Durante muito tempo, eu achei que precisava de “desligar”. Que precisava de férias, silêncio, suplementos, disciplina. E preciso – todos precisamos. Contudo, percebi que a regulação não é relaxar à força. Regulação é recuperar a capacidade de alternar. Um sistema nervoso saudável ativa-se quando precisa e volta ao repouso quando a ameaça passa.
Para o corpo entrar em descanso, digestão e recuperação, não basta a mente querer. O corpo precisa de segurança real, sentida por dentro, como experiência neurofisiológica. E essa segurança não se impõe. Constrói-se por repetição. Não é um retiro que resolve, nem um suplemento isolado. É a repetição de sinais pequenos, consistentes, que ensinam ao sistema que pode baixar a guarda.
Por isso, para mim, começar pela saúde não é otimizar. É estabilizar.
Eu funcionava. Trabalhei, respondi, entreguei, mantive o mundo em pé… pelo menos, por fora. Por dentro, vivia numa urgência silenciosa: o corpo tenso, a cabeça enevoada, a energia vital a faltar, a sensação de estar “fora de mim” como se o meu sistema estivesse sempre a meio passo de cair. Não conseguia alimentar-me bem, não conseguia sair do olho do furacão – mesmo quando tentava apenas deixar-me ir.
Tudo começou com um trauma: uma separação. E com isso veio uma mudança de vida e de rotinas, mas sobretudo vieram emoções como culpa e medo num volume que eu nunca tinha conhecido. Eu pensei: “ok, isto é um luto, é desgaste, é adaptação, é normal, vai passar”. Só que não passou. O tempo, esse, foi passando… e eu fui ficando.
Houve fases com sinais de burnout, períodos com tonalidade depressiva, mensagens e contactos que ficaram sem resposta. Não era teoria de bem-estar. Era incapacidade real. Como se o meu corpo não tivesse espaço interno para o mínimo necessário.
E eu fiz o que muita gente faz quando começa a sentir-se mal durante tempo demais: tentei resolver-me por áreas. Sem força, mas a fazer para não sentir que me abandonava.
QUANDO TENTAS RESOLVER-TE POR PEÇAS, MAS O PROBLEMA É SISTÉMICO
Eu olhava para a mente como se a mente fosse o centro de comando de tudo. Se eu conseguisse “pensar melhor”, “organizar melhor”, , então o resto alinhava. Aumentei as consultas com a psicoterapeuta, adicionei uma pitada de medicação química, mergulhei mais nos trabalhos espirituais e ligados ao emocional. Curar a psiquê – era a urgência.
Surgiam as perguntas típicas de quem já vive tempo demais sem chão: será que isto é TDAH? Será que isto tem traços de autismo? Borderline? O que tenho de ver em mim que ainda não vi? E de aceitar.
Eu trabalhava a mente, trabalhava o espiritual, trabalhava-me — sem parar. E não melhorava o bem-estar. Ao mesmo tempo, ia tentando afinar queixas do corpo como ilhas separadas:
- disbiose intestinal;
- falta de ferro;
- nevoeiro mental persistente;
- oscilações de humor e energia;
- um cansaço que não parecia proporcional à vida.

Hoje vejo o paradoxo com clareza: eu estava a tentar sair do estado de alerta com mais pressão. Insistia em “fazer mais” para me sentir melhor, mas o meu corpo não precisava de mais ação: precisava de desativar o modo sobrevivência. Eu estava a tentar recuperar como quem acelera. Só que recuperação não acontece em aceleração: acontece quando o corpo volta a sentir segurança. Eu tentava apagar um incêndio com mais vento.
A EPIFANIA NÃO FOI MÍSTICA: FOI FISIOLÓGICA
Houve um dia em que tudo encaixou. Não porque apareceu uma solução milagrosa. Mas porque eu ouvi as coisas certas, que me chegaram de diferentes formas e por diferentes pessoas, mas fizeram um match.
Ouvi uma entrevista com a Diana Ferreira, médica integrativa, onde ela dizia algo que me reorganizou: por vezes começamos “pelo intestino” como base, e há casos em que faz sentido, mas, muitas vezes, o ponto de partida precisa de ser o sistema nervoso. E falou do que via em contexto clínico: doença crónica que estavam de mãos dadas com o stress crónico, o corpo com trauma guardado – um corpo que vivia há demasiado tempo em estado de alerta e em modo sobrevivência.
No mesmo dia, via um reels da Sandra Bensaude (terapeuta de biofeedback) sobre o corpo quando a mente está sempre acelerada: alerta constante, hipervigilância, um sistema que não sabe desligar.
