais recente documentário da Netflix e que fala sobre o impacto da pesca comercial para o planeta.

O “Seaspiracy: Pesca Insustentável“, que já faz parte do Top 10 da plataforma de streaming, estreou a 24 de março, e tem gerado bastante controvérsia e já levou a que várias organizações não governamentais (ONG’s) tivessem emitido comunicados de resposta a algumas das acusações presentes no projeto de Ali Tabrizi, que contou com os mesmos produtores de “Cowspiracy”.

Muito resumidamente, e para quem ainda não viu o documentário, Ali Tabrizi começa por dizer que desde que se lembra que é fascinado pelo oceano. Esse mesmo fascínio levou-o a fazer uma pesquisa sobre os detritos nos oceanos, mas o que Tabrizi não esperava era que acabasse por descobrir muito mais do que inicialmente tinha planeado.

Destruição de habitats, golfinhos, tubarões e outras espécies capturadas acidentalmente e relatos de trabalho escravo em zonas como a Tailândia são apenas alguns dos assuntos sobre os quais o documentário se debruça. O objetivo do realizador de Kent, no Reino Unido, é simples: mostrar que os oceanos, que geram cerca de 85% do oxigénio que consumimos no planeta, estão em perigo, e cada um de nós pode fazer a diferença.

Depois de termos visto “Seaspiracy: Pesca Insustentável”, estas são as cinco lições mais importantes que retirámos do novo documentário da Netflix.

5 coisas que aprendemos com “Seaspiracy: Pesca Insustentável”

A captura acidental é um dos maiores problemas da indústria da pesca

Quando os pescadores lançam as suas redes ao mar acabam, muitas vezes, por apanhar mais espécies marinhas do que aquelas que pretendiam. Golfinhos, tubarões, tartarugas, entre outras, são algumas das mais comuns e que, muitas vezes, acabam por ser novamente lançadas ao mar. No entanto, muitos destes animais já são devolvidos ao mar sem vida, enquanto os que lá regressam acabam por não sobreviver devido à falta de oxigénio e ao trauma pelo qual passaram.

O documentário destaca algumas estatísticas que apontam para que mais de 50 milhões de tubarões, que apesar de serem considerados perigosos são essenciais para a preservação dos oceanos, sejam capturados acidentalmente. Além disso, destaca também que todos os anos, na costa atlântica de França, mais de 10 mil golfinhos são também colhidos por estas redes.

Há navios de pesca que recorrem a trabalho escravo

Parece impossível, mas de acordo com o documentário têm surgido relatos de trabalho escravo em 47 países do mundo. No projeto de Ali Tabrizi são apresentadas duas entrevistas a homens que relatam como foram submetidos a trabalhos forçados durante dez e seis anos, respetivamente. Ambos trabalhavam em navios de pesca na Tailândia.

Os homens foram forçados a trabalhar na pesca de gambas e camarão, e partilham relatos chocantes de abusos e ameaças. Um deles conta, inclusive, que chegou a ser ameaçado com uma arma e que os corpos de vários tripulantes que tinham morrido a bordo eram mantidos nos congeladores dos navios.

Este tema, tal como outros focados no documentário, não é propriamente uma novidade. Em janeiro de 2018 o jornal britânico “The Guardian” escrevia sobre o tráfico e as violações dos direitos humanos em navios de pesca tailandeses.

“O trabalho forçado é a rotina. Os trabalhadores que entrevistámos descreveram que foram traficados para navios, mantidos como prisioneiros em trabalhos de onde não podiam sair, que sofriam de maus tratos físicos, falta de comida e passavam por longos períodos em que estavam sob as piores condições de trabalho”, disse na altura Brad Adams, diretor da Human Rights Watch na Ásia. “A pior coisa, para muitos deles, não era o facto de não serem pagos. Os maus tratos psicológicos e a falta de dignidade eram o mais difícil de suportar.”

Optar por peixe de viveiros não é mais sustentável

Muitos podem pensar que comprar peixe de aquacultura é uma alternativa sustentável à pesca selvagem. Afinal, não estamos a retirar os animais do seu habitat natural nem a prejudicar os oceanos. No entanto, o documentário “Seaspiracy: Pesca Insustentável” mostra que esta ideia é errada, já que os peixes produzidos em viveiros são alimentados com peixes selvagens.

