autoperdão

Saúde

O autoperdão é necessário e mais simples do que pensa. Especialista deixa dicas de como fazê-lo

Já pedimos desculpa, já tivemos o perdão dos outros, mas e se a pessoa que realmente temos de perdoar somos nós? Uma psicóloga clínica dá estratégias e alguns exercícios de como podemos fazer este processo.

Desde que nascemos que somos educados com algumas regras e alguns valores. Aprendemos a dizer “olá” e “adeus”, “se faz favor” e “obrigada”, a falar e escrever. Mas aprendemos também que temos de pedir desculpa quando fazemos algo de errado, seja porque tivemos uma atitude menos boa para com alguém, porque fizemos uma birra que podia ter sido evitada, um comentário desagradável ou até um favor que nos esquecemos de fazer.

Somos ensinados, desde sempre, que quando existe um erro da nossa parte, devemos pedir desculpa. Também nos ensinam que errar é humano, mas nem sempre é fácil perdoar os outros, por muito sincero que seja o arrependimento. É um processo complexo e progressivo. Mas mais difícil ainda, é perdoarmo-nos a nós mesmos, e realmente sentir o autoperdão. Sejam os erros pequenos ou grandes, existem alguns sentimentos acrescidos, entre eles a culpa e a vergonha. E com eles em mente, o processo de autoperdão pode tornar-se complicado.

Procuramos evitar a realidade e temos tendência em não pensar no erro, mas este processo pode ser feito de várias formas, e deve ser desmistificado, até porque é um processo muito importante. A razão, explica a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva, é porque estes sentimentos de raiva, vergonha e de culpa podem ser sentimentos que nos vão prejudicar a longo prazo e que vão dificultar este percurso interior do perdão. Aqui, é importante realçar que perdoar-se a si mesmo não significa apagar o arrependimento nem justificar esse erro, significa apenas que está a assumir o erro e as emoções que advêm dessa ação.

Segundo a especialista, existem investigações que afirmam que, quando não nos conseguimos perdoar, podemos ter algumas repercussões. Podemos alimentar uma raiva e pensamentos negativos e destrutivos direcionados a nós próprios. Como consequência “há uma maior prevalência de transtornos de humor, de transtornos de ansiedade e, em termos físicos, há uma maior prevalência de perceção de dor física, há alterações em termos de colesterol e da própria pressão sanguínea e até os próprios riscos de ataque cardíaco aumentam.”

É, por isso, prioritário saber fazer uma introspeção, saber analisar de forma consistente os factos e sobretudo saber perdoar-se a si próprio. Se não nos perdoarmos a nós mesmos, de nada adianta de que os outros o façam.

Em conversa com a dobem., a psicóloga clínica deixa quatro passos e alguns exercícios que o podem ajudar neste processo de autoperdão.

Quatro passos que podem ajudar a chegar ao autoperdão

Assumir a responsabilidade

As nossas atitudes e ações são escolhas nossas. Escolhas que, em algum momento — ou até por breves instantes —, fizeram sentido. Este primeiro passo do autoperdão consiste exatamente neste facto: aceitar a responsabilidade dos nossos atos e entender que, mesmo que olhando para trás não nos pareça bem agora, na altura pareceu.

Esta minha escolha, esta minha ação, esta minha falha, não diz tudo, nem diz nada em absoluto sobre a pessoa que eu sou, e, portanto, o primeiro passo é, sem dúvida, abraçar esta responsabilidade de uma forma justa para comigo,” diz a psicóloga.

Lidar com o remorso e com a culpa

Uma vez que o primeiro passo está tratado, é importante lidar com os sentimentos. Quando se responsabiliza por algo, é natural que sinta várias emoções. Pode sentir culpa, raiva ou até vergonha mas, sejam elas quais forem, o importante é tentar percebê-las. A especialista afirma que pode ser uma boa ideia dar um nome a cada emoção e entender qual a melhor forma de lidar com ela.

Se começar a alimentar pensamentos negativos sobre si próprio, pode complicar o processo, até porque, ao culpar-se de uma forma destrutiva “poderá vir a desenvolver um comportamento aditivo ou agressivo, ou até mesmo um transtorno de humor porque, inevitavelmente, vamos estar a agredir-nos diariamente”, diz Filipa Jardim da Silva. Por isso, é realmente fundamental perceber que estes pensamentos são temporários e descobrir qual a melhor forma de lidar com eles.

