endometriose

Saúde

Endometriose. Será esta doença sinónimo de infertilidade?

São várias as mulheres que acreditam que pode ser uma sentença de infertilidade, mas será que é assim tão linear? E, afinal, o que é que se sabe sobre a endometriose?

Ouvimos falar delas em jantares de amigas, em podcasts sobre saúde feminina, em conferências e até em publicações de influenciadoras digitais, mas nem sempre sabemos bem do que estão a falar. Pior do que isso, é que muitas vezes é um problema que passa despercebido entre a comunidade médica e nem sempre pensamos nele quando temos algum sintoma. Dores menstruais intensas? É tudo normal, não pode ser endometriose.

Até ao dia em que chega o diagnóstico, em que o especialista repete aquelas palavras que tantas vezes ouvimos mas que sempre achámos que só aconteceria aos outros. Pode parecer uma sentença, e até há muitas vezes quem associe a endometriose à infertilidade. Mas será que é mesmo assim tão linear?

Mas, antes de mais, o que é na verdade a endometriose? “A endometriose é uma doença que consiste na presença de tecido endometrial fora do local habitual: a cavidade uterina”, explica a ginecologista Fátima Faustino do Hospital Lusíadas Lisboa. Este tecido vai até os ovários, intestino e outros órgãos pélvicos e abdominais e, sempre que a mulher menstrua, esses focos de tecido também sangram. “O sangramento conduz a uma reação inflamatória que desencadeia a formação de tumores”. Apesar de serem benignos, têm consequências graves.

“Alteram a anatomia da cavidade pélvica, conduzem à formação de aderências entre os órgãos, por exemplo, entre os ovários e as trompas — uma das causas de infertilidade. E desencadeiam mecanismo de dor”, explica.

Dor. O sintoma mais evidente da endometriose

A endometriose pode manifestar-se de várias formas, mas passam quase sempre despercebidas à maioria das mulheres, por as associarem a sintomas da menstruação. É o caso das hemorragias abundantes, das quebras de tensão, das diarreias ou inchaços.

Para além destes sintomas, existe outro importante que deve ser levado em conta: a dor. Este sintoma pode aparecer de várias formas, mas é essencial que seja levado em conta. “Pode ser uma dor que surja durante a menstruação, a chamada dismenorreia. É normal que as mulheres tenham alguma dor menstrual, mas não é normal terem uma dor tão intensa que não passa com os analgésicos comuns e que se prolonga por toda a menstruação”, alerta a ginecologista. “Depois há mulheres que têm dor quando têm relações sexuais, que é uma dor muito característica, dor a urinar, queixas de infeções urinárias de repetição com análises sempre negativas”.

“Há mulheres com um quadro de cólon irritável durante anos e no fundo o que têm é uma endometriose intestinal. Há várias apresentações da doença mas sempre referidas à dor”, explica a médica, acrescentando que a infertilidade é também uma das manifestações mais frequentes.

Para a especialista, o mais importante é perceber a história da paciente e detetar alguns sintomas à priori. “Se tivermos uma história de dor que vem desde a primeira menstruação, e que ao longo do tempo se tiver agravado, será um sinal de alarme. Ou então as mulheres que tomaram a pílula durante muitos anos e que quando quiseram engravidar pararam e a dor aumentou. Pode ser outro sinal de alarme”, refere.

“Primeiro devemos ouvir a história da paciente, depois observá-la”. E será nessa observação que o especialista deverá estar atento para encontrar sinais da doença, nomeadamente “um útero que dificilmente se mobiliza, dor durante a observação ginecológica, pequenos nódulos na vagina”. Estes são alguns sinais que podem chamar a atenção para a doença mas a ginecologista alerta que as ecografias normais que são feitas em consultas ginecológicas de rotina não excluem a doença. Por isso, para além das alterações acima descritas, o diagnóstico de endometriose deverá incluir uma ecografia pélvica com sonda vaginal e uma ressonância magnética sendo que o diagnóstico só será definitivo depois de uma análise histológica dos fragmentos dos tecidos.

A médica alerta que a análise desta doença deverá ser muito “individual”. “Não podemos pensar que temos a mesma resolução para todos os casos. Daí que chamemos à doença a doença das mil faces, porque há várias formas de apresentação”.

Um diagnóstico significa infertilidade?

Fátima Faustino explica que não. “Mulheres com endometriose podem engravidar espontaneamente. Só existe infertilidade num terço dos casos”, explica. A doença afeta uma em cada dez mulheres em período fértil e apenas um terço delas sofrerá de infertilidade devido à doença.

E mesmo neste caso “não é impossível” gerar uma criança. “Tudo depende dos sintomas”, explica a ginecologista. Se os principais sintomas forem a infertilidade, podem realizar-se técnicas que ajudem a engravidar, mas se além da infertilidade as mulheres experienciarem a dor referida acima, é necessário recorrer a uma cirurgia.

“A única solução nas mulheres que associam a dor e infertilidade é uma terapêutica cirúrgica que permita restabelecer a anatomia pélvica, ou seja, libertar as tais aderências, colocar os ovários no local certo, libertar as trompas”. Depois desse tratamento espera-se que as doentes engravidem num curto espaço de tempo. Caso a dificuldade permaneça, será necessário recorrer a “técnicas de procriação medicamente assistida”.