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Sustentabilidade

As dicas da OMS para que o regresso à normalidade seja “mais verde”

Mais energias renováveis, menos investimento em indústrias poluentes e dietas mais nutritivas e sustentáveis são alguns dos conselhos para o regresso à normalidade.

O ar está mais respirável, as dunas de Maspalomas recuperaram o seu aspeto original, e na Índia bastou uma semana de quarentena para a poluição registar uma descida de 60%. Mas ainda temos um longo caminho a percorrer para conseguir melhorar o estado do nosso planeta e, por isso, a Organização Mundial de Saúde emitiu um manifesto: o regresso à normalidade depois da pandemia deve ser mais saudável e verde. 

No comunicado, pode ler-se que as sociedades precisam de se proteger e de recuperar o mais rapidamente possível, mas que não podem voltar aos hábitos de antigamente. 

“Poupar dinheiro negligenciando a proteção do ambiente, a prontidão dos meios de emergência, os sistemas de saúde e as redes de segurança social revelou ser uma falsa economia, e a conta está agora a ser paga por várias vezes”, afirma a organização. “O mundo não consegue aguentar a repetição de desastres como a da COVID-19, sejam eles desencadeados pela próxima pandemia ou pelos danos ambientais crescentes e pelas alterações climáticas. Voltar ao normal não é suficiente.”

No manifesto, a OMS salientou também que a pandemia revelou algumas das melhores qualidades das sociedades. A solidariedade entre vizinhos, a coragem dos trabalhadores da saúde — e não só — que estão a colocar em risco a sua vida e a sua saúde para benefício da sua comunidade e ainda a cooperação entre países que, juntos, trabalharam para enfrentar esta emergência e uniram esforços na busca de tratamentos e vacinas foram alguns dos pontos focados no comunicado. 

Além disso, a OMS destacou ainda que foi durante a pandemia que muitos passaram a respirar ar limpo, algo que não era possível há já vários anos, em alguns casos. O que pode significar uma esperança para o futuro. 

“Os níveis de poluição baixaram de tal forma em alguns locais que as pessoas puderam respirar ar fresco, ver céus azuis, águas limpas e cristalinas ou andar a pé ou de bicicleta em segurança com os seus filhos pela primeira vez nas suas vidas”, escreve a OMS. “Sondagens realizadas em várias partes do mundo mostram que as pessoas querem proteger o ambiente, e preservar os aspetos positivos que emergiram desta crise quando sairmos dela”

A OMS revela ainda que, neste momento, os governos estão a utilizar biliões de euros para recuperar as economias e considera este gesto como essencial para salvaguardar a vida e a saúde de todos os cidadãos. No entanto, a organização afirma que as decisões sobre onde se aplicarão estes investimentos podem ter impacto na degradação ambiental e na poluição, especialmente nas emissões de gases com efeito de estufa que são a base do aquecimento aquecimento global e da crise do clima. 

“As decisões dos próximos meses podem prender-nos a um modelo que danifica os sistemas ecológicos que sustentam a saúde e vida humana, ou podem ajudar-nos a ter um mundo mais saudável, justo e verde”, acrescentam.

Para o conseguir, a OMS deixa cinco dicas para que o regresso à normalidade seja mais verde e saudável. 

Protejam e preservem a fonte da saúde dos seres humanos: a natureza

“As economias são o resultado de sociedades humanas saudáveis que, por sua vez, dependem de um ambiente natural — a fonte original de ar puro, água e comida. A pressão humana, a desflorestação, as práticas agrícolas intensivas e poluentes bem como a falta de gestão de ecossistemas e consumo de animais selvagens põem em causa estes elementos”, escreve a OMS. 

Tudo isto causa um aumento do risco de doenças infecciosas nos humanos, sendo que cerca de 60% delas surgem em espécies selvagens — tal como aconteceu com a COVID-19. Para reduzir este risco, a OMS apela a que se aliviem os impactos na natureza e no ambiente para reduzir o risco a partir da origem, e que não se aposte apenas na prevenção e deteção precoce de surtos.

