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Episódio #41

Cancro e exercício físico: a medicina do movimento

Durante demasiado tempo, falámos de exercício físico como se fosse apenas uma forma de emagrecer, tonificar, compensar excessos ou melhorar a imagem ao espelho. Mas talvez essa seja a forma mais pobre de olhar para o movimento.

Quando falamos de cancro e exercício físico, a conversa torna-se mais séria, mais delicada e muito mais profunda. Porque o corpo deixa de ser apenas uma imagem. Passa a ser território de sobrevivência, reserva, autonomia, recuperação e futuro.

No novo episódio do Bela DoBem, com Pedro Correia, treinador, atleta e empreendedor, partimos de uma história pessoal — um diagnóstico de linfoma de Hodgkin aos 25 anos, tratamentos agressivos, uma recidiva e um auto-transplante de medula — para abrir uma pergunta maior: e se treinar não fosse apenas preparar o corpo para parecer melhor, mas prepará-lo para viver melhor?

O corpo que se vê não é o mais importante

A cultura do fitness habituou-nos a olhar para o treino pelo lado mais imediato: peso, forma, músculo visível, antes e depois, performance. Mas o corpo mais importante é, muitas vezes, o que não aparece na fotografia.

É o corpo que tem força para se levantar, que tem massa muscular suficiente para atravessar fases exigentes, que recupera melhor, que mantém autonomia, que sobe escadas, carrega compras, reage a uma queda, brinca com filhos ou netos, caminha, resiste, adapta-se.

O treino físico, quando é bem estruturado, não serve apenas para mudar uma silhueta. Serve para melhorar função. E função é liberdade.

A pergunta deixa de ser: “como quero parecer?”
E passa a ser: “que corpo quero ter disponível para a minha vida?”

O músculo é uma reserva de saúde

Uma das grandes ideias deste episódio é esta: o músculo não é apenas um motor de movimento. O músculo comunica com o corpo. Está ligado ao metabolismo, à imunidade, à gestão da glicose, à resposta ao stress, à recuperação e ao envelhecimento. Ter músculo não é uma vaidade estética. É ter margem. E em fases de doença, essa margem pode fazer diferença.

Durante os tratamentos, o Pedro chegou a um ponto em que o seu “treino” era apenas levantar-se da cama, caminhar até ao fundo do corredor e voltar. Parece pouco para quem olha de fora. Mas, naquele contexto, era imenso. Porque há momentos em que treinar não é levantar peso. É levantar o corpo. É não perder completamente a relação com ele. É fazer o possível dentro do impossível.

O corpo avisa antes de gritar

Antes do diagnóstico, havia sinais: cansaço fora do habitual, comichões intensas, alterações na pele, um nódulo no pescoço.

Como o Pedro tinha uma boa capacidade física, parte desse cansaço foi normalizado. E este é um ponto essencial: muitas vezes, não nos falta apenas saúde. Falta-nos literacia corporal.

Fomos ensinados a empurrar sintomas para a frente. A normalizar dores, cansaços persistentes, desconfortos repetidos, alterações de pele, digestões difíceis, noites mal dormidas, ansiedade constante, dores de cabeça frequentes. Não se trata de viver em medo. Trata-se de escutar melhor.

O corpo nem sempre começa por gritar. Às vezes começa por sussurrar. E aprender a ouvir esses sinais também é saúde.

Cancro e exercício físico: não basta dizer “mexa-se”

Quando falamos de exercício físico na oncologia, é preciso cuidado. O treino não substitui tratamentos médicos. Não é promessa de cura. Não é romantização da força. E não deve ser usado para culpabilizar quem está doente. Mas também já não faz sentido tratar o movimento como acessório.

A questão não é dizer a uma pessoa com cancro “mexa-se”. A questão é perceber que tipo de movimento, em que fase, com que intensidade, com que supervisão e com que objectivo.

A American Cancer Society refere que a actividade física pode ser segura para muitas pessoas com cancro, mas deve ser articulada com a equipa de saúde. A ASCO recomenda exercício aeróbio e de resistência durante tratamentos com intenção curativa, sempre de forma adaptada ao contexto clínico. E o estudo CHALLENGE, publicado no New England Journal of Medicine, veio reforçar a importância do exercício estruturado em contexto oncológico, neste caso após quimioterapia adjuvante em cancro do cólon.

Ou seja: o ponto não é “fazer qualquer coisa”.
O ponto é o treino certo, no momento certo, com a orientação certa.

A cura também se constrói depois dos tratamentos

Há uma ideia que atravessa esta conversa e que talvez seja uma das mais importantes: a cura não acaba quando alguém ouve “está curado”. A medicina salva vidas. Os tratamentos são fundamentais. Mas depois há uma pergunta que continua: o que faço com a vida que ficou?

Foi essa inquietação que levou o Pedro a estudar mais sobre treino, nutrição, recuperação, stress, trauma, longevidade e saúde. Não para substituir a medicina, mas para participar mais activamente no próprio processo. Porque há uma parte da saúde que se constrói no quotidiano.
No sono.
Na alimentação.
Na gestão do stress.
Na massa muscular.
No movimento.
Na forma como habitamos o corpo depois de ele ter sido atravessado por medo, dor e incerteza.

Força não é sobre músculos grandes. É sobre liberdade.

A partir dos 40 anos, começamos a perder força quando não existe estímulo adequado. E perdemos ainda mais depressa potência muscular: a capacidade de produzir força rapidamente. Isto importa porque a vida não pede apenas resistência. Pede reacção.

Pede levantar de uma cadeira.
Subir escadas.
Evitar uma queda.
Correr para apanhar um transporte.
Carregar compras.
Brincar com netos.
Continuar independente.

Por isso, caminhar é importante, mas pode não chegar. O corpo precisa de estímulos variados: força, potência, mobilidade, estabilidade, trabalho cardiovascular, respiração e recuperação.

Treinar, neste sentido, deixa de ser um projecto de verão. Passa a ser uma estratégia de longevidade.

O treino muda mais do que o corpo

Talvez o maior resultado do treino não seja o corpo que se vê.

É a confiança que nasce quando sentimos progressão.
É a autoestima que se constrói quando cumprimos um compromisso connosco.
É a força mental que aparece quando percebemos: “eu consigo mais do que achava”.
É a forma como levamos essa sensação para a vida.

No fundo, o treino ensina uma coisa simples e profunda: o corpo pode ser um lugar de reconstrução. E talvez seja essa a grande mensagem deste episódio. Não treinar para castigar o corpo. Não treinar para caber num ideal. Não treinar para vencer a doença com força de vontade.

Mas treinar para ter mais corpo.
Mais reserva.
Mais autonomia.
Mais futuro.

Ouve o episódio completo do Bela DoBem com Pedro Correia e descobre porque é que o exercício físico pode ser muito mais do que performance: pode ser uma forma de saúde, autonomia e vida.

Nota: este conteúdo não substitui aconselhamento médico. Em contexto de doença oncológica, o exercício físico deve ser sempre adaptado ao estado clínico e acompanhado por profissionais qualificados.

Assinatura Isabel

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