masturbação

Saúde

A masturbação ainda é um tabu entre as mulheres, mas não tem de o ser. Especialista explica porquê

Durante anos, não se falava no assunto, mas o confinamento veio mudar a forma como encaramos o tema. Uma mulher conta como esta prática mudou a sua vida, e uma especialista explica os benefícios.

Até aos 25 anos, Carolina, que prefere não revelar o apelido por questões de privacidade, sempre viu a masturbação feminina, bem como tantos outros temas ligados à sexualidade individual, como um tabu. Não era tema de conversa entre as amigas, pouco falava do assunto com o parceiro — com quem tem uma relação há mais de dez anos —, e estava longe de imaginar que isso pudesse mudar a sua vida. Tudo isso mudou com a chegada do primeiro confinamento. 

“Descobri os brinquedos sexuais, muito graças às partilhas que várias sexólogas iam fazendo através das redes sociais”, recorda à dobem. “Fui descobrindo a importância da sexualidade individual e de como esses brinquedos podem melhorar a vida de uma pessoa, e até mesmo a do casal, e isso, para mim, também é muito importante. Percebi que precisava disto na minha vida. Porque sentia que a minha sexualidade parecia que andava perdida, que faltava algo, e faltava.

Carolina sempre sentiu que a forma como olhava para a sexualidade estava, de certa forma, condicionada. Quando era mais nova, não se falava neste tema, fosse com as mães, na escola ou até mesmo entre amigas. Era, recorda, visto como algo errado de se fazer, um comportamento reprovado e que, a acontecer, nem sequer deveria ser falado. Atualmente, e apesar de se sentir mais à vontade para falar sobre o tema, ainda nota alguma retração quando fala sobre ele.

“Às vezes sinto que, enquanto mulheres, temos vergonha de falar desta parte da nossa sexualidade, ainda há um pouco de estigma”, explica. “É como se, quando falamos disso, parecêssemos desesperadas ou oferecidas. Mas, entre os homens, eles falam sobre estes temas abertamente.”

Ana Paulino, counseller em Sexologia Clínica e autora da página de Instagram Flare Concept, explica à dobem. que o facto de as mulheres se sentirem retraídas a falarem sobre estes temas não é uma novidade. A especialista adianta ainda que, atualmente, muito do trabalho de um profissional da área da sexologia clínica passa, precisamente, pela desculpabilização em relação a estes assuntos. 

“Ainda existe muita culpabilização, mas cada vez menos, e é muito sobre isso que eu falo com os meus pacientes”, começa por explicar. “Ainda há muita culpa em torno das questões do corpo e do prazer. Isto acontece porque as mulheres, historicamente, foram educadas para o sexo como uma forma de reprodução, não para o sexo com prazer.”

A counseller em Sexologia Clínica explica que, nos dias que correm, em que o foco está cada vez mais assente no bem-estar e no autocuidado, é importante que as mulheres falem sobre a sua sexualidade individual e que, muito mais do que uma forma de obterem prazer, a masturbação feminina é uma forma de autocuidado e de empoderamento. 

“É uma parte da nossa sexualidade, que também é saúde, e é importante passarmos a ver isto como mais uma forma de cuidado pessoal, de empoderamento, de controlo, não no sentido pejorativo, mas de um ponto de vista do autoconhecimento”, diz Ana Paulino. “Quanto melhor conhecer o meu corpo, mais empoderamento tenho sobre ele, e melhores escolhas faço em relação a ele.”

“Percebi que precisava disto na minha vida. Porque sentia que a minha sexualidade parecia que andava perdida, que faltava algo, e faltava.”

Carolina, 25 anos

Tal como Carolina, também a counseller em Sexologia Clínica concorda que as redes sociais têm sido um dos grandes meios de divulgação para os temas ligados à sexualidade, especialmente durante a pandemia. Temas que, em tempos, eram publicados apenas em revistas da especialidade, em blogues ou até mesmo em fóruns online, hoje chegam a cada vez mais pessoas, tudo graças ao impacto de plataformas como o Instagram. 

