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Saúde

“Não é uma corrida de cem metros, mas uma maratona”. Como preservar a saúde mental no confinamento

Do estado de alerta à incerteza do pós-pandemia, uma psicóloga clínica dá estratégias para enfrentar os próximos meses.

DOBEM.
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Numa das emissões de janeiro de “Como é que o Bicho Mexe”, o live de Instagram que Bruno Nogueira começou no início do primeiro confinamento e que voltou a ter emissões regulares nesta segunda vaga, uma portuguesa que está a morar na Nova Zelândia entrou no direto enquanto passeava pelas ruas da sua cidade. Nas imagens que Cláudia ia mostrando viam-se várias pessoas a andar numa marina, sem máscaras, sem distanciamento social, e outras sentadas em esplanadas a almoçar. 

Foram várias as pessoas a reagir aquele cenário, e até o próprio humorista chegou a dizer que estava emocionado, já que aquela parecia uma realidade completamente alternativa, e tão diferente daquela que temos vindo a viver no último ano. E se durante o primeiro confinamento o medo do desconhecido e o pânico de um vírus sobre o qual pouco se sabia dominava a nossa mente, neste segundo momento de isolamento as coisas são bem diferentes. 

O medo e o estado de alerta continuam bem presentes nas nossas vidas, até porque o impacto da pandemia tem vindo a intensificar-se. Mas se no início de 2020 tínhamos muito mais energia, neste momento grande parte das pessoas sente-se mais letárgica, inerte, e sem grande vontade de fazer coisas tão simples como sair da cama, cozinhar ou até mesmo treinar. O motivo, explica a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva, chama-se fadiga pandémica. 

“Em março do ano passado houve uma comunicação que ativou muito o pânico nas pessoas e isso faz com que o nosso corpo, quimicamente, esteja à base de cortisol e adrenalina, duas hormonas que nos dão energia”, esclarece a especialista à dobem. “Neste momento, temos este fenómeno de fadiga pandémica, isto é, uma fadiga que assenta num cansaço extremo, por já estarmos a viver neste estado há quase um ano. Um estado de restrições constantes à nossa liberdade, que nos dá um grande desafeto pela continuidade e persistência da situação. E isso vai provocando este cansaço.”

Este fenómeno de fadiga pandémica acontece mesmo depois de alguns meses onde, de uma certa forma, fomos tendo alguma liberdade de circulação. Apesar de o número de casos continuar a subir, o verão de 2020 foi mais aligeirado em termos de restrições, que voltaram a surgir em força com o aproximar do inverno. Nessa altura, os novos casos começaram rapidamente a subir, até chegarmos a valores como os confirmados esta quarta-feira, 28 de janeiro: mais 16,432 casos de infeção em apenas 24 horas, e 303 óbitos. 

Números como estes juntam-se ao facto de, diariamente, chegarem até nós notícias que nos fazem estar no tal constante estado de alerta que, segundo a especialista, ao fim de quase um ano, provocam um sentimento de cansaço e exaustão. “Todos os dias quando, mesmo de uma forma controlada, vamos ligar as notícias, estamos sempre com aquele sentido de alerta de saber quantos casos houve, como estão os hospitais, se ainda há vagas nos cuidados intensivos ou quantos óbitos foram registados”, acrescenta. 

Esse constante estado de preocupação estende-se não só às preocupações com o próprio avanço da pandemia, mas também com o impacto que ela possa ter na nossa vida. Depois de um primeiro confinamento onde várias empresas das mais diversas áreas sofreram as consequências que a COVID-19 deixou a nível económico, com o segundo estamos cada vez mais preocupados com o que poderá acontecer no futuro, com empresas a não conseguirem suportar este impacto, acabando por ter de fechar portas.

Por outro lado, existe também um nível de sobrecarga de adaptação a uma realidade que parece estar em constante mudança, à qual o nosso corpo começa a não se conseguir acostumar. “Agora estamos em casa, de repente já podemos sair, depois os miúdos podem ir à escola, mas a seguir voltam para casa”, exemplifica a psicóloga clínica. “Todas as pessoas se vão adaptando permanentemente, e isso cansa passados dez ou 11 meses.”

No entanto, Filipa Jardim da Silva vai ainda mais longe e explica à dobem. que, na sua perspetiva, o mês de dezembro teve um grande impacto para aquilo que estamos a sentir neste segundo confinamento. A psicóloga explica que o facto de as restrições terem sido aligeiradas na altura do Natal pode ter levado a que baixássemos os níveis de alerta, criando uma sensação ilusória de entusiasmo de que tudo estava bem quando, na verdade, não estava.

