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Saúde

Teletrabalho. Psicóloga explica a importância das rotinas para a saúde mental

São cada vez mais as pessoas que, durante o isolamento, trabalham mais horas do que é suposto. O principal motivo? A falta de organização no trabalho, que acaba por gerar stresse e ansiedade.

Existem vários tipos de pessoas no teletrabalho, mas podemos dividi-los, essencialmente, em dois grupos. Por um lado, os que criam rotinas onde metem o despertador para bem cedo, começam o dia a fazer um treino ou uma meditação, tomam o pequeno-almoço e sentam-se a trabalhar tal como se estivessem no escritório, por outro, os que saltam da cama diretamente para a secretária, enquanto rezam para que ninguém se lembre de marcar uma reunião por Zoom. 

Na equipa da dobem. fazemos, quase todos os dias, parte do primeiro grupo. Tentamos ser o mais organizados possível, estruturar os nossos dias para que tudo corra como planeado e alguns de nós até têm uma agenda onde vão marcando o que já fizeram e têm por fazer. Mas, e tal como dissemos acima, isto acontece quase todos os dias, porque há exceções à regra, mas são essas as exceções que devemos evitar até porque, em tempos de pandemia e de teletrabalho, manter uma rotina diária é essencial não só para a nossa saúde mental mas também para a produtividade, tal como explica a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva

“As rotinas permitem criar uma cadência nos nossos dias, gerando uma sensação de segurança e previsibilidade, e optimizando a nossa produtividade”, explica a especialista, acrescentando que, fazendo este planeamento, é mais simples definir prioridades no dia a dia, evitando que desviemos a nossa atenção para outras coisas. “Se não planearmos, acabamos sempre por ir muito à deriva e a dar resposta consoante as solicitações que nos vão surgindo e de que nos lembramos.”

Estas solicitações de que Filipa Jardim da Silva fala, que podem ser tanto pessoais como profissionais, são muitas vezes as principais responsáveis pelas quebras na rotina que muitas vezes tentamos estipular. Quantas e quantas vezes não marcámos uma reunião que devia durar apenas uma hora e que, no final, acabou por durar o dobro do tempo? 

São estes pequenos desvios que acabam por levar várias pessoas a trabalharem muito além do horário que têm estabelecido. De acordo com um estudo das Universidades de Harvard e Nova Iorque, divulgado em julho de 2020, durante o isolamento, a maioria dos profissionais está a trabalhar, em média, mais 48 minutos por dia além do seu horário laboral. E tudo isto, explica a especialista, acontece devido à falta de rotinas e de planeamento. 

“O espaço pessoal está a ser invadido, e muitas vezes o que permite isso é a ausência de rotinas e planeamento”, garante a psicóloga à dobem. “Tenho ouvido muitos comentários de pessoas que almoçam em vinte minutos para voltarem a trabalhar, e não tem de ser assim. Não é por estarmos em casa que não devemos fazer pausa para hora de almoço”

A importância das rotinas para a saúde mental

Para Filipa Jardim da Silva, a falta de rotina e organização dos dias de trabalho, acaba por ser a principal responsável por criar imprevisibilidade e instabilidade nas nossas vidas, o que acaba por também ter influência na nossa saúde mental. Quando começamos a perceber que temos tantas tarefas para realizar que nem sabemos bem por onde começar, acabamos por ficar mais stressados e ansiosos, o que pode mesmo condicionar a nossa capacidade para desempenhar uma determinada função. 

“Ao promovermos instabilidade e imprevisibilidade, estamos a dificultar a nossa gestão diária e a capacidade de priorizar o que é realmente impactante”, diz a especialista. “Isso, a médio ou longo prazo, terá um impacto negativo nos nossos níveis de ansiedade e até em vários sistemas fisiológicos que apreciam a manutenção de rotinas.”

Muito além de mexer com o stresse e com a ansiedade, a falta de uma rotina de teletrabalho organizada acaba também por ter impacto na vida pessoal de cada pessoa. O espaço de trabalho mistura-se com o pessoal, e o simples facto de não haver um horário definido para começar e terminar o trabalho acaba por quebrar com o tempo que temos para fazer outras coisas de que gostamos.

“Ao final do dia, acabamos por perceber que não fizemos nada por nós, porque foram surgindo outras coisas profissionais e o tempo para nós próprios foi ficando esmagado”, diz Filipa Jardim da Silva. “As rotinas facilitam a priorização do autocuidado e permitem-nos ter tempo para meditar de manhã, para fazer uma pausa à hora de almoço e ouvir uma canção relaxante ou para parar e ler um livro durante dez minutos à noite.”

O problema da procrastinação

E se há quem trabalhe muito mais horas do que é suposto, há também quem faça exatamente o contrário e acabe por procrastinar muito mais quando está em casa. É certo que em casa conseguimos economizar algum tempo nas viagens de e para o trabalho, o que até nos pode permitir algum tempo extra para relaxar, mas isso não quer dizer que o trabalho deva ser adiado.

As rotinas, garante Filipa Jardim da Silva, ajudam a isso mesmo. Ao criar uma rotina em torno do trabalho, vai sentir-se mais motivado a fazê-lo, evitando adiar tarefas sistematicamente.

Quando mantemos alguns hábitos de forma regular o nosso nível de esforço implicado diariamente é menor, uma vez que se tratam de um conjunto de comportamentos enraizados, pelo que já não há nada a decidir nem há muita motivação a ser cativada“, explica a especialista. “Isso dá estrutura aos nossos dias, reduzindo os níveis de procrastinação e apoiando na priorização do que realmente é impactante. Desta forma, sentimo-nos mais tranquilos e confiantes”

E quando há quebras nas rotinas?

Todos temos momentos em que queremos quebrar rotinas, e quando falamos em quebra, falamos tanto a nível de trabalho como pessoal. Há dias em que não nos apetece treinar de manhã, da mesma forma que também nem sempre temos vontade de passar uma hora a organizar — e por vezes, até, a responder — às dezenas de e-mails que nos foram caindo ao longo do dia na caixa de entrada.

Estes tipos de situações podem acontecer, e até há alguma margem para isso. Para Filipa Jardim da Silva, estes momentos até são saudáveis para manter o equilíbrio e o dinamismo nas nossas vidas. Contudo, as quebras na rotina devem ser a exceção, e não a regra, de maneira a não entrar num círculo vicioso.

Mas, e se isso acontecer, é possível retomar os hábitos que tínhamos estabelecido? A psicóloga garante que sim, desde que passemos das palavras à ação.

“Se queremos voltar a cultivar uma determinada rotina há que executá-la mais do que falar sobre ela”, aconselha a especialista. “É da repetição que surgirá a reinstalação de um hábito ou a quebra de um comportamento que não nos serve. Podemos apoiar-nos criando gatilhos que favoreçam a realização das rotinas que priorizamos bem como recompensando-nos quando somos bem sucedidos. É este ritual repetido de gatilho-acção-recompensa que permite a instalação das rotinas pretendidas.”