“Com este ‘boom’ das redes sociais há cada vez mais psicólogas e sexólogas a criarem páginas sobre estes temas e a ganharem força, acabando por se tornarem meios de divulgação muito fortes, porque chegam a cada vez mais mulheres”, diz Ana Paulino. “Fizemos em março um ano de pandemia, e as redes sociais foram um dos principais meios de comunicação até mesmo nestas questões. Os técnicos da área promovem muito mais conversas, e estamos, no fundo, a promover a literária do corpo, ligada ao erotismo, ao prazer feminino, à menstruação, e tantos outros temas ligados à sexualidade que estão a ser promovidos diariamente.”

Precisa de uma boa noite de sono? A masturbação pode ajudar

Basta fazer uma rápida pesquisa para perceber que existem vários estudos que confirmam que a atividade sexual e, em particular, os orgasmos, têm benefícios para o sono, especialmente quando são conseguidos através da marturbação. Em março de 2019, por exemplo, uma investigação publicada na “Frontiers in Public Health” concluiu que os orgasmos conseguidos através da auto-estimulação conduziam a uma melhor qualidade do sono. 

Nesse mesmo ano, em maio, a revista “Visão” publicava um artigo onde explicava que, durante a relação sexual, o organismo liberta oxitocina, conhecida como a hormona do amor, ao mesmo tempo que baixa os níveis de cortisol, hormona responsável pelo stresse. Por outro lado, é ainda libertada prolactina, uma hormona responsável pela sensação de relaxamento e sonolência. 

Susana Varela, médica pneumologista e membro da Comissão de Trabalho para a Patologia Respiratória do Sono da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, explicou na altura à publicação que são estas alterações hormonais que favorecem a indução do sono. Além disso, a libertação de estrogénio durante o ato sexual tem também a capacidade de promover o sono REM, isto é, nas suas fases mais profundas que são, também, as mais reparadoras. 

Ana Paulino vai ainda mais longe, e explica à dobem. que há toda uma envolvência física que provoca uma sensação de relaxamento e bem-estar, que acaba por induzir o sono. 

“O orgasmo liberta muitas substâncias que são boas para nós, a nível hormonal e de neurotransmissores”, começa por explicar. “Como existe um nível físico de êxtase e há toda uma estrutura física no nosso corpo que acaba por ser impontada, até em termos de batimento cardíaco, no final, há um relaxamento, que pode ser um indutor de sono.”

Os benefícios para a relação entre o casal

Carolina conta à dobem. que esta ainda continua a ser uma das grandes questões sobre as quais a masturbação feminina gera discussões nas conversas que tem com outras pessoas. Muitas delas acreditam que quem procura a masturbação fá-lo por ter falta de um parceiro sexual e que, há falta de algo melhor, procuram algo que as possa satisfazer. Para Carolina, a descoberta da sua própria sexualidade acabou por trazer vários benefícios à relação. 

“Estou numa relação há mais de dez anos e, para mim, isto foi muito importante porque, por vezes, já não se sabe bem como inovar”, começa por recordar. “Quando comecei a consumir mais este tipo de conteúdo, falei imenso sobre isto com o meu namorado, e foi ele, inclusive, que me ofereceu o meu primeiro brinquedo sexual, um estimulador da Satisfyer.”

“A masturbação não é substituição de nada, pode existir por si própria tanto individualmente, como em casal e pode até ser promotora de um aumento de satisfação.

Ana Paulino, counseller em Sexologia Clínica

Apesar de ser visto como um aparelho de utilização individual, por ser um estimulador de clitóris, Carolina conta que começou a usá-lo em casal, e que fez toda a diferença tanto na sua experiência, como na do parceiro. “Tem feito toda a diferença para melhor na nossa vida em casal, e até já estamos a ponderar comprar outras coisas”, acrescenta. 

Ana Paulino garante que existem várias vantagens para o casal, e explica que, durante muito tempo, a sexualidade foi vista como algo estanque, que não poderia sofrer alterações e ir além da norma. No que diz respeito à masturbação feminina, sempre foi vista como algo que, tal como disse Carolina, era usada como que em substituição de um parceiro sexual, e apenas quando a mulher estava sozinha. 

“A masturbação não é substituição de nada, pode existir por si própria tanto individualmente, como em casal”, começa por dizer a counseller em Sexologia Clínica. “Aliás, pode até ser promotora de um aumento de satisfação, ao acontecer num momento de estimulação mútua, por exemplo.