E alguém, no meio disto, disse-me uma frase simples e devastadoramente lógica: “Tu não consegues comer melhor e fazer mais por ti porque, com o teu sistema nervoso como está, isso não vai acontecer.”
Foi aí que eu percebi: se calhar eu não estava “fraca” e desleixada. Se calhar eu estava incapacitada.
O QUE É STRESS CRÓNICO E HIPERVIGILÂNCIA
O stress, por si só, não é o vilão. É uma resposta de sobrevivência: o corpo ativa-se para lidar com um desafio, ganhar foco, energia e rapidez — e, idealmente, depois desativa e volta ao equilíbrio. O problema começa quando essa ativação deixa de ser pontual e passa a ser o estado base.
É isso que acontece no stress crónico: os sistemas de resposta ao stress ficam ativados tempo demais e o corpo vai perdendo a capacidade de regressar ao repouso. A ciência descreve este desgaste como carga alostática (allostatic load): o custo fisiológico de viver adaptado ao stress durante demasiado tempo. Esse desgaste afeta sobretudo os sistemas neuroendócrino, imunitário e metabólico, tornando a recuperação mais difícil.
A hipervigilância é a forma como este estado se vive por dentro: uma atenção aumentada, uma sensação constante de que “algo pode correr mal”, como se o corpo estivesse sempre a ler o ambiente à procura de ameaça. O limiar de alerta baixa, a reatividade aumenta e relaxar deixa de parecer seguro. Este padrão pode surgir em contextos de trauma, stress prolongado, ansiedade persistente, luto, relações tensas, sobrecarga mental ou anos a viver em esforço. O corpo aprende depressa e, às vezes, aprende que desligar é arriscado.
Quando stress crónico e hipervigilância se instalam, o corpo muda de prioridades: sobreviver passa à frente de reparar. Isso pode traduzir-se em:
- tensão muscular
- batimento cardíaco mais acelerado
- respiração mais curta
- sono mais leve
- dificuldade em entrar em descanso profundo
- fadiga, irritabilidade e nevoeiro mental
Ao mesmo tempo, o eixo HPA — hipotálamo, hipófise e adrenais, um dos principais circuitos hormonais da resposta ao stress — pode entrar em sobrecarga e perder precisão. O alarme deixa de saber bem quando ligar e quando desligar. Quase tudo começa a ser interpretado como urgente.
A MENSAGEM QUE ME ATRAVESSOU: “NÃO ADIANTA EMPILHAR SUPLEMENTOS EM MODO ALERTA”
Nessa altura, com a mente a mil, enviei uma mensagem aflita à Inês Bleck (fundadora da marca de cogumelos funcionais “Very Chaga”). Queria perceber como os Cogumelos Funcionais me podiam ajudar a desacelerar, a cuidar e reequilibrar o meu sistema nervoso e a fazer com que as minhas hormonas (principalmente a dopamina) fossem produzidas de forma natural e regular. Eu queria uma resposta prática, mas recebi algo mais valioso: um mapa do circuito.
Tive de ouvir várias vezes o audio que ela me enviou em resposta, e fazer um esquema no papel, para conseguir integrar: o corpo em alerta constante investe menos em reparação, o que favorece inflamação de baixo grau, desregulação do eixo do stress e maior reatividade. Ou seja: o alerta gera mais alerta.
O CIRCUITO
STRESS CRÓNICO / HIPERVIGILÂNCIA
↓ (o corpo interpreta tudo como ameaça)
SISTEMA NERVOSO EM ALERTA CONSTANTE
↓ (prioriza sobreviver, não reparar)
MENOS REPARAÇÃO
- menos sono profundo
- menos regeneração
- imunidade mais frágil/desregulada
- hormonas sexuais afetadas
↓
MAIS INFLAMAÇÃO DE BAIXO GRAU
↓
EIXO HPA DESREGULADO (hipotálamo–hipófise–adrenais)
↓ (o “alarme” perde o botão de desligar)
CORPO A LER MAL OS SINAIS DE STRESS
↓ (qualquer gatilho acende)
SISTEMA NERVOSO AINDA MAIS EM ALERTA
↺ volta ao início
E o intestino entra nesta equação. A comunicação entre intestino e cérebro é bidirecional: o stress influencia a digestão, a microbiota, a barreira intestinal e o sistema imunitário; e um intestino em desequilíbrio pode enviar sinais que aumentam a reatividade do cérebro e do sistema nervoso.