“Muito embora o enquadramento não fosse positivo, a comunicação e as medidas que foram anunciadas seguiram uma direção muito positiva, e eu diria ilusoriamente positiva”, diz a especialista. “Saíamos à rua e víamos isso com a quantidade de pessoas a jantarem fora, a fazerem compras nos shoppings ou em lojas de rua, havia entusiasmo, e, a meu ver, a comunicação permitiu esse entusiasmo acrescido. Depois, o que aconteceu a seguir foi uma polarização na direção contrária no início de janeiro, e isso cansa.”

O medo de um vírus que parece cada vez mais próximo

Em março, abril e maio, altura do primeiro confinamento, sempre que ouvíamos falar em alguém que tinha sido infetado pelo novo coronavírus, parecia que era uma coisa muito distante. Um primo afastado, um vizinho da avó, o marido de uma ex-colega de trabalho. Mas, com o aumentar do número de casos, essa realidade foi mudando. 

Hoje, a sensação que temos é de que o círculo de pessoas à nossa volta que já tiveram COVID-19 ou estiveram em contacto com alguém infetado está a aumentar. Há um — ou vários — colegas na empresa que já tiveram, um amigo ou até mesmo m família próximo que já teve, ou está infetado, com o novo coronavírus. 

“Neste momento, há esta sensação de proximidade acrescida”, diz Filipa Jardim da Silva, que explica que este sentimento não se refere só ao facto de conhecermos pessoas que já estiveram infetadas, mas também de, cada vez mais, cada um de nós já conhecer alguém que não tenha resistido ao vírus. “Há uma proximidade também da morte, e já começa a ser assustador o número de pessoas que conhecia alguém que morreu. Isso cria um nível de desgaste, uma perceção de perigo que, fisicamente, resulta numa exaustão.

A psicóloga clínica conta à dobem. que, nos últimos meses, têm sido cada vez mais as pessoas que lhe têm dito que começaram a restringir cada vez mais os seus contactos, especialmente as que têm crianças. Não só pelo receio de virem a contrair o vírus, mas também por receio de poderem precisar de qualquer outro tipo de cuidados de saúde, e que estes possam não estar disponíveis num momento mais crítico. 

“Vemos ambulâncias a circular, temos acesso a relatos de hospitais onde há pessoas estranguladas de trabalho”, consta a especialista. “E, neste momento, o desespero e o receio não é só em relação ao vírus, mas também naquele pensamento de ‘e se me acontece alguma coisa ou aos meus, precisamos de um serviço e podemos não ter’.”

A incerteza do depois

Um estudo publicado pela King’s College de Londres, Reino Unido, em novembro de 2020, concluiu que grande parte dos profissionais do sistema nacional de saúde daquele país estavam traumatizados devido à pandemia. 

Entre os 709 inquiridos, mais de metade relatou ter sintomas graves de ansiedade, depressão, stresse pós-traumático ou alcoolismo. Mais grave ainda, um em cada sete disse já ter pensado em causar danos a si próprio ou que estaria “melhor se estivesse morto”.

Apesar de estes resultados espelharem a realidade do Reino Unido, a verdade é que em Portugal são vários os relatos de profissionais de saúde que têm falado abertamente sobre como a pandemia os está a afetar, não só em termos físicos, como mentais. Recentemente, uma enfermeira do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, foi encontrada sem vida depois de ter sido dada como desaparecida, sendo que a bastonária da Ordem dos Enfermeiros confirmou que a mulher de 49 anos apresentava sinais de cansaço extremo. 

A fadiga intensiva, os longos turnos e o facto de estarem a lidar diariamente com um cenário a que muitos chamam já de medicina de guerra leva a que haja uma grande incerteza sobre o que poderá vir a acontecer no pós-pandemia. Filipa Jardim da Silva considera a situação preocupante. 

“Tenho muito essa preocupação com o que vai acontecer com os nossos serviços de saúde, porque pode sobrar pouca gente e podemos vir a ter em mãos um problema ainda mais crítico”, diz a psicóloga. “Isto é mesmo um cenário de guerra em que está muita gente numa linha da frente onde estão a cair granadas e nem há tempo para dizer que não. Mas, um dia, as granadas vão deixar de cair.”

