Percebi que estes Desabafos DoBem são, no fundo, pequenas terapias para mim. No meio do rebuliço do dia a dia, sentar-me para falar contigo obriga-me a parar e a ouvir o que o meu coração anda a tentar dizer há semanas. Desta vez, o que me pede voz é a corrida e, mais concretamente, a preparação da Maratona de Tóquio.
Desde outubro de 2025 que a corrida tem sido a ferramenta mais presente na minha vida. Não é só sobre cruzar uma meta de 42 km, é sobre tudo o que acontece antes. A maratona entusiasma-me menos pelo número e mais pelo caminho. É nesse caminho que me organizo por dentro, que descanso a cabeça e que alinho a vida com aquilo que sinto que mereço viver. A preparação oferece-me três coisas que hoje sinto como ouro puro: prazer, disciplina e criatividade.
O prazer vem daquela sensação que só quem corre ao ar livre conhece. Há dias em que o pé quase nem toca no chão. Como não posso voar, corro. E, quando tudo encaixa, respiração, ritmo, cabeça, a sensação é mesmo essa: levitar um bocadinho sobre a vida.
A disciplina aparece quando percebo que treinar não é só calçar os ténis. É comer mais simples, dormir melhor, aprender a dizer não ao que me rouba energia. De nada vale treinar como atleta se depois descanso como amadora. E a criatividade chega nos treinos longos e nas séries na pista. O movimento repetido, o silêncio da natureza e a respiração a ganhar ritmo levam-me a um lugar em que o corpo se cansa, a mente abranda e a alma começa a falar. Muitas das grandes decisões da minha vida começaram assim, a meio de um treino.
Já perdi a conta ao número de maratonas que fiz, mas sei que Tóquio é especial porque fecha o circuito das seis Majors e acontece no ano em que faço 40 anos. Não é o número que me mexe, é a consciência com que lá chego. Aos 35 queria mudar hábitos, mas não me sentia pronta. Aos 39 sinto-me disponível para largar ansiedades velhas, expectativas que criei sobre mim e uma exigência interna que já não me serve.

Mesmo fazendo “tudo certo” na preparação, o corpo começou a dar sinais. Recuperava pior, tinha menos energia, acumulava gordura em zonas onde nunca tinha acontecido, sentia claramente que algo na parte hormonal não estava alinhado. Percebi, na pele, que o corpo não distingue stress bom de stress mau. Projetos, exposição, maratonas, tudo é estímulo. E, por mais saudável que pareça por fora, nenhum corpo aguenta viver sempre em modo ligado.
Foi por isso que precisei de me afastar um pouco das redes e voltar primeiro a mim. Escolhi parar para escutar o corpo, sentir as emoções e decidir que tipo de vida quero viver dos 39 em diante. O movimento vai continuar a ser a minha grande ferramenta de cura, mas com outra intenção. Não quero que o treino seja mais uma camada de pressão em cima de tudo. Quero que o meu corpo sinta que o exercício está ao lado dele, não contra ele.
Também tive de aceitar que já não posso preparar uma maratona como a Isabel de 33 anos. Hoje quero menos exigência cega e mais inteligência no treino. Quero respeitar o meu metabolismo feminino, o meu ritmo de trabalho, a minha vontade de viver com mais calma. Quero flexibilidade, força funcional, prazer e menos listas para cumprir.
Nas semanas antes de Tóquio fiz o que todos fazem, reduzi a carga de treino, mas fiz algo novo: reduzi também a carga mental. Protegi o descanso, evitei grandes decisões, tentei dosear melhor o entusiasmo. O corpo respondeu. Acordava com mais vontade, sentia-me mais leve, os ritmos saíam com menos esforço.
A dois minutos da partida, faço sempre o mesmo ritual. Olho para o céu, respiro fundo e deixo que a energia de milhares de pessoas me atravesse. Penso no tempo, no dinheiro e na energia que investi para estar ali e lembro-me do meu único objetivo real: curtir o caminho, chegar à meta e sentir que dei o meu melhor sem me abandonar.
Se este desabafo te fez pensar na forma como andas a lidar com o teu próprio stress, talvez seja um bom momento para te perguntares que tipo de movimento, de descanso e de vida é que o teu corpo te está a pedir agora. Porque mexer o corpo é importante, mas aprender a abrandar e a regenerar é, hoje, a verdadeira linha de meta.






