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Planar. A coleção da Buzina lançada em plena pandemia que utiliza excedentes de outras coleções

Os tecidos que estavam guardados em armazém ganharam uma nova vida e fizeram nascer a nova coleção da Buzina, que em tempos de incerteza se recusou a ser vencida pelo medo.

Vera Fernandes nunca vai esquecer a tarde de 7 de março de 2020, dia em que, pela primeira vez, apresentou uma coleção da sua marca, a Buzina, na ModaLisboa. A marca, criada quatro anos antes, via agora as suas peças a desfilarem numa passerelle, poucos dias antes de ser decretado, pela primeira vez, o Estado de Emergência em Portugal. 

“Acho que vou guardar essa edição da ModaLisboa para sempre”, revela em entrevista à dobem. “Foi a primeira edição que fiz e é como o dia do nosso casamento, fica sempre um registo incrível. Mas também me recordo do medo das pessoas.”

O medo a que se refere era de uma pandemia que, apenas alguns dias antes, a 2 de março, tinha chegado a Portugal. Naquele mesmo sábado, o jornal “Público” escrevia que tinham sido confirmados 25 casos de infeção pelo vírus da COVID-19 em Portugal, sendo que, desses, dez deles estavam ligados à mesma pessoa. Os 25 casos rapidamente se transformaram em centenas, obrigando o País a, dez dias depois, entrar em Estado de Emergência. 

Apesar de a pandemia e do Estado de Emergência, Vera Fernandes continuava focada na sua marca e no sucesso do seu desfile, que tinha inclusive contando com a participação especial da apresentadora Carina Caldeira. Poucos dias depois, recorda, a designer foi convidada para ir à televisão falar sobre a sua mais recente coleção e, ao chegar, o ambiente com que se deparou era totalmente oposto aquilo que esperava. 

“Esperava que fosse quase como uma festa, mas estava um clima de muita tensão”, conta Vera. “Quando vim para casa, já estava tudo a fechar e, nessa mesma semana, o País parou.”

O País parou, mas Vera não tinha intenção de baixar os braços. Tinha passado por um dos maiores sucessos que alguma vez tinha alcançado com o seu projeto, ao fim de quatro anos de trabalho, e estava longe de abdicar do sonho. “Entrei num processo de negação, e recusei-me a abrir mão do meu sucesso”, explica a fundadora da marca portuguesa. Poucos meses depois, e em pleno confinamento, fez uma nova campanha, “Sentir”, pensada em conjunto com a stylist Tânia Dioespirro, que contou com a presença de várias influenciadoras digitais que, cada uma em sua casa, se fotografou com uma peça da marca. 

Com o passar do tempo, e mesmo depois de ter voltado a apresentar uma coleção na ModaLisboa em outubro de 2020 — desta vez, já sem público —, Vera Fernandes continuou sem baixar os braços. Estar parada, explica à dobem., não era uma opção. Não só por si, mas também para mostrar que, apesar das circunstâncias, a Buzina não tinha estagnado. 

“Não íamos estar quietos, é contra a minha pessoa estar quieta”, começa por dizer à dobem. “Esta foi a maneira que encontrei para as pessoas perceberem que estamos cá, não estamos parados. E não é querer ser mais do que os outros, mas sim mostrar que também nós estamos a fazer o mesmo que todos os outros: a tentar mantermo-nos à tona, a planar.”

Foi assim que, em fevereiro de 2020, Vera Fernandes apresentou a Planar, a sua mais recente coleção de peças que, como explica à dobem., utilizam tecidos que já tinha há algum tempo no seu armazém mas que, até agora, nunca tinham sido utilizados para nenhuma coleção. Um deles, revela, foi pensado para fazer umas peças que deveriam ter sido apresentadas na ModaLisboa mas que, à medida que a coleção foi sendo desenvolvida, acabou por não ser utilizado. Esse mesmo tecido transformou-se agora num top, num vestido e nuns calções.

Outro dos motivos que a levou a continuar a criar novas coleções foi o facto de, atualmente, ter uma equipa que depende de si. A marca conta hoje com uma modelista e quatro costureiras que, diz Vera à dobem., todos os dias perguntam se têm trabalho porque, também elas, vivem nessa incerteza. 

