Saúde

Novo estudo diz que os veganos têm maior risco de fraturas ósseas. Especialistas dizem que não é bem assim

A investigação que relaciona a alimentação com a saúde óssea é, segundo os especialistas, "de muito boa qualidade", mas o problema está na interpretação dos resultados. Duas nutricionistas explicam porquê.

Na manhã desta segunda-feira, 23 de novembro, as manchetes de dois jornais portugueses anunciavam que, segundo um novo estudo, os “veganos têm maior probabilidade de fraturar ossos do que quem come carne” e que os “vegans têm 43% mais probabilidades de fraturar ossos“. Depois disso, ficou instalada a polémica.

De um lado, os que defendem o veganismo mostravam-se contra o alarmismo do artigo, e houve quem ironizasse o estudo dizendo “é por isso que o hospital da prelada está cheio de vegans lol”, pode ler-se na caixa de comentários de uma destas publicações. Surgiram também apelos aos meios de comunicação para que “em vez de estarem sempre a tentar apanhar qualquer coisa para demonizar o veganismo, não seria mais sensato focarem esse tempo em trazer informação sobre como adotar uma dieta vegan corretamente ou então alertar para os fatores de risco da dieta de 90% da população”, questionou a chef vegan Inês Pais nas redes sociais.

Por outro, houve quem recorresse ao argumento histórico de que “somos omnívoros. Se tentamos mudar aquilo que somos, alguma consequência irá ter. Mas está na consciência de cada um”, como escreveu uma das leitoras do artigo divulgado pelo “Jornal de Notícias” no Facebook.

Mas, afinal, o que diz o estudo agora publicado? Primeiro, é verdade que os investigadores concluem que “pessoas que não comem carne, especialmente vegetarianos estritos, têm um risco mais elevado de sofrer roturas totais ou locais, especialmente na anca”, diz a conclusão, que, logo de seguida, alerta: “Os resultados sugerem que a saúde óssea em vegetarianos estritos requer mais investigação”.

Segundo, há vários fatores que devem ser tidos em conta quanto a este estudo, que foi feito com base numa amostra de 55 mil indivíduos, divididos em quatro grupos — pessoas que comem carne, pescetarianos, ovolactovegetarianos e vegetarianos estritos (ou veganos) —, cujos dados foram recolhidos num primeiro momento entre 1993 e 2001 e novamente em 2010, um acompanhamento que durou cerca de 18 anos. E o que é facto é que em 18 anos muita coisa mudou nos padrões alimentares de vegetarianos e vegetarianos estritos.

“O facto de este trabalho ter sido conduzido há muitos anos, numa altura em que o acesso a alternativas de origem vegetal fortificadas com cálcio, como bebidas e ‘iogurtes’ vegetais, era mais reduzido, assim como o acesso a informação de qualidade sobre este tema, provavelmente conduziu a estes resultados”, revela a nutricionista Sandra Gomes Silva à dobem.

É que, seja ela uma dieta omnívora ou vegetariana, o principio base deve ser o mesmo: equilíbrio. “Qualquer pessoa teria mais probabilidade de ter uma fratura se não consumisse o cálcio necessário, que é o que acontece no estudo. Os veganos consomem metade do necessário”, diz a nutricionista Ana Isabel Monteiro, justificando que isto acontece simplesmente porque a dieta não é bem planeada.

Até o próprio epidemiologista nutricional Tammy Tong, principal autor do estudo, reconhece que a saúde óssea depende da forma como cada dieta é implementada. “As pessoas devem ter em conta os benefícios e os riscos da sua dieta, garantir que têm níveis adequados de cálcio e proteína e manter também um Índice de Massa Corporal saudável, nem baixo nem excessivo”, diz.

O problema está no estudo ou na interpretação?

Logo após saírem as notícias sobre os resultados da investigação, Sandra Gomes Silva, nutricionista vegetariana, percebeu que estavam a levantar-se várias questões sobre a relação entre o veganismo e a saúde óssea.