Investam em serviços essenciais, sobretudo em unidades de saúde, desde o saneamento e abastecimento de água à energia limpa

“Em todo o mundo, há milhões de pessoas que não têm acesso aos serviços mais básicos que são essenciais para proteger a sua saúde, seja da COVID-19 ou de qualquer outro risco a que estejam expostos. Locais para lavar as mãos são essenciais para a prevenção da transmissão de doenças infecciosas, mas não existem em cerca de 40% das casas”, pode ler-se.

O saneamento básico é, por isso, um dos pontos que a OMS destaca como fundamental, assim como a existência de meios de proteção de todos os trabalhadores das unidades de saúde, de forma a evitar a propagação de doenças como o novo coronavírus. 

Garantam uma transmissão rápida e saudável de energia

Neste ponto, a OMS começa por destacar que cerca de sete milhões de pessoas morrem todos os anos por estarem expostas a poluição do ar que provém, maioritariamente, da queima de combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo, explica que as energias renováveis são cada vez mais baratas, fiáveis, e uma boa forma de conseguir gerar empregos seguros e com melhores rendimentos. 

Por tudo isto, a Organização Mundial de Saúde aconselha a que, no regresso à normalidade, as nações invistam em energias mais sustentáveis, alegando que não só conseguiríamos manter o objetivo definido no acordo de Paris em manter o aquecimento global abaixo dos 2.º, como  “a melhoria na qualidade do ar seria de tal ordem que os ganhos na saúde cobririam, em dobro, o custo do investimento necessário.”

Promovam sistemas de alimentação sustentáveis e saudáveis

“As doenças causadas por falta de acesso a alimentos ou por dietas altamente calóricas e pouco saudáveis são, neste momento, as maiores responsáveis pelas doenças a nível mundial”, escrevem, acrescentado é também por este motivo que estamos cada vez mais vulneráveis a doenças a obesidade e a diabetes, que são considerados fatores de risco e podem até conduzir à morte pela pandemia da COVID-19.

A OMS refere ainda que a exploração agropecuária é uma das maiores responsáveis pela emissão de gases poluentes para a atmosfera, o que conduz ao aparecimento de novas doenças. Por isso, o manifesto aconselha a que se passe rapidamente para “dietas sustentáveis, saudáveis e nutritivas. Se o mundo conseguisse seguir as orientações alimentares da OMS salvaria milhões de vidas, reduziria os riscos de doenças e conseguiria reduzir significativamente as emissões de fases poluentes em todo o mundo.”

Construam cidades habitáveis e saudáveis

Saturadas de pessoas, com trânsito constante, com ar poluído e inúmeros acidentes. É assim que a OMS vê as cidades de todo o mundo onde vive mais de metade da população. São também as cidades as responsáveis por 60% das emissões de gases com efeito de estufa, que a OMS diz ser possível contrariar se todos evitarem os carros particulares e optarem por caminhar, andar de bicicleta ou utilizar os transportes públicos.

Dá ainda o exemplo de grandes cidades como Milão, Paris ou Londres que, durante a pandemia, aumentaram a quantidade e tamanho de ciclovias nas suas cidades de maneira a garantirem o distanciamento social. A longo prazo, a Organização Mundial de Saúde acredita que esta medida pode melhorar a qualidade de vida dos cidadãos no desconfinamento.

Parem de usar o dinheiro dos contribuintes para financiar a poluição

Não menos importante, o manifesto afirma que os governos de todo o mundo estão a ter de fazer grandes reformas na economia de cada um dos seus países de maneira a conseguirem reerguer-se após a pandemia. Contudo, explica que mais de 350 mil milhões de euros dos contribuintes são utilizados todos os anos para financiar industrias poluentes, que estão a provocar alterações climáticas e a poluir o ar. 

Além disso, a OMS refere ainda que, se juntarmos a este valor o impacto ambiental e na saúde, o valor pode chegar aos 4,5 biliões de euros, “mais do que todos os governos do mundo gastam na saúde, e cerca de dois mil vezes o orçamento da OMS.” 

“Devíamos parar de pagar a conta da poluição, tanto pelos nossos bolsos como pelos nossos pulmões”, escreve a organização