Restaurar a confiança em si próprio

Já se responsabilizou, está a lidar com os seus sentimentos da melhor forma que encontrou, então, agora, é hora de restaurar a sua confiança. Pequenos gestos ou atitudes diárias que provem, a si mesmo, que já retirou uma aprendizagem do seu erro. Chegar ao final do dia e tentar perceber, por exemplo, de acordo com os seus valores e as suas crenças, algo que o deixou orgulhoso ou feliz, e também algo que efetivamente pode ser melhorado e que não correu assim tão bem como esperava.

“Esta etapa é muito importante. Restaurarmos a relação connosco, mas também pomos em prática as aprendizagens que extraímos desta atitude, escolha ou ação, da qual não nos orgulhamos”, acrescenta a especialista.

Restaurar-se

A crítica destrutiva e a culpa podem não o levar à mudança. E por isso é necessário entender, nesta última fase, que devemos olhar para nós e ver que já estamos a lidar melhor com o erro e com a falha e que já somos capazes de tirar proveito deste acontecimento menos positivo.

Conseguimos “empregar esta autocompaixão,” explica, levando depois alguma aprendizagem para o futuro. Contudo, é importante perceber que “autocompaixão não é desresponsabilização, é só a capacidade, com isenção, de nos responsabilizarmos pelo que temos a responsabilizar,” acrescenta Filipa Jardim da Silva.

Exercícios a aplicar em cada passo

Assumir a responsabilidade

Neste primeiro passo, pode fazer exercícios de auto-observação em que vai passar para o papel aquilo que está a sentir. Pode fazer, ainda, uma introspeção, olhando para o passado para perceber se já tinha tido uma atitude ou pensamento semelhante e comparar de que forma ultrapassou esse momento.

Além disso, pode sempre pedir a ajuda de pessoas próximas, procurando a opinião delas acerca do que o destaca e de aspetos que precisem de ser melhorados. É, sem dúvida, uma etapa que “implica realmente muito autoconhecimento, olhar para dentro e olhar para nós,” afirma a especialista.

Lidar com o remorso e com a culpa

Aqui falamos de gestão de sentimentos, onde o importante é exteriorizar esses mesmos sentimentos, algo que pode ser complicado. Mas existem algumas alternativas para ajudar, nomeadamente fazer meditações guiadas, exercício físico ou atividades como pintar, escrever, dançar, cantar e não só.

“Quando eu coloco uma emoção cá fora, seja através da dança, da pintura, de um desenho, da escrita, de uma caminhada ou até de um cozinhado, ela torna-se mais concreta e eu consigo moldá-la e trabalhá-la,” explica Filipa Jardim da Silva.

A especialista sugere ainda um exercício de escrita, “imaginar-me daqui a um ano, e poder escrever uma carta à minha versão de hoje, no fundo, ajudando-me hoje a conseguir evocar esta tolerância e este perdão que eu, neste momento, não estou a conseguir evocar em mim.”

Restaurar a confiança em si próprio

Nesta fase, é importante instaurar práticas que permitam avaliar a sua postura. Definir objetivos diários e ver se foram, ou não, alcançados, adotar uma postura mais responsável, não só perante a pessoa em si, mas também com os outros.

“Perceber, o que eu faço diariamente e que contribui para o bem-estar das pessoas à minha volta, da comunidade à minha volta, ou do planeta. Ver o que é que estou a fazer, diariamente, que posso considerar que é uma ação contributo para as pessoas à minha volta,” exemplifica a psicóloga clínica.

Restaurar-se

Nesta última fase, segundo a especialista, é importante colocar em prática as alterações, de uma forma consistente, para atingir o autoperdão. Perceber como lidámos com estes conceitos do perdão, da falha, do erro, da perfeição e ver também se fomos capazes de alcançar uma postura mais produtiva. “Quando conseguimos fazer e ter estas ações de autoperdão, necessariamente que a nossa saúde física, mental e a nossa autoestima e até mesmo as nossas relações, beneficiam bastante”, garante a especialista. É importante também ter em mente que todo este processo é dinâmico e que, por isso, podemos ter momentos mais complicados, não esquecendo nunca a importância destas práticas.

Por fim, a prioridade é dedicar-se a si e ao autoperdão “porque é aquele que tem mais impacto em mim em termos de comportamento, em termos físicos, em termos psicológicos, e é o único que está no meu campo de ação e poder,” explica a psicóloga. Assim que formos seguindo estas práticas, fazendo estes pequenos — grandes— exercícios vamos ajudar-nos a ter outra perspetiva não só para connosco, mas também com aqueles que nos rodeiam.