Saúde

A menopausa provoca ou não aumento de peso? Duas especialistas esclarecem

As alterações hormonais causadas pela menopausa provocam várias mudanças no corpo de uma mulher, mas os problemas vêm, maioritariamente, de hábitos anteriores. Perceba porquê.

A menopausa é a fase da vida que a maioria das mulheres tem receio de atingir. Os afrontamentos, suores noturnos, a irritabilidade, as alterações da memória, a diminuição da libido ou a secura vaginal são alguns dos primeiros sintomas que podem afetar as mulheres durante esta fase. Contudo, há um que parece ser o principal motivo de preocupação entre as mulheres: o aumento de peso.

Marta Padilha, médica especializada em medicina Anti-Aging, explica que são várias as mulheres que a procuram por notarem uma alteração no seu peso que, geralmente, aumenta, “principalmente na região abdominal”, diz à dobem. Mas será que esta oscilação está efetivamente relacionada com a menopausa?

Antes de lá chegarmos, importa esclarece que a menopausa é “definida como o último período menstrual  — geralmente confirmada quando a mulher não tem período há 12 meses consecutivos, sem outras causas óbvias — ocorre em média aos 51 anos de idade e traduz-se num desequilíbrio hormonal. Ou seja, há uma diminuição na atividade dos ovários que deixam de libertar óvulos todos os meses. Além disso há um diminuição de produção de estrogénios, progesterona e outras hormonas.”

Marta Padilha afirma que é comum as mulheres se queixarem de um aumento de peso nesta fase da vida. “Durante o período da peri menopausa (os quatro ou cinco anos que antecedem à menopausa), há oscilações de estrogénios. O estrogénio, sobretudo o estradiol, leva a uma acumulação de gordura na região das ancas, nádegas e coxa”, explica a especialista ainda referindo que “à medida que os níveis de estradiol caem, a estrona [hormônio estrogénico secretado pelo ovário] adquire uma importância crescente e a gordura acumula-se na região abdominal.”

Para além disso, a especialista adianta ainda que o stresse também pode ser um fator fundamental, já que promove alterações hormonais que podem conduzir à desaceleração do metabolismo, o que, consequentemente, leva a uma resistência à insulina, a uma diminuição da atividade hormonal da tiroide e a uma elevação do cortisol. Tudo isto, garante Marta Padilha, pode provocar o aumento de peso.

O impacto dos comportamentos anteriores à menopausa

Conceição Calhau, nutricionista nos Hospitais CUF Descobertas e CUF Tejo e professora na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, refere que há que ter em conta que o aumento de peso de que as mulheres se queixam na fase da menopausa está muitas vezes relacionado com maus hábitos que foram tendo ao longo da vida. “Aquilo que é o excesso de peso no pós menopausa já vem detrás. Não é no dia a seguir à menopausa que aumentamos mais dez, 20 ou 30 quilos.”

Contudo, a especialista garante que, na grande maioria dos casos, a tendência é para que os comportamentos das mulheres se vão alterando à medida que vão envelhecendo. São essas mesmas alterações que podem, mais tarde, conduzir ao aumento de peso, que as mulheres tendem a associar à menopausa.

“Muitas vezes o que se associa é que, no pós menopausa, existe um desleixo maior. A rotina torna-se menos saudável por razões várias, não só alimentares. A falta do exercício, a falta de motivação, a idade. Há um conjunto de circunstâncias que fazem também com que as mulheres se cuidem menos”, afirma a nutricionista.

Segundo Conceição Calhau, o ganho de peso está mais relacionado com os hábitos que a pessoa foi tendo ao longo da vida do que propriamente com as alterações hormonais decorrentes desta fase. “Ao longo da vida vamos tendo muitas alterações hormonais, esta é só mais uma, mas [as mulheres] devem saber que há uma equipa multidisciplinar para ajudar no balanço daquilo que é a diferença hormonal, que não devem desistir e que se devem tratar quer antes, quer depois.”

Também Marta Padilha faz questão de realçar que “o ganho de peso não é exclusivamente da menopausa, há também que considerar a hereditariedade e a dieta,” segundo a especialista em Medicina Anti-Aging, a melhor maneira de saber como proceder é consultar o médico e realizar análises clínicas e outros exames complementares de diagnóstico para perceber quais as hormonas que estão alteradas e os seus valores para se fazer uma reposição. Além disso, destaca ainda o facto de, por vezes, ser necessário fazer uma suplementação não hormonal individualizada e personalizada, à qual se deve juntar também um plano de treino adequado, uma boa gestão de stresse e uma alimentação equilibrada.

Conceição Calhau realça também que, apesar de haver fatores provocados pela menopausa que não conseguimos controlar, a melhor decisão a tomar é tentar chegar a esta idade no melhor estado de saúde possível, já que só assim conseguiremos atenuar algumas das consequências desta fase.

“Já há especialidades que tratam e trabalham estes assuntos, portanto, já existem resoluções para a maioria das situações, o que têm é, obviamente, de se tratar e não achar que não há solução e que está tudo perdido”, garante a nutricionista.

A especialista afirma ainda que, nesta fase, o essencial é a substituição dos estrogénios sendo que, depois desta estar garantida, a menopausa é uma excelente altura para as mulheres, caso não tenham tido, começarem a ter alguns cuidados, sendo a dieta mediterrânica o tipo de alimentação mais recomendado.

Neste sentido, Conceição Calhau aponta o consumo de Ómega-3 como essencial para reduzir o declínio cógnitivo, que pode começar a surgir nesta fase. Além disso, recomenda ainda o consumo de “pequenos frutos”, como a própria indica, que têm um efeito neuro protetor importante, capaz de prevenir perda de memória ou o aparecimento das doenças neurodegenerativas associadas à idade. Além disso, é fundamental aumentar a ingestão de cálcio e vitamina D, essenciais para a saúde óssea.

“No caso do cálcio, essa é uma preocupação que temos atualmente pela quantidade de jovens que não consome lacticínios”, afirma a nutricionista, realçando que é até aos 25 anos que a massa óssea tem o seu pico e, se nesta fase não tivermos cuidado com esse investimento alimentar, podemos chegar à idade adulta com a massa óssea comprometida.

Também é com a chegada da menopausa que o metabolismo começa a funcionar de uma forma diferente. Torna-se mais lento, com menor capacidade de resposta. Conceição Calhau explica que a forma como ele chega a esta idade depende também dos erros que vamos cometendo ao longo da vida. “O facto de não fazermos exercício faz com que vamos perdendo massa muscular e esse é o fator principal para ganhar gordura”, afirma.

Contudo, há sempre formas de tentar diminuir o impacto da menopausa, ainda que esse trabalho não tenha sido feito previamente. “Aquilo que se deve fazer é a história alimentar dessa pessoa, perceber quais são os hábitos e corrigir o que está mal, quer do ponto de vista da qualidade e quantidade de alimentos, quer também daquilo que são as frequências e os horários das refeições”, realça.

Marta Padilha acrescenta ainda que o tempo e a forma como as mulheres lidam com o impacto das alterações provocadas pela menopausa depende de pessoa para pessoa. “Não há nenhum tempo definido. Mas, na minha opinião, se a mulher for suplementada o mais precocemente, no inicio dos primeiros sintomas, e perceber que tem de mudar o seu estilo de vida e fazer os cinco pilares da medicina do anti-aging  — suplementação hormonal, não hormonal, exercício físico, nutrição funcional, e gestão do stresse  — vai sentir com mais energia, alegria e com força de viver ultrapassando esta fase da sua vida de forma mais pacífica”, remata a especialista.