A especialista vai ainda mais longe e explica que, apesar de acharmos que conhecemos todos os efeitos que a pandemia está a causar nos profissionais de saúde, a realidade é que não temos um total conhecimento do que pode acontecer. “Fala-se muito de burnout, mas acho que se continua a perceber muito pouco o impacto físico que ele tem, que pode ser incapacitante”

Por outro lado, existe também a preocupação de como é que cada um de nós vai voltar à normalidade depois da pandemia. Tal como Bruno Nogueira dizia no seu direto, olharmos para cenários como o da Nova Zelândia onde, inclusive, já se fizeram festivais de música ao ar livre com centenas de pessoas, faz-nos pensar naquela realidade como algo muito distante e que até nos pode parecer algo estranho. E quando chegar a nossa vez? 

Em termos de sociedade, a pergunta é quais é que vão ser as sequelas disto tudo”, explica Filipa Jardim da Silva. “Como é que vai ser nas diferentes faixas etárias? Na forma como nos relacionamos com os outros? Na empatia e confiança mútua? Quais vão ser as sequelas de tudo isto? Isso ainda é um grande ponto de interrogação.”

Há estratégias que podemos adotar para aliviar os níveis de stresse

Já todos sentimentos dias menos bons durante este segundo confinamento. Acordámos, vimos notícias, olhámos para o estado dos hospitais, para o número de óbitos e para os casos que tendem a não parar de subir, e sentimos uma súbita vontade de desligar uma qualquer ficha na nossa mente. Salvam-nos as longas horas de séries de comédia de serviços como a Netflix ou os filmes de animação da Disney+, onde podemos mergulhar e esquecer o que se está a passar lá fora durante alguns minutos. 

Mas será isto suficiente? Filipa Jardim da Silva diz que, apesar de tudo, há que saber lidar com a dor e arranjar estratégias para controlar estes sentimentos negativos. 

“Isto não é uma corrida de cem metros, mas sim uma maratona, e como em todas as outras, vale sempre a pena perccebermos que não é por isso que nos podemos abandonar e desligar, deixando ficar a dor”, aconselha a psicóloga clínica. “Há que sentir a dor, reagir, dando resposta às necessidades físicas e emocionais que vão surgindo.”

A especialista acrescenta ainda que, nesta fase, existem cada vez mais pessoas a pedir acompanhamento psicológico. Contudo, há muitas que optam por pedir baixas prolongadas, que se refugiam em comida, que começam a fumar ou a consumir álcool, ou até mesmo quem opte por automedicar-se com substâncias de venda livre, que podem ter consequências graves para a saúde a longo prazo.

Uma das primeiras coisas a fazer, garante a psicóloga, é aceitar que é natural termos estes sentimentos e, sendo naturais, devemos fazer algo para lidar com eles, dentro daquelas que são as nossas limitações no contexto atual. 

“Posso sair à tua para caminhar com o cão, levar uns auscultadores e ir a ouvir música, caminhar a uma passada mais acelerada, mudar os circuitos que faço”, aconselha. “Outra coisa muito importante também é manter rotinas, ter hora de acordar, tomar banho, vestir-se como se fosse sair à rua, ter tempos de pausa alternados com os do trabalho.”

Outro dos grandes conselhos da especialista é tentar fazer uma boa triagem da informação que vai chegando, quer seja através da televisão ou até mesmo das redes sociais. “Seguirmos redes sociais de pessoas que têm uma vida perfeita e só nos fazem sentir uma mal, ou estarmos com notícias sensacionalistas ligadas a todo o instante, não são opções prudentes neste momento, porque ainda estamos mais vulneráveis e cansados”, explica.

Além disso, Filipa Jardim da Silva aconselha ainda a fazer meditação, salientando o facto de, justamente numa altura em que entramos numa fase crítica da pandemia, a Netflix ter lançado o documentário criado em parceria com a Headspace, uma das apps de meditação mais conceituadas do mundo. O documentário está disponível através da plataforma de streaming e a aplicação pode ser descarregada gratuitamente — embora tenha planos pagos — na App Store e na Google Play Store

Por fim, Filipa Jardim da Silva deixa um conselho que nunca deve ser ignorado: pedir ajuda. 

“É sempre uma opção, e não denota fraqueza como, às vezes, ainda se acha. Denota, sim, capacidade de regulação emocional”, garante. “Quando paro e sinto que as minhas emoções estão exacerbadas e que o meu funcionamento global está afetado, isso só significa que tenho uma boa capacidade de auto-observação.”

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