ATRAVÉS DO INTESTINO
CORPO EM ALERTA + INFLAMAÇÃO
↓
MICROBIOTA DESREGULA
↓
NEUROTRANSMISSORES ALTERAM
(adrenalina, noradrenalina, dopamina)
↓
CÉREBRO MAIS REATIVO / MAIS ALERTA
↺ alimenta o stress e o alerta de novo
Ou seja, uma autêntica pescadinha de rabo na boca.
O mais importante, para mim, foi perceber isto: sem regular o sistema nervoso, o resto tem pouca terra onde pegar. O corpo em alerta constante compromete o sono, a reparação, a digestão, a energia e a forma como o organismo interpreta o mundo. Eu estava a tentar otimizar um corpo que ainda se sentia em ameaça.
Hoje, aquilo que me parece essencial dizer é isto: quando o sistema nervoso vive em alerta, tudo o resto trabalha em modo esforço. Por isso, para muita gente, começar a recuperar pode passar por olhar primeiro para o sistema nervoso. Não necessariamente em vez do intestino ou de outros eixos da saúde. Porque sem regulação não há terreno para reparação.
STRESS POSITIVO TAMBÉM É UM PROBLEMA (O EUSTRESS)
No meio deste tema, e começando a auto-observar-me com foco no que estava a acontecer em mim, percebi outra coisa: que o stress crónico não nasce apenas de ansiedade, sofrimento ou experiências negativas.

O corpo não ativa apenas quando estamos em perigo. Ativa também quando estamos entusiasmados. Quando começamos um projeto novo. Quando nos apaixonamos. Quando assumimos responsabilidades maiores. Quando nos superamos.Quando estamos a viver algo intenso, mesmo que seja bom.
Biologicamente, a ativação é semelhante.
O sistema nervoso simpático, aquele responsável pela resposta de luta ou fuga, não distingue, numa primeira fase, se a excitação vem de medo ou de entusiasmo. O que ele lê é intensidade na qual:
- A adrenalina aumenta.
- A frequência cardíaca sobe.
- A respiração encurta.
- A energia é desviada para músculos e foco.
E, mais uma vez, o problema não é ativar. O problema é não desativar.
E aqui está a nuance que me faltava: podemos viver meses ou anos em excitação contínua (profissional, emocional, criativa) e, ainda assim, manter o corpo em estado de alerta. Não é preciso ser um ansioso descontrolado.
HORMONAS EM ALERTA: ADRENALINA, NORADRENALINA, CORTISOL E DOPAMINA
Quando falamos de stress, não estamos a falar apenas de um estado psicológico. Estamos a falar de uma cascata fisiológica concreta, desenhada para te manter viva. O problema surge quando essa cascata deixa de ser um episódio e passa a ser o teu pano de fundo. Sempre quis entender mais sobre hormonas – mas estas pareciam ainda não ser um tema que precisava ganhar palco entre os meus estudos. Contudo, com a abertura desta “janela”, tornou-se essencial entender mais.
As primeiras a entrar em cena são adrenalina e noradrenalina. São rápidas, potentes e altamente eficazes. Aumentam frequência cardíaca e pressão arterial, afinam o foco e mobilizam energia para ação imediata, sobretudo através da libertação de glicose e da redistribuição do fluxo sanguíneo para músculos e cérebro. Ao mesmo tempo, reduzem funções que não são prioritárias em modo sobrevivência, como digestão, recuperação e reprodução. Isto é útil para reagir e resolver. Mas, mantido no tempo, significa viver com o corpo em prioridade de curto prazo, sempre pronto, raramente disponível para reparar.
Depois entra o cortisol, a hormona que costuma levar a culpa de tudo, muitas vezes de forma injusta. O cortisol é essencial. Ajuda a gerir energia ao longo do dia, participa na resposta inflamatória e na modulação do sistema imunitário, e faz parte do mecanismo que te permite levantar, produzir e funcionar. O problema não é o cortisol existir. O problema é quando o ritmo circadiano que o regula perde estabilidade por exposição prolongada ao stress, privação de sono, irregularidade de horários ou estado de alerta persistente. Em alguns casos pode ficar cronicamente elevado. Noutros, pode surgir um padrão mais errático, em que o corpo já não calibra bem quando acelerar e quando abrandar. Quando isso acontece, o corpo perde precisão na autorregulação e começa a tratar o mundo como se estivesse permanentemente a exigir resposta.
E há ainda a dopamina, que é frequentemente reduzida a “hormona do prazer”, quando na verdade é muito mais uma hormona da motivação, da antecipação e do “ir atrás”. A dopamina tem um papel central em foco, iniciativa e recompensa, e pode ser afetada por stress crónico de várias formas. Com o tempo, um sistema em alerta constante tende a oscilar entre picos de hiperativação e períodos de quebra, como se alternasse entre um modo de esforço e um modo de colapso. É por isso que é frequente em mim ciclos de “estou a mil” seguidos de “não consigo fazer nada”. Não é falta de vontade. Muitas vezes é um sistema que gastou demasiado tempo em modo mobilização e já não consegue sustentar a mesma resposta.