A especialista garante que, sobre este tema, ainda existem atualmente vários preconceitos que devem ser desfeitos na sociedade e que, a longo prazo, a prática da masturbação em casal pode ser benéfica até mesmo para evitar que as mulheres sintam a necessidade de simular um orgasmo. 

“Há um risco muito grande de simulações, o que passa uma mensagem errada à pessoa que acredita que está a fazer tudo bem quando, na realidade, se calhar não está”, diz Ana Paulino. “Não estamos a dar a oportunidade à pessoa para melhorar, para se ajustar.”

A masturbação feminina “hollywodesca”

No terceiro episódio de “Bridgerton”, a série de sucesso da Netflix que estreou no final de 2020, Daphne, a personagem interpretada por Phoebe Dynevor, tem uma conversa com Simon (Regé-Jean Page), onde este lhe explica que conseguirá ter prazer se tocar em algumas zonas do corpo quando estiver sozinha, nomeadamente, e nas palavras de Simon, “entre as pernas”. A cena seguinte mostra-nos uma jovem Daphne, aristocrata inglesa do século XIX, a masturbar-se sozinha, no quarto, enquanto lhe vão passando pela mente várias imagens de Simon. Poucos minutos depois, atinge o seu primeiro orgasmo. 

Foram várias as publicações que escreveram sobre o tema na altura, sendo que a “IndieWire” foi uma das que deixou algumas críticas à cena. Na crítica, Jude Dry escreve que “nenhuma mulher na história de todo o mundo teve o seu primeiro orgasmo tão rápido e com tão pouco conhecimento, especialmente uma que viveu uma vida recatada enquanto se preparava para ser uma senhora de bem.”

Ana Paulino não é capaz de concordar totalmente com a afirmação, mas acredita que o facto de não haver muito conhecimento do corpo poderia colocar alguns entraves. No entanto, não é impossível. 

“Pode acontecer porque, de facto, se pensarmos, estamos a falar da primeira vez consciente em que existe uma estimulação daquela zona por isso pode acontecer, sem dúvida”, garante. 

No entanto, a especialista explica à dobem. que não deixa de ser apenas mais uma representação “hollywoodesca” da masturbação feminina, onde tudo acontece muito rapidamente e nada é mostrado tal como acontece na realidade. 

Isto não acontece só em “Bridgerton”, e Ana Paulino explica que durante muito tempo a sexualidade, especialmente a feminina, sempre foi muito representada de uma forma que não correspondia exatamente ao que acontecia na realidade. Ana dá um exemplo que muita gente certamente reconhecerá: a mítica cena da atriz Meg Ryan no filme “Um Amor Inevitável”.

“Esta questão do orgasmo à Hollywood era uma coisa muito irreal, e que, depois, podia acabar por criar falsas expectativas nas pessoas, que achavam que o orgasmo tinha de ser uma coisa muito sonora”, diz a especialista. “Criaram-se aqui muito preconceitos sobre o que deve ser um orgasmo e, nas próprias cenas, não há preliminares, há muito foco na penetração, os ritmos são demasiado coordenados e, na realidade, as coisas não são bem assim.

Apesar disso, a Ana Paulino garante que estamos cada vez mais a caminhar para uma mudança de paradigma, muito graças a séries como “Sex Education”, também da Netflix, que representa problemas reais que tanto os jovens como os adultos passam a vários níveis, “nas diferentes pessoas, nas diferentes orientações sexuais”, diz Ana Paulino. “Isto faz falta, porque depois é terrível. Cria-se um exercício, inevitável, a nível de comparação, que pode ser muito negativo. Podemos pensar ‘se nos filmes acontece assim, porque é que comigo não acontece assim?’.”

Ana Paulino termina destacando que este tipo de preconceitos que foram sendo criados pelas representações de Hollywood podem levar a algumas quebras que devem ser estabelecidas em qualquer relação íntima entre um casal, e deixa os três pilares que, para si, são fundamentais ao bom funcionamento de uma relação.

“O consentimento tem de ser a base da sexualidade, saber-se o que é consentir ou não, e tudo deve estar muito claro mas, por vezes, não está”, começa por aconselhas. “Depois, devemos encarar o prazer e a sexualidade como uma coisa natural, que deve ser vista como fazendo parte da nossa saúde e, por fim, viver tudo isto com liberdade. Um corpo livre e uma sexualidade livre será sempre mais poderosa, com maior qualidade e que nos trará maior bem-estar.”