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Episódio #37

Nem tudo o que é saudável é funcional para o teu corpo

Há histórias que começam muito antes de alguém lhes dar um nome. A de Joana Teixeira começa num corpo a dar sinais, numa vida acelerada e numa sensação de que alguma coisa não estava bem, mesmo quando, por fora, tudo continuava a andar.

Neste episódio do Bela Do Bem, a fundadora do The Therapist, fala de alimentação funcional, mas o que se desenha ao longo da conversa é uma história maior: a de uma mulher que viveu durante anos entre exigência, intensidade e stress, até perceber que o corpo não estava apenas a reagir, estava a pedir escuta. Foi o stress das multinacionais, somado a uma alimentação altamente processada, que a levou, aos 23 anos, a viver com acne cística. Vieram os dermatologistas, os antibióticos, os tratamentos convencionais. E, no entanto, nada mudava de verdade.

É nesse ponto que a entrevista ganha força. Porque não fala de uma mudança instantânea nem de uma solução milagrosa. Fala de uma procura. Da passagem entre tratar sintomas e começar a fazer perguntas mais fundas. Da descoberta de que saúde não pode ser apenas aquilo que parece certo no papel, nem uma lista de alimentos vistos como bons ou maus. Joana desmonta precisamente essa ideia ao dizer que o termo “alimentação saudável” lhe diz pouco, porque o que é saudável para uma pessoa pode não ser funcional para outra.

E talvez este seja o centro de toda a conversa: a alimentação funcional não aparece aqui como rigidez, mas como afinação. Como uma forma de olhar para o corpo com mais contexto, mais intenção e mais inteligência. Não como uma dieta de proibição, mas como uma prática de relação. A Joana insiste que esta abordagem não restringe alimentos; acrescenta-os, organiza-os, utiliza-os em função de um objetivo. É uma mudança subtil na linguagem, mas profunda na forma de viver.

“O termo alimentação saudável para mim diz muito pouco, porque o que é saudável para mim pode não ser saudável para ti.As pessoas têm ideia de que uma alimentação funcional, uma dieta restritiva, não, não restringe alimentos, acrescenta alimentos e utiliza esses alimentos para um determinado objetivo.”

Mas a história não fica na comida. Porque o corpo nunca fala só da comida. Fala também do ritmo em que se vive, da forma como se trabalha, da hiperatividade, da ambição, da capacidade de aguentar — até deixar de aguentar. Ao longo do episódio, entra-se também no tema do burnout e na urgência de aprender a parar. Não como quem desiste, mas como quem finalmente percebe que continuar sempre em excesso não é força: é afastamento de si.

Há ainda outra camada importante nesta entrevista: a reflexão sobre aceitação. Joana fala desse lugar delicado onde tantas vezes se confunde aceitar com resignar-se. E é uma distinção importante, porque atravessa não só a forma como olhamos para o corpo, mas também a forma como vivemos as nossas mudanças. Aceitar não é desistir. Não é baixar os braços. É reconhecer o ponto em que se está, o desgaste que existe, o que já não pode continuar igual. E talvez seja por isso que esta conversa não soa a teoria: soa a caminho vivido.

No fundo, esta entrevista com a Joana Teixeira é menos sobre seguir regras e mais sobre aprender a ler sinais. Menos sobre parecer saudável e mais sobre perceber o que sustenta, regula e serve verdadeiramente cada corpo. E talvez seja isso que a torna tão relevante: lembrar-nos que, às vezes, a mudança começa quando deixamos de perguntar “o que é suposto fazer?” e começamos a perguntar “o que é que isto me está a querer mostrar?”.

Assinatura Isabel

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