Através do Instagram, a nutricionista esclareceu pronta e detalhadamente toda a investigação, começando por afirmar: “Este é um estudo de muito boa qualidade”. Tanta, que o EPIC-Oxford, centro de investigação que realizou o novo estudo, foi até citado no livro de livro de Sandra, “O Vegetariano“.

Na análise para esclarecer os mais de 35 mil seguidores, a nutricionista explora cada parâmetro para perceber a veracidade do resultado final — que diz que os veganos têm 43% maior probabilidade de sofrer algum tipo de fratura óssea.

“Quando olhamos para os dados das pessoas [divididas por grupos], vemos realmente algumas diferenças entre elas”, começa por explicar. “Ao analisar a composição corporal, os veganos têm um Índice de Massa Corporal (IMC) mais baixo, já sabíamos isto. Sabemos até que existe uma menor prevalência de peso e obesidade. Mas também conseguimos perceber que 24% das pessoas desta amostram têm um IMC abaixo de 20, o que significa que talvez algumas delas tenham um peso demasiado baixo para aquilo que seria a altura”, afirma nos stories.

Contudo, já no grupo que consome carne, Sandra aponta para o facto de haver uma prevalência de excesso de peso, na ordem dos 37% a 40%, o que bate certo com os dados divulgados.

“Deve ser o único caso em que o excesso de peso pode ser algo positivo em relação às fraturas porque acaba por funcionar como uma almofada, vemos isso também nos idosos”, destaca a nutricionista Sandra Gomes Silva.

No mesmo sentido, a nutricionista Ana Isabel Monteiro acrescenta: “Verificámos também que havia uma grande percentagem de veganos com baixo peso e uma percentagem superior a fazer mais exercício físico, estando mais vulneráveis a lesões”, afirma.

Estas variações percentuais estão também demonstradas na investigação: nos parâmetros nutricionais dos vegetarianos estritos é possível observar que consomem menos calorias, menos cálcio e uma baixa percentagem de proteínas, ao contrário de quem come carne.

“Isto é um dos fatores que explicam os resultados deste trabalho”, afirma a nutricionista Sandra nos stories da sua conta de Instagram. “A dose diária recomendada de cálcio, embora varie de país para país, geralmente é de 1000 miligramas por dia”, acrescenta, valor que não estava a ser cumprido pelos vegetarianos estritos que fizeram parte da análise, que consumiam apenas 600 miligramas por dia, de acordo com o estudo.

Como podem os veganos garantir uma boa saúde óssea?

O cálcio é, como vimos, um dos nutrientes em falta nos vegetarianos estritos que levou aos resultados de um total de 3941 fraturas registadas ao longo dos anos de desenvolvimento do estudo.

Como contornar o problema? Garantido o aporte necessário deste mineral, que está presente em “alimentos fortificados, tofu, legumes verde escuro, leguminosas”, enumera Ana Isabel Monteiro, conhecida pela página “Laranja Lima Nutrição“.

Contudo, este não é o único nutriente essencial à saúde dos ossos que Ana Isabel Monteiro destaca. A vitamina D também é importante e pode ser obtida através do sol ou de suplementação, bem como a célebre vitamina B12, para a qual existe suplementação adequada.

Os veganos devem, por isso, ter atenção a estes três nutrientes na alimentação diária, mas não só aqueles que têm uma alimentação de base vegetal.

“Podemos concluir desta investigação que o consumo de cálcio, entre outros fatores como o IMC e o aporte de vitaminas D e B12, em vegetarianos estritos pode levar a um maior risco de fraturas. Contudo, sabemos que se o consumo de cálcio fosse equivalente, o risco de fraturas seria semelhante ao dos omnívoros, pelos dados que temos de um outro estudo com a mesma população”, diz Sandra Gomes Silva à dobem em jeito de conclusão sobre o estudo polémico.