Quando adrenalina, noradrenalina, cortisol e os circuitos ligados à dopamina ficam demasiado tempo em jogo, acontece algo: o corpo começa a confundir intensidade com normalidade.
A VIRAGEM NÃO FOI “DESLIGAR”, FOI COMEÇAR A OLHAR
Tomar consciência foi importante. Mas, para mim, a verdadeira viragem começou quando percebi que também precisava de voltar a tomar as rédeas da minha vida. Não no sentido de me exigir mais, nem de entrar numa nova fase de hipercontrolo disfarçado de autocuidado. Mas no sentido de parar de viver em reação e começar, devagar, a construir uma resposta.

Hoje, olho para isto com mais clareza: não me basta perceber intelectualmente que vivi tempo demais em alerta. Preciso de criar condições reais para sair desse lugar. Preciso de ajudar o meu corpo a acreditar, pela repetição, que já não está sozinho, nem em perigo, nem condenado a funcionar sempre no limite.
E isso, para mim, começou a traduzir-se em decisões concretas:
Comecei pelo corpo. Pelo básico que durante muito tempo deixei para depois. Quero mexer-me com regularidade, ganhar força, voltar ao ginásio, reconstruir massa muscular, presença e enraizamento. Não como uma meta estética nem como mais uma obrigação. Mas como forma de dizer ao meu sistema nervoso: estou aqui, habito este corpo, quero voltar a viver dentro dele com segurança.
E houve um gesto simples que, para mim, teve um peso simbólico muito maior do que parece. Com a ajuda de uma amiga prática, coloquei uma meta: correr a Corrida de Santo António, seis dias depois de fazer anos. Não porque precise de provar alguma coisa, nem porque ache que uma corrida resolve a vida. Mas porque senti que precisava de um horizonte. De um compromisso concreto com o meu corpo. De um ponto de encontro entre vontade, disciplina, presença e esperança. Às vezes, recuperar também é isto: marcar no calendário uma promessa de regresso a ti mesma.
Para isso, liguei a uma pessoa que admiro, me inspira e em quem confio de olhos fechados: o Paulo Colaço. Uma pessoa com um coração enorme, e que aceitou guiar-me nos treinos sob uma condição simples e bonita: eu estar sempre em contacto com ele. Esse detalhe tocou-me. Porque mostrou-me que isto não é só sobre performance. É sobre cuidado, compromisso, acompanhamento e verdade. Sobre não voltar a fazer tudo sozinha.
Ao mesmo tempo, decidi olhar de frente para a parte médica. Fazer análises completas, perceber carências, marcadores, hormonas, inflamação, o que está desregulado e o que precisa de ser acompanhado com rigor. Durante muito tempo vivi entre a intuição, a sobrevivência e o remendo. Agora quero também dados, contexto clínico e uma leitura mais inteira do que se passa em mim.
Outra mudança importante foi perceber que eu já não precisava apenas de falar sobre o que vivi, precisava de trabalhar com um corpo que ainda o está a viver. Por isso, mudei de psicóloga e procurei uma abordagem somática. Porque há coisas que a mente entende, mas que o sistema nervoso só transforma quando as consegue sentir de outra forma.
Também tenho hoje um plano de suplementos pensado com mais consciência, mas no seu lugar certo. Não como salvação rápida. Não como tentativa de empilhar soluções num corpo ainda em modo sobrevivência. Primeiro quero ver a base, compreender a parte médica, estabilizar terreno. Depois sim, apoiar o organismo com mais precisão e menos ruído.
E talvez a mudança mais importante seja esta: estou a aprender a deixar de me tratar como um problema para resolver e a começar a tratar-me como um sistema a recuperar. Isso muda a pressa. Muda a culpa. Muda a violência com que, durante anos, tentei obrigar-me a ficar bem.
Não tenho uma cura instantânea, nem uma fórmula perfeita. Tenho, isso sim, uma tomada de consciência que me reorganizou por dentro. E um plano mais claro, mais inteiro e mais verdadeiro. Quero resgatar-me.
Se antes eu tentava otimizar-me, agora quero estabilizar-me.
E, para já, isso já não me parece pouco. Parece-me o começo de tudo.
Nota editorial
Este texto não substitui avaliação clínica. Se estás em sofrimento persistente, procura apoio profissional qualificado.
