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Sustentabilidade

Deadstock. Estas marcas sustentáveis utilizam materiais que iam para o lixo para as suas coleções

O desperdício de uns é a virtude de outros. A dobem. falou com quatro pessoas que encontram no deadstock o tesouro para novas criações.

DOBEM.
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Se quando temos sobras de grão no frigorifico as transformamos em hambúrgueres vegetais ou uma banana demasiado madura se torna perfeita para colocar numas papas de aveia, porque é que na moda não se aplicam as mesmas regras e se utilizam materiais que, de outra forma, seriam apenas lixo? Há marcas sustentáveis — e portuguesas — que já o fazem.

Foi esta questão que passou pela cabeça de Ana Faria que, no início do ano, lançou o projeto Puranna. A mesma ideia surgiu a Beatriz Geada, que em novembro de 2020 criou a écoute, que transforma missangas antigas em brincos novos, embora a ideia tenha começado a ser construída ainda antes da pandemia da COVID-19 atingir o mundo.

Já com mais experiência, Márcia Nazareth criou, em 2013, a marca com o próprio nome, Nazareth Collection, cuja coleção é inspirada nas suas duas avós. A inspiração não se reflete em peças vintage, mas sim na arte de “saber fazer durar uma peça de roupa e o sonho de a vestir como sendo única”, diz a fundadora à dobem.

E não só de mulheres se fazem este projetos. Cristóvão Soares lançou em 2016 a Verney para mostrar que, literalmente, da cabeça aos pés, é possível dar os passos certos se calçarmos estes sapatos mais amigos do ambiente.

Um a um, a dobem foi conhecer estes projetos que nasceram a pensar além da moda. Para cada um deles, o foco é a sustentabilidade.

Puranna

Em janeiro deste ano, Ana Faria, decidiu que estava na altura de fazer alguma coisa para mudar o mundo. A pensar nisso, lançou a Puranna. Natural de Guimarães, a jovem cresceu numa família ligada à industria têxtil que, pelas suas características, nunca a fascinou.

“Eu lembro-me de ser pequenina e ver o meu pai preocupado porque tinha encomendas que não podiam sair ou porque havia uma variação de cor que nem era possível ver a olho nu, mas que não passava no controlo de qualidade e entretanto já estavam milhares e milhares de metros produzidos, ou porque era produzido alguma coisa e depois o cliente ia à falência e ficavam lá milhares de rolos já produzidos sem nenhuma finalidade. Isso para mim magoava-me muito, mesmo pela questão da poluição”, começa por contar Ana Faria à dobem.  

Depois de uns anos a viver no Brasil, foi lá que se começou a questionar a cerca de tudo o que envolvia este universo. “Acho que foi a primeira vez na vida que me questionei acerca da vida e do que estou aqui a fazer. Qual é o meu impacto aqui, o que é que eu vim cá fazer, qual é o meu dom, do que é que eu gosto, e foi aí que decidi aprender costurar”.

Depois de regressar a Portugal, em janeiro deste ano, decidiu criar a Puranna — um projeto constituído inicialmente apenas por Ana e pela sua máquina de costura, aliado a mais duas marcas e com dois produtos principais em mente, sempre reutilizáveis, que recorrem à utilização do chamado DeadStock, isto é, material que não foi vendido e que, muito provavelmente, nunca será.

“É mais do que reciclar, é mais do que encontrar coisas biodegradáveis e continuar a produzir, é reutilizar o que nós já temos produzido em Portugal ou então quando temos de produzir que sejam coisas nacionais de modo a que possamos criar menor impacto no planeta quanto for possível”, refere Ana Faria. “O grande objetivo da Puranna é causar o mínimo de impacto no meio ambiente”, acrescenta, afirmando que “nem sempre é possível também devido aos envios, mas a ideia é mesmo diminuir essa pegada.”

Sendo de Guimarães,  fala da poluição que as fábricas provocam no Rio Ave e recorda a vontade que sempre teve de fazer algo para mudar isso. Sabendo a quantidade de tecido que é desperdiçado nas fábricas, começou à procura de excedentes que pudesse aproveitar.

Ana explica que a maioria dos milhares de metros de tecido de deadstock vai para o lixo, mas que também é possível ser desfeito para mais tarde ser utilizado em interiores de sofás, o que raramente acontece.

