mudança da hora

Saúde

A mudança da hora acontece este fim de semana. Quais os efeitos no sono e como os evitar?

A privação de sono é um dos efeitos mais evidentes deste fenómeno, que pode inclusive causar acidentes. Um especialista em Medicina do Sono explica o que deve fazer para o evitar.

DOBEM.
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Mais uma primavera, mais uma mudança da hora. A mudança da hora é aquela desculpa perfeita que todos damos para passarmos a semana em modo zombie e culparmos aquela hora de sono que perdemos durante o fim de semana, quando os ponteiros do relógio avançaram durante a madrugada. Não precisa de esconder, já todos usámos esta desculpa, pelo menos, uma vez na vida. E será que é assim uma desculpa tão descabida quanto isso? Talvez não. 

Estávamos em 1907 quando o britânico William Willett publicou um panfleto onde propunha que, duas vezes por ano, a hora mudasse. No verão, avançaríamos uma hora, no inverno, a hora atrasaria. Tudo isto, dizia, para pouparmos energia e aproveitarmos a luz do dia da melhor forma possível. Quase dez anos depois, em 1916, em plena Primeira Guerra Mundial, a mudança da hora entrou em vigor de maneira a economizar combustível para o esforço de guerra. E aqui estamos, passados mais de 100 anos, ainda a mudar os relógios duas vezes por ano. 

E por mais anos que passem, todos passamos por momentos de confusão em que nem sempre sabemos bem em que horário estamos. Por um lado, o telemóvel, computador e outros equipamentos atualizam o horário automaticamente mas, por outro, há sempre algum relógio que ainda é preciso mudar manualmente. Quem nunca chegou ao carro ou ao microondas a achar que tinha acordado cedo de mais quando, na verdade, o relógio deveria estar adiantado uma hora? Nem sempre é fácil ajustarmo-nos ao horário de verão que, por mais que nos traga dias longos, também nos traz menos uma hora de sono. 

A verdade é que esta questão gera muita discussão dentro da comunidade científica. Tal como explica Tiago Sá, Pneumologista e Especialista em Medicina do Sono e Diretor Clínico da Sleeplab à dobem., há vários anos que os especialistas estudam a hipótese de abolir a mudança da hora e manter apenas um único horário durante todo o ano. No entanto, e apesar de a União Europeia já ter votado esta questão, a alteração de horário continua a existir. 

“A União Europeia disse que isto tinha de ser resolvido até 2021, mas não aconteceu nada”, começa por dizer o especialista em Medicina do Sono. “A Assembleia da República Portuguesa já disse que não vai abolir a mudança da hora, o que pode levar a que cada país escolha o seu próprio fuso horário.”

Na verdade, e segundo explica o especialista, isto pode gerar um problema ainda maior, já que depois cada país será livre de adotar o seu fuso horário. Em Portugal, por exemplo, Tiago Sá explica que já foram feitos inquéritos com o intuito de perceber qual o horário que os portugueses preferiam adotar. Sem grande surpresa, a maioria escolheu o horário de verão. Poderia não ser um problema, não fosse o facto de, em meses de inverno, esse horário significaria que o amanhecer passava a acontecer às 8 ou 9 horas da manhã. 

“É inequívoco que o melhor horário para escolher, a haver abolição, é o que chamamos de horário de inverno, não o de verão”, diz o especialista. “Não deve ser um horário em que amanhece mais tarde, porque isso leva as pessoas a adormecerem mais tarde porque têm mais horas de exposição solar, o que, de manhã, leva a que existam alterações de humor, dificuldade em acordar e em estar desperto.”

O que é certo é que são já vários os países que estão a abolir a mudança da hora. Em 2011, por exemplo, a Russia anunciou que os seus relógios iriam atrasar pela última vez. Isto porque, na altura, os relatórios da Academia de Ciências Médicas Russas indicavam que havia um aumento de 1,5 de ataques cardíacos e que as taxas de suicídio subiam 66% devido à mudança de horário. A mesma Academia apontava também para o facto de as crianças e os idosos se sentirem mais stressados e sofrerem de mais distúrbios de sono, que podiam, a longo prazo, provocar problemas no sistema imunitário, cardiovascular e metabólico.

