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Saúde

Sestas durante o trabalho. Como é que dormir durante 20 minutos nos torna mais produtivos?

Gigantes como a Google, a Nike ou a Uber têm espaços próprios para os colaboradores dormirem a meio da tarde, e garantem que isso aumenta os níveis de produtividade. Uma especialista em sono explica como.

DOBEM.
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Há empresas em que muita a gente tem o sonho de um dia poder vir a trabalhar. Umas delas é a gigante Google, que apesar de ser uma das maiores empresas do mundo, tem até uma política bastante descontraída. É que além dos escorregas, das salas de jogos e do ginásio que pode ser usado a qualquer momento, a sede da empresa, na Califórnia, Estados Unidos, tem uma sala para onde os colaboradores podem fazer sestas durante o trabalho. 

A Google é apenas uma das empresas que incentivam os seus funcionários a fazerem uma pausa e a relaxarem durante o trabalho. O mesmo fazem a Nike, a Ben & Jerry’s, a Cisco ou a Uber. O objetivo? Manterem um bom ambiente no local de trabalho e aumentarem a produtividade de todos os seus funcionários. Mas também há quem o faça fora das grandes empresas, como é o caso de Cristiano Ronaldo. O futebolista português de 34 anos revelou em entrevistas recentes que faz, pelo menos, cinco sestas por dia, um conselho do especialista em sono Nick Littlehales, que Ronaldo consultou para o ajudar a melhorar as suas rotinas diárias. 

As sestas não são propriamente uma novidade, nem são propriamente um sinónimo de preguiça. Os espanhóis, por exemplo, fazem-no há várias décadas, e há inclusive várias zonas no País onde os estabelecimentos comerciais fecham das 14 às 17 horas para que os funcionários possam cumprir esta tradição. Tudo em prol não só da felicidade como do bem-estar do organismo, que tal como explica à dobem. Ana Correia, psicóloga clínica e especialista na área do sono. 

“Vários estudos têm comprovado que estas sestas rápidas têm efeitos muito bons no organismo”, começa por explicar a especialista. “As sestas rápidas podem dar um shot de energia muito grande ao corpo, especialmente se tivermos manhãs muito pesadas e intensas, porque nos permitem ter um momento de revitalização.”

Tal como explicou a especialista, existem várias investigações que confirmam o benefício das sestas a meio da tarde. Uma delas, publicada em setembro de 2019 pelo jornal “BMJ”, confirmou que quem dormia a sesta tinha menor risco de ter acidentes cardiovasculares. Isto porque, tal como garante Ana Correia, é graças a estes momentos que o organismo se consegue reequilibrar e recuperar dos esforços das horas anteriores. 

“[durante as sestas] o corpo reorganiza-se em termos químicos e consolida a informação da fase anterior do dia”, esclarece a psicóloga clínica. “É quase como um balão de oxigénio para determinadas áreas do nosso cérebro e, quando acordamos, sentimo-nos mais revitalizados. Além disso, há também uma melhoria no nosso sistema imunológico.”

As sestas não devem durar mais de meia hora

Foi em agosto de 2020 que um grupo de investigadores apresentou à Sociedade de Cardiologia da Europa um estudo onde se comprovava que as sestas com mais de uma hora poderiam aumentar as probabilidades de desenvolver doenças cardiovasculares e, por isso, provocar a morte prematura. 

Os especialistas olharam para 20 estudos anterior e analisaram ainda os dados médicos de mais de 313 mil pessoas. Entre os inquiridos, pelo menos 39% afirmaram fazer sestas regulares por mais de uma hora. Ana Correia explica à dobem. que este não é o comportamento mais indicado e que estas sestas devem durar, no máximo, meia hora. 

“Este sono rápido permite ser revitalizador porque não faz com que o corpo entre em estado de sono profundo”, diz a especialista. “Se entrasse nesse estado e acordássemos a meio de um ciclo do sono, porque o nosso sono vai sendo feito por ciclos, o que iria acontecer é que íamos acordar em modo ‘zombie’, isto é, moles, cansados, sem energia e com vontade de dormir mais.”

Um dos conselhos que Ana dá para evitar que isto aconteça é que se coloque um despertador por perto para garantir que não ultrapassa mesmo o tempo estipulado. E, garante, mesmo que não chegue a adormecer mesmo, este tempo de pausa já vai fazer algum efeito no organismo. 

“O simples facto de, como se costuma dizer, ‘passar pelas brasas’ já nos permite acordar com o acordar com os lados do cérebro responsáveis pela criatividade e pelo raciocínio mais despertos”, diz Ana Correia. 