“Quando chegam as marcas e as industrias que querem produzir, já vêm com os próprios desenhos, com as próprias cores, então muito dificilmente alguém pega em DeadStock. É difícil que tenha uma finalidade a não ser o lixo”, fala pelo que vê que acontece no negócio da família.

Foi essa finalidade que Ana quis dar aos tecidos, criando a Puranna que se dedica, principalmente, à confeção de artigos para cuidados com a pele como toalhas e discos desmaquilhantes reutilizáveis, o que implica o uso de pouco tecido. “Mesmo assim eu já percorri dezenas e dezenas de fábricas, encontrei coisas maravilhosas e comecei a ver o deadstock como um tesouro. É inacreditável o que podemos encontrar e criar”.

O projeto foi crescendo e ao mesmo juntaram-se os dois primos que, em simultâneo, continuam a trabalhar na fábrica da família, mas que, pela primeira vez, perceberam as mais valias do dead stock. “Para eles, ter um rolo com 50 metros não era nada porque lidam com milhares de metros e de encomendas enormes todos os dias”, refere Ana.

Muita da inspiração de Ana Faria vem da influenciadora Catarina Barreiros, que lançou recentemente a loja online “Do Zero”. Depois de um live em que Catarina falava sobre a importância de se reutilizar o que já estava produzido, Ana sentiu que tinha de lhe passar a suas ideias e aproveitou a ida de Catarina a Guimarães para lhe falar do projeto que levou à parceria entre as duas.

“A Catarina foi incrível e ficou ainda mais entusiasmada do que eu. Ela viu toda a fábrica, todos os processos que acontecem, a parte da escolha do fio, da tecelagem, a parte da produção, a parte do embalamento, mostrámos o que tínhamos de dead stock e ela ficou muito feliz e deu-nos ânimo para prosseguir com isto.”

Na fábrica da família, Ana produz agora, artesanalmente, roupa de cama e de mesa que são as primeiras peças que já estão à venda no site de Catarina Barreiros. Contudo, mais novidade irão surgir.

“O que nós estamos a fazer agora é lançar pouco para que as próprias costureiras não sejam sobrecarregadas e para que possam fazer aquilo com calma e amor”, explica. A empresa da família serve apenas como uma ajuda para conseguir chegar ao dead stock de outras fábricas que “até agora ninguém estava disposto a mostrar porque não valia nada para eles.”

A coleção em parceria com Catarina Barreiros vai ter inicialmente apenas três opções e a ideia é produzir em pequenas quantidades. “Não faz sentido pegar num deadstock e produzi-lo em grande quantidade, se depois também não conseguimos dar uma finalidade porque vamos gastar mais recursos ainda como luz e mão de obra”, afirma Ana referindo que é isso que querem evitar.

Os preços pretendem “honrar as pessoas” que trabalham para a marca. Não só para a coleção que tem em parceria com Catarina, Ana e os primos procuram sempre pessoas que, por alguma razão, precisam de um “dinheiro extra”, por questões familiares ou porque tiveram de receber uma reforma antecipada.

“Em vez de estarmos a procurar confeções que nos possam fazer aquilo em larga escala, vamos valorizar as pessoas que estão mesmo aqui ao nosso lado. É esse o nosso objetivo e acredito que tenha sido também por essa razão que a Catarina aceitou fazer esta coleção connosco. Não fazia sentido começar com outra pessoa qualquer sendo que foi ela a nossa inspiração”, remata a fundadora da Puranna.

Verney

“De que serve criar uma marca amiga do ambiente se produzimos modelos em materiais cuja pegada ambiental é elevada? De que serve criar uma marca que se diz ética se estivermos a produzir os nossos modelos em fábricas que exploram pessoas?”

Ainda que a dobem. tenha feito várias questões a Cristóvão Soares, de 37 anos, co-fundador da Verney, uma as várias marcas sustentáveis portuguesas mas, desta vez, de calçado, as principais foram lançadas por si quando quisemos perceber o porquê de criar um projeto que concilia moda, sustentabilidade, defesa dos animais e ética, quando podia ter lançado uma série de coisas.