É como se estivéssemos num avião e estamos à espera de autorização para aterrar, enquanto nos tentamos manter no ar”, diz a fundadora da marca portuguesa. 

As peças da nova coleção são de edição limitada e, à exceção do blazer, ainda estão todas disponíveis no site da Buzina. Conheça-as na fotogaleria. 

Como a Buzina se tornou numa marca sustentável, sem querer

Quando falamos em Buzina, sabemos que estamos a falar, obviamente, numa marca portuguesa, mas também num projeto com um lado sustentável. No entanto, Vera Fernandes revela à dobem. que a veia sustentável da Buzina surgiu por um mero acaso. 

“Se calhar podemos falar numa sustentabilidade por consequência”, explica. “Eu tinha uma marca pequena e, como estou num meio muito têxtil, para ter tecido optei por recorrer a empresas e servia-me do stock que elas tinham. Era com esse tecido que trabalhava, e fazia todo o sentido manter esta política de fazer peças incríveis com excedentes.”

No fundo, a Buzina trabalha, então, com tecidos que, de outra forma, seriam apenas deadstock, isto é, material desperdiçado. A fundadora da marca conta à dobem. que, desde o início do projeto, em 2016, produziu apenas um único estampado, sendo que todas as outras coleções foram feitas com excedentes. 

É por isso que é comum encontrar alguns materiais em peças da Buzina que não se encontram noutras marcas. Um deles é a seda natural, um tecido muito usado nos anos 80 e que, atualmente, já não é produzido, mas de que Vera continua a gostar de usar e, garante, está na moda e voltará a estar. 

“A moda é cíclica, e há tecidos que são mais procurados num momento do que outros. Nos anos 80 a seda era muito usada, era quase um requisito, mas a verdade é que agora já não é produzida como era, e é um material extremamente caro mas que, como não está a ser usada, consigo comprá-la a um preço bem mais apelativo”, explica à dobem. “Não quer dizer que daqui a duas coleções não volte a ser usada novamente, mas são materiais que ficam esquecidos e que vamos recuperar.”

O facto de utilizar tecidos que, de outra forma, seriam apenas excedentes, não é uma novidade para a designer. Vera Fernandes sempre viveu no concelho de Famalicão, uma zona muito ligada ao têxtil onde não era difícil encontrar uma confeção, mesmo que de pequena escala. A sua própria família sempre esteve ligada a este ramo e a avó, com quem cresceu, era modelista, um gosto que foi passando para a neta ao longo dos anos, e que lhe ficou enraizado. 

Desde que se lembra que Vera sempre cresceu, como diz à dobem., “no meio dos trapos, a enroscar-me neles”, enquanto via a avó a costurar. Era também a avó que lhe fazia várias peças de roupa, quase todas as semanas. Essas mesmas peças, conta, eram também elas feitas com excedentes que sobravam do trabalho que a avó fazia para outras pessoas. A designer acabou por aprender muito com a família e, apesar de ter estudado na área da Psicologia, o amor pela moda acabou por falar mais alto. 

“A nossa infância faz de nós o que somos”, diz a designer. “Quando comecei nesta área não era completamente leiga, já tinha algum conhecimento e apelava ao meu gosto pessoal, isso sempre me foi sendo incutido ao longo da vida. É como quando crescemos num contexto com muitas crianças, quando temos um filho, mudar uma fralda não vai ser atípico. Foi um bocadinho isso que senti. Não sabia muito a nível de técnica, mas conhecia os termos que a minha avó usava e sabia usar o meu gosto pessoal para criar o que queria.”

A marca foi crescendo com o passar do tempo e, depois de ter estado em duas edições edições da ModaLisboa, Vera Fernandes prepara-se agora para apresentar as suas propostas para o próximo outono/inverno na mesma plataforma. As apresentações que, desta vez, serão totalmente digitais, acontecem entre os dias 15 e 18 de abril, e podem ser vistas através do site oficial da ModaLisboa.