Além disso, o documentário mostra ainda que algumas espécies, como é o caso do salmão, precisam de ser alimentadas com recurso a pigmentos químicos para que tenham um aspeto semelhante ao do peixe selvagem. Segundo os especialistas que falaram com Tabrizi, o salmão de viveiro não deveria ter uma tonalidade alaranjada, mas sim acinzentada. Este facto já tinha sido relatado anteriormente tal como escreveu em 2017, a revista “Time”.

O plástico é a maior ameaça dos oceanos

Sabemos que este tema não é uma novidade, mas é talvez um dos pontos mais importantes — e até chocantes — do “Seaspiracy: Pesca Insustentável”. Já todos vimos fotografias de tartarugas com palhinhas presas no nariz e sabemos, inclusive, que com a pandemia tem havido um aumento cada vez maior de plástico nos oceanos. No entanto, as palhinhas de plástico, tal como escreveu a “Vox” em dezembro de 2018, causa apenas 0,03% da poluição dos oceanos. A principal responsável é, sem dúvida, a indústria da pesca.

No documentário, o jornalista e ambientalista George Monbiot explica que as redes utilizadas para a pesca ocupam a grande fatia daquela que é a poluição dos oceanos. Contudo, não se sabe exatamente de que tipo de plástico é que

“Mesmo os grupos marinhos que falam do plástico mostram-se reticentes em falar neste em particular: as redes e equipamento de pesca”, começa por dizer o especialista. “Ouvimos falar muito na Ilha do Plástico do Pacífico, 46% desse plástico é composto por redes de pesca, que são muito mais perigosas para a vida marinha do que as palhinhas de plástico porque, claro, são desenhadas para matar.

As etiquetas de pesca sustentável não são bem o que parecem

“Qual é a definição de pesca sustentável?”, pergunta Ali Tabrizi a Karmenu Vella, o Comissário Europeu responsável pela pasta das pescas, ao que este lhe responde com uma analogia económica onde compara a pesca em excesso a quando gastamos capital além dos juros que este rendeu. A isso, Tabrizi responde “Então, usando a sua analogia económica, os oceanos hoje em dia estão não só em divida, mas também numa grande depressão. Não devíamos parar de gastar aquilo que não conseguimos pagar?”

Vella acaba a dizer que não devemos ir ao extremo de dizer que a única solução passa por deixar de pescar. O que devemos fazer é, nas suas palavras, “ter uma pesca mais sustentável”. Mas o que é que isto significa, exatamente? A definição não fica clara, e esta pergunta acaba por ficar em aberto até ao final do “Seaspiracy: Pesca Insustentável”.

O que sabemos é que existem já várias organizações que utilizam um selo de pesca sustentável, como é o caso da Marine Stewardship Council, um dos maiores grupos que atribuem este selo com quem o realizador tentou falar por várias ocasiões, sem sucesso. Já Callum Roberts, especialista em conservação marinha e oceanógrafo diz “as etiquetas nas embalagens não significam nada, em alguns casos.”

Isto porque, ao longo do documentário, vai sendo revelado que várias destas ONG’s não fazem uma vigia das práticas levadas a cabo pelos pescadores e a Dolphin Safe, por exemplo, não é capaz de garantir que os golfinhos estejam, efetivamente, em segurança.

“Não, ninguém consegue [comprovar a segurança dos golfinhos]. Como é que conseguimos saber o que é que eles [os responsáveis dos navios] estão a fazer quando estão no oceano? Temos pessoas nos barcos que observam, mas que podem ser subornadas”, diz Mark Palmer da Earth Island Institute, que gere o selo da Dolphin Safe. Contudo, Palmer já veio a público dizer que as suas afirmações foram tiradas de contexto no documentário.

“O filme tirou as minhas declarações de contexto para sugerir que não há supervisão e que nós não sabemos se os golfinhos estão ou não a ser mortos, e isso não é verdade”, escreve o “The Guardian“.