Contudo, para Cristóvão, formado em Línguas Estrangeiras Aplicadas e mestre em Economia Industrial e da Empresa, e o amigo e colega de mestrado Dani Barreiro, de 38 anos, licenciado em Gestão Financeira, só este projeto fazia sentido e, por isso, decidiram unir forças para criar uma marca diferenciadora.

“Quando comecei a trabalhar neste ramo, descobri uma indústria quase exclusivamente vocacionada para trabalhar artigos em pele. Poucos eram os materiais sintéticos, reciclados ou naturais usados naquela altura e a vontade por parte dos industriais em usar materiais ‘diferentes’ era pouca ou até mesmo nula”, conta Cristóvão.

A experiência de Cristóvão Soares de uma década na área do calçado e o conhecimento de Dani no que diz respeito à gestão financeira impulsionaram assim a Verney.

“Ao longo do tempo, descobri que existiam cada vez mais soluções alternativa à pele, amigas do ambiente e com capacidade para serem usadas em grande escala. Foi nessa altura que a ideia de criar uma marca começou a germinar e, alguns meses depois, lançávamos a Verney (em 2016)”, continua o co-fundador.

No entanto, mais do que usar alternativas à pele, a Verney dedica-se a pegar nos materiais, sempre que possível de origem nacional, que já existem e transformá-los em novos sapatos.

Quando falamos em materiais, não são simples borrachas ou outros itens mais comuns. Referimo-nos a coisas como cânhamo, maçã, algodão ou garrafas plásticas recicladas e desengane-se se pensa que construir sapatos a partir de materiais usados é como juntar 1+1.

“Obriga a sermos muito mais pacientes e organizados na articulação dos nossos processos”, explica Cristóvão. “Como a oferta de materiais amigos do ambiente é menor, a lei da Oferta e da Procura é implacável e faz com que o preço destas matérias seja elevado. Assim, e para a surpresa de muitas pessoas, fica mais caro produzir um par de sapatos como os nossos do que produzir o mesmo modelo em pele”, acrescenta o co-fundador.

Apesar de no início do projeto não terem como objetivo lançar coleções por considerarem que “este tipo de abordagem apenas estimula o impulso consumista”, uma vez que trabalham com sapatarias habituadas a oferecer stock consoante as estações, criaram duas coleções — outono/inverno e primavera/verão) — e os excedentes são vendidos em outlet, para que nada sobre (só mesmo a vontade de fazer melhor).

Este é o único aspeto em que a Verney produz em abundância e com ideias sempre novas, não reutilizadas, para combater o maior defeito da sociedade: compras assentas na descartabilidade.

“No sentido oposto desta ideia, decidimos criar modelos que não são alvos de moda e que se enquadram na corrente slowfashion. Decidimos também produzir modelos com qualidade, concebidos para durarem no tempo. Mas a verdade é que os nossos sapatos só podem durar se forem bem tratados, daí incentivarmos e explicarmos como cuidar dos nossos modelos”, refere Cristóvão Soares.

Mas, se por descuido ou acidente os sapatos não estiverem no melhor estado ao fim de alguns meses, a primeira solução sugerida pela marca é recorrer ao sapateiro do bairro (contribuindo também para não deixar morrer as atividades tradicionais) e, em último caso, se não houver mesmo solução, dá-los à Verney, que trata do resto.

“Poderemos sempre reciclar o par usado e transformá-lo num componente que será usado na produção de um futuro modelo da nossa marca”, termina Cristóvão.

Nazareth Collection

Se até aqui a sustentabilidade foi o mote para a criação das marcas, o caso da Nazareth foi ligeiramente diferente. A marca, com o nome da fundadora Márcia Nazareth, de 48 anos, nasceu inspirada nas suas avós — a avó Aurora, mestre de guarda roupa cénicos e artísticos no TEP, e a avó Luz, a primeira empreendedora a ter uma empresa têxtil de plissados e sacos de cama — e no conceito “vestir uma fotografia”.

Isto porque, quando a marca Nazareth foi lançada em 2013, a coleção temática foi captada pela lente de Márcia, formada em Design Gráfico, e produzida com uma técnica inovadora na altura: impressão a 360 graus.

Este foi o ponto de partida da Nazareth, que ao longo do tempo ajustou as definições da objetiva para chegar a outro objetivo: ser mais amiga do ambiente.

