Dormir bem não é “só” importante para ter energia no dia seguinte. Para quem treina o sono é literalmente o momento em que o corpo transforma esforço em progresso. Sem noites bem dormidas, o treino fica a meio caminho: há mais fadiga, mais fome, mais risco de lesão e menos resultados.
Na DoBem, quisemos olhar para o sono com a mesma seriedade com que olhamos para o plano de treinos. Para isso, pedimos à especialista em sono e exercício, Sofia Rebocho, que explicasse, de forma clara, o que acontece ao corpo enquanto dormimos, e porque é que o sono deve ser encarado como parte do treino – e não como um extra opcional.
O que acontece ao corpo durante o sono após um treino intenso
Depois de um treino intenso o corpo precisa de recuperar do esforço e é durante o sono que essa recuperação realmente acontece. Durante o descanso noturno o organismo entra num estado de regeneração profunda em que as fibras musculares danificadas são reparadas, as reservas energéticas são repostas e os tecidos se adaptam ao estímulo do exercício. O sistema nervoso simpático, responsável pela resposta de alerta e de esforço, desacelera, dando lugar à atividade do sistema parassimpático, que promove o relaxamento, a reposição e a cura. A temperatura corporal e a frequência cardíaca diminuem, o que cria as condições ideais para a regeneração celular. Ao mesmo tempo, o cérebro consolida aprendizagens motoras e memórias, reforçando a coordenação e a técnica. Por isso, dormir bem não é apenas importante para a recuperação muscular, mas também para consolidar a performance. O sono é o momento em que o treino se transforma em adaptação e progresso.
O papel da hormona de crescimento
A hormona de crescimento é uma das protagonistas da recuperação. É libertada maioritariamente durante a fase de sono profundo e estima-se que cerca de setenta por cento da secreção diária desta hormona aconteça durante o sono. É nesta fase que o corpo ativa mecanismos de síntese proteica, transporta aminoácidos para as células e repara as microlesões musculares provocadas pelo treino. A hormona de crescimento também estimula a utilização de gordura como fonte de energia e contribui para o fortalecimento dos ossos e dos tecidos. O seu efeito anabólico faz com que o corpo se reconstrua e se torne mais forte a cada noite bem dormida. Quando esta fase é interrompida ou insuficiente a recuperação muscular é incompleta e o rendimento no treino seguinte tende a diminuir.
O que acontece às hormonas leptina, grelina e cortisol quando há privação de sono
A privação de sono provoca um verdadeiro desequilíbrio hormonal. A leptina, hormona produzida pelo tecido adiposo e responsável por sinalizar a saciedade, diminui. A grelina, produzida no estômago e responsável por estimular o apetite, aumenta. Esta combinação faz com que o cérebro receba sinais contraditórios, aumentando a fome e reduzindo a sensação de saciedade. Ao mesmo tempo o cortisol, a hormona do stress, fica elevado, especialmente de manhã e à noite, o que favorece o catabolismo muscular e a acumulação de gordura na região abdominal. Estes efeitos combinados aumentam o risco de ganho de peso, dificultam o controlo da alimentação e prejudicam a recuperação após o treino. Além disso, o sono insuficiente reduz a sensibilidade à insulina, comprometendo a forma como o corpo utiliza a glicose e contribuindo para um metabolismo menos eficiente.
Dormir pouco aumenta a fome e reduz a queima de gordura
Vários estudos mostram que dormir menos de sete horas por noite está associado a um maior índice de massa corporal e a uma maior propensão para o ganho de peso. Quando o sono é curto o corpo tende a procurar mais energia através da comida, principalmente de alimentos ricos em açúcar e gordura.
Ao mesmo tempo o metabolismo abranda, a capacidade de queimar gordura diminui e o equilíbrio entre massa magra e gordura corporal fica comprometido. O défice de sono interfere com a libertação da hormona de crescimento e aumenta o cortisol, dois fatores que favorecem a perda de músculo e a acumulação de gordura. Por isso, dormir bem é uma estratégia essencial tanto para a recuperação como para o emagrecimento. O sono atua como um regulador natural do apetite, do gasto energético e da composição corporal.
Recomendações e mindset: o sono como parte do treino e o papel das sestas
Para quem treina o sono deve ser encarado como parte integrante do plano de treino. Não é um complemento, é o próprio processo de recuperação que transforma esforço em resultados. Estabelecer horários regulares de deitar e acordar ajuda o corpo a manter um ritmo circadiano estável. Evitar treinos muito intensos ou refeições pesadas nas horas que antecedem o sono favorece a qualidade do descanso. O quarto deve estar escuro, silencioso e com uma temperatura amena, e o uso de ecrãs deve ser limitado antes de dormir. Também é importante moderar o consumo de cafeína e álcool, pois interferem na profundidade do sono. Para atletas e praticantes regulares de exercício, as sestas podem ser um excelente recurso. Uma sesta curta de vinte a trinta minutos durante o dia ajuda a recuperar energia, melhora a concentração, reduz a fadiga e facilita a consolidação de aprendizagens motoras, sobretudo quando o treino é realizado em dois períodos diários. A mentalidade certa é compreender que o treino termina apenas quando o corpo entra em repouso. Dormir é a última etapa do treino, é o momento em que a força é construída, o metabolismo se equilibra e o corpo se prepara para evoluir. Quem aprende a valorizar o sono treina melhor, recupera mais rápido e progride de forma sustentável.
Quando percebemos o que acontece ao corpo enquanto dorme, fica quase impossível continuar a tratar o sono como um detalhe. Para quem treina, cada noite bem dormida é um “treino invisível” de recuperação hormonal, reparação muscular, regulação do apetite e equilíbrio do metabolismo.
Valorizar o sono é uma forma de respeitar o corpo e o trabalho que fazes durante o dia. Não é preguiça, é estratégia. Se cuidas do plano de treinos, da alimentação e do equipamento, cuidar do sono é o passo que falta para que tudo isto se traduza em performance, saúde e bem-estar a longo prazo.
Sofia Rebocho
Cardiopneumologia e Somnologista
Instagram: O teu mal é sono

