dormir e privação de sono

Saúde

Privação de sono. O que acontece ao corpo quando não dormimos?

Acorda cansado, com falta de concentração e dormiu menos horas do que as recomendadas? No Dia Mundial da Saúde, um especialista explica este fenómeno e os seus efeitos no organismo.

Quem foi mãe sabe o que é sofrer com privação de sono, especialmente nos primeiros meses de vida de um bebé. Acordam várias vezes por noite, passam por fases em que não dormem, de todo, e nem sequer vamos falar naqueles momentos em que são atingidos pelas cólicas. Claro que, quem não tem filhos, também pode ter noites sem dormir e sofrer deste problema, até porque, sejamos sinceros, quem nunca teve uma daquelas insónias bem fortes que o fez passar uma ou várias noites em claro?

É nestes dias que colocamos o despertador e percebemos que, apesar de indicar que íamos dormir sete ou oito horas, na verdade, as horas de sono foram muito menos do que as recomendadas. E a realidade é que, no dia seguinte, sentimos logo a diferença no corpo. Estamos mais cansados, física e mentalmente, temos menor capacidade de concentração, dificuldade em articular pensamentos e até tendemos a ficar mais irritadiços. A isto, chama-se privação de sono. Mas em que consiste exatamente e que efeitos é que tem no corpo? No dia em que se celebra o Dia Mundial da Saúde, foi isso mesmo que a dobem. foi perceber junto de um especialista na área do sono.

O que é a privação de sono?

Apesar de já conhecermos produtos que ajudam a melhorar o sono e sabermos que ver televisão antes de ir dormir não é o ideal, será que sabemos realmente o que é a privação de sono?

Tal como explica Tiago Sá, Pneumologista, especialista em Medicina do Sono e Diretor Clínico da Sleeplab à dobem., este fenómeno acontece quando uma pessoa dorme menos horas do que aquelas que são recomendadas sendo que esse número varia consoante a idade.

Se, por um lado, os bebés dormem mais de dez horas, em idade adulta, as horas recomendadas são entre sete a nove horas de sono, tal como confirma a Sleep Foundation. Contudo, este valor não tem de ser uma regra seguida à risca por toda a gente. Estes números são uma referência para a grande maioria da população, mas cada pessoa pode, e deve, adaptar as horas de sono por noite ao seu estilo de vida.

Existem casos de pessoas que dormem apenas cinco horas — ou menos — por noite e que se sentem bem, sem qualquer sintoma de privação de sono. Se pensa que o seu caso é semelhante, é importante que esteja atento aos sinais que o corpo lhe dá na manhã seguinte. Se acordar a sentir cansaço, com dificuldade em concentrar-se e com uma menor produtividade, muito provavelmente está em privação de sono. Contudo, se isto não acontecer, então o seu corpo conseguiu ter um sono reparador e regenerador.

Por outro lado, também facilmente, consegue perceber se a sua noite foi boa, “quem dorme tempo suficiente e com qualidade suficiente é quem acorda de manhã com a sensação de que o sono foi reparador, completamente restaurado com energia, com boa disposição,” acrescenta o especialista.

Porém, há quem durma as horas pretendidas mas que acorde várias vezes ao longo da noite e depois volte a dormir. Neste caso específico, não estamos em privação de sono, mas sim a falar da interrupção do sono. O sono deixa de ser tão reparador — embora cumpra com as horas recomendadas — pois estamos a interrompê-lo nas diferentes fases. Numa noite de sono passamos por quatro a seis ciclos do sono, compostos por diferentes fases do sono, do mais superficial ao mais profundo, que permite ao corpo regenerar-se.

Ora, ao acordarmos várias vezes durante a noite e depois retomarmos o sono, estaremos sempre a recomeçar o processo, o que faz com que o tempo total de descanso do nosso corpo, não seja suficiente. Uma noite de sono agitada pode aumentar o nosso nível de stresse e também faz com que o nosso cérebro nunca pare totalmente.

Tipo de privação de sono e tratamentos

Existem dois tipos de privação de sono: a aguda, onde se dorme pouco de uma noite para a outra por qualquer motivo, ou crónica, onde se dorme pouco regularmente ou durante os dias da semana.

Quer se sofra de privação de sono agua ou crónica, porque tem dificuldade em fazer uma noite de sono completa, em adormecer, ou simplesmente porque acorda mais cedo do que é suposto e não consegue voltar a dormir, o importante é que saiba que “existem diversos distúrbios do sono que podem estar na base destas queixas, e alguém que tem estas queixas deve procurar uma consulta especializada, para poder diagnosticar qual o distúrbio de sono que está a justifica-las e tratá-lo, e há tratamento para muitos dos distúrbios de sono que existem”, explica Tiago Sá,

Quais os efeitos deste fenómeno?

A privação de sono tem sempre impacto, seja em que idade for. É por isso que em tantos filmes e séries de televisão onde são retratadas cenas de tortura, uma das que é apresentada mais frequentemente é precisamente a privação de sono. Mas que impacto é este, exatamente?

Tiago Sá explica que a privação de sono pode ter várias consequências tanto a nível mental, como físico. Pode afetar os órgãos e vários sistema do nosso corpo, aumentar a sonolência, o cansaço, a dificuldade de concentração e atenção, um aumento no tempo de reação e, por consequência, uma maior propensão a acidentes, sejam eles de viação ou laborais, por exemplo.

A longo prazo, pode ainda “aumentar o risco de diversas patologias, nomeadamente do sistema imunitário, autoimunes, e até aumentar o risco de doenças oncológicas e cardiovasculares.”

Por fim, segundo o pneumologista, o sono “acaba por ser a última tarefa do dia, e não a ausência de tarefa. Na verdade, todos os órgãos precisam daquelas horas de sono para a sua reparação celular e para o seu equilíbrio, e se nós deixarmos de dar essa oportunidade ao nosso corpo, vamos sofrer as consequências.” É, por isso, importante estarmos atentos aos sinais do nosso corpo e fazermos as horas de que ele precisa para o devido repouso.