“Desde 2019 que a Nazareth trabalha com dead stock, stocks que estão parados nas fábricas como excessos de produção, e assim, por utilizar. Ou seja, matéria-prima de qualidade elevada que, cuidadosamente selecionada, ganha uma segunda vida”, explica Márcia, que até criar a marca não tinha qualquer experiência na área têxtil e confessa que os “primeiros tempos foram bastante difíceis”.

Contudo, não se ficou pelo dead stock e foi mais além na missão de ser mais sustentável: criou peças reversíveis. Deve estar a perguntar-se o que é que isto tem que ver com a ecologia, mas basta refletir sobre esta pergunta para perceber a razão: quantas vezes não comprou mais uma peça fast fashion por achar que anda sempre com as mesmas roupas?

Assim, a fundadora de uma das marcas sustentáveis portuguesas que utilizam DeadStock criou uma “oportunidade de comprar uma peça e ter duas utilizações, com dois lados”, diz. “Para o conseguir, tenho três condições importantes: que a malha seja produzida num raio de 30 km do local da confecção, obtida a partir de dead stock e reversível”, acrescenta Márcia Nazareth.

Mesmo assim, se um dia se fartar das peças, a Nazareth apresenta uma solução: dar aquelas que já não usa e ainda recebe um desconto na próxima compra. Há lá melhor incentivo à sustentabilidade?

Além de amiga do ambiente, a marca é amiga de “mulheres bem resolvidas”, diz Márcia. “Tal como gostamos de dizer, emocionalmente sustentáveis. São mulheres que procuram peças que durem na qualidade e no conforto que proporcionam. Que procuram sempre uma compra consciente. Para consigo e com o meio ambiente”, refere a fundadora.

écoute

Formada em Som e Imagem, Beatriz Geada, de 23 anos, sempre teve como música para os seus ouvidos tudo o que diz respeito à criatividade.

“Sempre quis fazer coisas personalizadas, manuais, só que nunca tive vontade de começar até ir no início do ano à Feira da Ladra. Comecei a ver, por curiosidade, miniaturas de frutas, de objetos, mas que fossem agradáveis esteticamente”, conta sobre aquela que foi a sua primeira ida a esta feira e, por coincidência, o início de uma ideia maior.

Ao ver as frutas que estavam num conjunto de chá, Beatriz não viu meras bananas e melancias, mas sim brincos. “Comprei, fiz para uma amiga e gostei muito. Percebi que dava de facto para fazer coisas giras com objetos que não são brincos, mas que podem tornar-se brincos”, acrescenta.

Com a pandemia e sem poder explorar como gostaria estas miniaturas pelas feiras, o projeto foi-se alimentando das peças da plataforma Etsy. “Comecei a procurar peças antigas de bijuteria, colares, missangas e comecei a perceber que aquilo que fazia com as peças da feira da ladra eram divertido, mas interessava-me fazer coisas mais elegantes”, diz a fundadora da écoute.

Com peças e ideias consolidadas, da cabeça de Beatriz passou para o Instagram. E assim nasceu o projeto écoute que tem como objetivo pegar em missangas diferentes e torná-las num só objeto — neste caso brincos elegantes que nada têm que ver com as missangas que juntávamos por brincadeira na nossa infância.

“Eu nem sabia como fazer um brinco. Que ligações é que tinha de ter, como é que se moldava o metal, etc. Tem sido uma aprendizagem e quero tornar isto mais local, em Portugal, mas não esquecer que o mundo inteiro produz coisas e que a globalização permite ir buscar materiais de todo o lado e não ir buscar coisas novas feitas este ano ou hoje”, explica Beatriz Geada, que foi aprendido o processo de criação de brincos através da internet.

Para já, a fundadora do projeto tem apenas experimentado combinações, mas no futuro prevê lançar novas peças de forma premeditada em linha com novas coleções.

“Queria fazer uma coleção assim de inverno/Natal, uma coisa mais transparente, com estrelinhas”, adianta à dobem Beatriz, que faz também parte do projeto Ethical Needle, que pega em roupa em segunda mão e mostra, através de fotografias, que roupa em segunda mão pode ser tão apetecível e estética como qualquer peça comprada numa fast fashion.

Para encomendar os brincos da écoute, basta enviar mensagem privada através da página de Instagram. As peças começam nos 5€.

Texto escrito por Rafaela Simões e Mariana Carriço