Tiago Sá explicou à dobem. que há alguma investigação científica que aponta para que se sintam algumas alterações devido a este horário, entre elas, alguns problemas de saúde. 

“Principalmente na mudança da hora de inverno para o de verão, está identificado que, neste dia e na semana seguinte, existe aumento de alguns eventos de saúde, nomeadamente arritmias cardíacas, de fenómenos trombóticos, de descompensação de doenças autoimunes”, começa por dizer o especialista. “Existem também pessoas que são mais suscetíveis ao efeito de jet lag, a alterações das rotinas, nomeadamente quem tem distúrbios do sono e desequilíbrios de ansiedade. Também já está identificado que existe um aumento de consumo de substâncias psicoativas por dependentes.”

No entanto, Tiago Sá explica que estas investigações, apesar de terem de ser consideradas, não devem ser vistas como uma verdade absoluta e incontestável. É que estes fenómenos avaliam os efeitos da mudança da hora em certos indivíduos e em determinadas regiões. No entanto, e tal como explicou à dobem., existem regiões onde a mudança da hora passa, muitas vezes, despercebida. 

É o caso de algumas zonas da Alemanha, nomeadamente as que estão acima do Paralelo 47 N, um paralelo medido no planisfério que começa a ser contado a partir do Meridiano de Greewich, e que fica acima da região norte de França. Isto porque, nestas regiões, que afetam também os países nórdicos como a Finlândia ou a Islândia, o facto de haver, ou não, uma mudança horária, não implica qualquer alteração na quantidade de horas de luz solar. É por isso que muitos alemães são a favor da abolição da mudança da hora. 

“Eles só notam o impacto de terem de dormir uma hora a mais, que não utilizam, e notam disfunção naqueles dias”, diz o especialista. “A alteração não tem benefício nenhum para estes povos, porque as atividades são iguais no ano todo e os horários são sempre os mesmos. Por outro lado, os povos a sul do Paralelo 47 mudam muito mais as suas atividades consoante a altura do ano.

Como nos devemos preparar para a mudança da hora?

É certo que, por norma, a mudança da hora acontece ao fim de semana, já que a grande maioria das pessoas não trabalha ao fim de semana e, por isso, acaba por não sentir tanto a mudança horária. Contudo, a grande maioria não significa toda a gente, e a realidade é que durante os primeiros dias depois da mudança da hora, especialmente na mudança para o horário de verão, é natural que sinta algum desequilíbrio. 

Mas há formas de o evitar e, tal como aconselha Tiago Sá, o mais importante é evitar, ao máximo, que haja redução do tempo de sono nessa noite. Para o conseguir, o especialista em Medicina do Sono aconselha que antecipe essa alteração, e comece a gerir a sua rotina para, nos dias anteriores, se deitar mais cedo, aumentando uma hora ou até mesmo meia hora de sono. 

“Assim, no dia em que se der a mudança da hora, o já ajustámos o nosso horário e vamos até dormir mais naquele período, atenuando o efeito brusco de, de repente, dormirmos menos uma hora do que é habitual”, diz o médico. 

Além disso, Tiago Sá aconselha ainda a que se evitem atividades de risco acrescido nos primeiros dias após a mudança da hora. Conduzir na manhã seguinte, por exemplo, é arriscado, já que pode estar sob o efeito de privação de sono e, aí, aumenta o risco de acidente por ter a capacidade de reação reduzida. 

E se pensa que é possível recuperar o sono perdido, então temos más notícias. “Costumamos dizer que não se compra sono”, garante Tiago Sá. “Sono que perdemos, perdemos. Os efeitos de compensar sono à frente nunca são os mesmos do que antecipar essa privação de sono.”

No entanto, o médico aconselha a que, caso não tenha mesmo hipótese de ajustar as rotinas para dormir mais cedo, tente criar um espaço na agenda para fazer uma sesta a meio do dia. Apenas 30 minutos são o suficiente para conseguir ganhar algum foco e capacidade de reação que perdeu, mas não serão uma solução.