Sustentabilidade

[not]leather. O projeto que usa restos de fruta para fazer porta-cartões de “couro”

Costuma dizer-se que do pouco se faz muito, mas o conceito da [not]Leather é que com muita fruta se faz muito para o planeta. Revelamos como.

Se há umas décadas alguém nos dissesse que é possível usar desperdício alimentar para criar porta-cartões, a primeira reação seria de incredibilidade e dúvidas sobre a sanidade mental dessa pessoa. Hoje em dia, e depois de surgirem ténis e casacos feitos com garrafas de plástico, não só parece uma ideia plausível como ficamos curiosos e queremos um desses porta-cartões feitos de “couro”.

E não se preocupe caso fale com entusiasmo sobre a ideia ao grupo de amigas. A [not]leather tem vários modelos que permitem que nenhuma tenha um artigo igual. Umas podem optar pela creme, cuja pele é mais clara e foi chamada de Pinheiral em agradecimento à autora do projeto 120 gramas, outras têm como opção a Crato, em castanho, nome que se deve à “madrinha do projeto e impulsionadora” da página Hardcore fofo.

A madrinha do [not]Leather e os afilhados que constituem a coleção estão apresentados, resta saber quem é o pai do projeto.

Chama-se Jorge Lopes, tem 39 anos, é empresário no ramos das energias renováveis e o couro vegetal surgiu na sua vida há apenas um ano.

Para que não haja confusões, o couro vegetal tradicional “tem origem animal mas a curtimenta (o tratamento) é vegetal”, explica Jorge Lopes à dobem, e foi com este material que começou a trabalhar. “Com o tempo comecei a interessar-me por outro tipo de materiais muito semelhantes ao couro e que possibilitam a sua substituição”, neste caso, o desperdício de fruta, diz.

Até chegar aqui, a sustentabilidade era um campo pouco explorado na vida do proprietário, mas fazer porta-cartões vegan foi uma forma de explorar a ecologia a nível pessoal e profissional. “Aos poucos estou a começar a abandonar o couro animal e a dedicar-me apenas a este tipo de materiais”, refere.

O [not]Leather foi lançado apenas em novembro de 2020 e em três meses conseguiu um dos principais objetivos: lançar curiosidade.

“O conceito do [not]leather, é a utilização de materiais semelhantes ao couro, quer na sua durabilidade quer no seu aspeto, materiais sustentáveis, ecológicos, ecologicamente corretos, sempre sem origem animal, com o objetivo de levar ao conhecimento de cada vez mais pessoas que é possível a transformação de desperdícios alimentares, neste caso, a fruta, num material semelhante ao couro e, por sua vez, a criação de peças úteis que podemos usar no nosso dia a dia”, refere o proprietário.

E como é que esta transformação funciona? Pega-se na fruta que não é vendida nos supermercados que se transforma numa pasta e, depois, em folhas de 60 por 40 centímetros manuseáveis, permitindo fazer os tais porta-cartões.

Todas as peças são feitas à mão por Jorge, que é também responsável pelo restante processo da marca: desde a compra dos materiais, à conceção das peças.

Dado que estes são os primeiros passos de Jorge Lopes na sustentabilidade e no manuseamento do desperdício alimentar para transformar num material semelhante ao couro, o porta-cartões foi a aposta que considerou ideal para começar.

Contudo, apesar da sustentabilidade do material em si, a origem é um entrave à total ecologia dos artigos. “Existem ainda muito poucos fornecedores deste tipo de material, sendo que em Portugal não existe nenhum que eu conheça”, refere o proprietário.

É por isso que a fruta desperdiçada e usada nos artigos provém da Europa e “em breve da América do Sul”, avança Jorge, que não se fica por aqui quanto às revelações.

“O próximo artigo está para sair. Será algo ainda de pequenas dimensões, mas muito útil”, anuncia.

Para já, pode comprar um dos porta-cartões (custam 15€ cada) da [not]Leather por mensagem privada no Instagram ou na Bempostinha 22, um atelier partilhado na Rua da Bempostinha, em Lisboa, onde em tempos teve lugar uma mercearia, cujos traços das paredes mantêm-se até aos dias de hoje.