Se pensarmos bem, será que não será este o momento ideal para fazer uma sesta a meio do dia? Com a atual situação pandémica, grande parte das empresas estão em teletrabalho, e na maioria dos escritórios em Portugal não existem as condições ideais para fazer uma pausa de 20 ou 30 minutos para, nas palavras de Ana Correia, “passar pelas brasas”, em casa tudo se torna mais simples. E não somos os únicos a pensar nisto. Segundo o jornal britânico “The Guardian”, um inquérito a mais de 2 mil pessoas nos Estados Unidos concluiu que mais de 33% pessoas faziam sestas a meio do dia. 

A sesta não deve substituir uma boa noite de sono

Há duas grandes preocupações quando falamos em fazer sestas a meio do dia. Uma delas é a dificuldade em adormecer, o que pode comprometer o tal descanso rápido que uma sesta rápida pressupõe. Em relação a isso, Ana Correia esclarece que, por norma, o corpo começa a dar alguns sinais de que precisa de descanso a meio do dia. 

“Ao início da tarde, entre seis a oito horas depois de nos levantarmos, o nosso corpo tem algumas alterações orgânicas que podem promover a sesta”, diz a psicóloga clínica. “A nossa temperatura altera-se, a melatonina, que é a hormona que nos permite dormir, também se altera, e conjugam-se alguns elementos que nos permitem adormecer mais facilmente.”

Além disso, a especialista diz que é importante que também estejam reunidas algumas condições para que consigamos descansar tranquilamente. Encontrar um espaço calmo e onde saiba que não vai haver interrupções, escolher uma zona mais escura ou, não sendo possível, utilizar uma venda nos olhos e estar numa posição confortável são essenciais. Pode também tirar a gravata, descalçar os sapatos e arranjar uma posição confortável e, muito importante, reduzir todas as distrações, desligando as notificações do telemóvel e de outros aparelhos eletrónicos durante este momento. 

Uma das coisas que alguns especialistas também aconselham, diz Ana Correia, é que se beba uma chávena de café antes da sesta. Estranho e contraditório? Nem por isso. 

“Parece contra intuitivo, mas quando o café entra em circulação de forma mais significativa no organismo é quando estamos a acordar da sesta”, diz a psicóloga. “Portanto, permitimos que o corpo e o cérebro descansem nesse intervalo, e quando a cafeína está a entrar em circulação, é quando estamos a acordar, e conseguimos conjugar e potenciar esse despertar.”

Outra das grandes questões é se a sesta pode ou não afetar o sono à noite, e a realidade é que é importante esclarecer que, à partida, quem já tem dificuldades em adormecer deve evitar fazer sestas. “Quem tem insónias clinicamente diagnosticadas ou situações de depressão não deve fazer sestas”, aconselha Ana Correia. 

Nos restantes casos, a especialista na área do sono garante que o mais importante é acompanhar o funcionamento orgânico do corpo. É que se, por um lado, há pessoas que tem mais energia de manhã e, por isso, faz todo o sentido fazerem uma sesta a meio da tarde, por outro, quem leva uma vida mais noctívaga pode haver a necessidade de fazer um ajuste a esse horário e passar a sesta para o final da tarde, por exemplo. 

“Há pessoas que estão acordadas durante a noite biologicamente, isto é, o seu corpo pede-lhes isso, mas se têm de se levantar de manhã para ir trabalhar, isto coloca estas pessoas num risco muito grande de sobrecarga, de burnout, de ansiedade, porque o corpo está a funcionar ao contrário do ritmo clássico de dia a dia”, diz a especialista. “Mas, se houver esta possibilidade de conjugar com o ritmo orgânico, então para estas pessoas se a sesta for feita entre as 17 e as 18 horas, esse shot de energia pode ser fundamental para a noite ser mais produtiva.”

Apesar de as sestas trazerem vários benefícios, Ana Correia ressalta ainda um ponto fundamental, e que nunca deve ser esquecido: as sestas não vão substituir uma boa noite de sono. 

“Esta sesta terá muito mais impacto se cuidarmos das nossas práticas de sono no geral”, continua. “Tudo isto fará mais sentido se, no dia a dia, tivermos cuidado com as nossas práticas de sono e de descanso da noite. A sesta pode funcionar num sentido preventivo, mas dá-nos um shot de energia muito maior se o sono durante a noite tiver qualidade, e não se for uma sesta que, de certa forma, nos vai deixar mais ‘gulosos’ de sono, e com vontade de dormir mais.”

Para Ana Correia, o corpo deve efetivamente mostrar sinais de que precisa de parar e de relaxar durante aquele tempo. Se não o fizer e, pelo contrário, se isso estiver a prejudicar as noites de sono, momento em que o corpo efetivamente se regenera na totalidade, o melhor será evitá-las até conseguir ter uma boa rotina noturna.