No episódio 40 do Bela DoBem, sentei-me à conversa com o Another Angelo para falar sobre amor, presença, criatividade e essa coisa tão simples, tão difícil e tão urgente: fazer o bem.
O Ângelo escreve e desenha coisas, como o próprio diz. Mas, para mim, aquilo que ele faz vai um bocadinho mais fundo: ele pega em sentimentos difíceis de nomear e devolve-os ao mundo com humor, ternura, inteligência e uma simplicidade que só parece simples depois de estar feita.
A conversa começou com uma pergunta grande: o que é o amor? E foi por aí que entrámos.
Não no amor apenas romântico, mas no amor como forma de atenção. Como presença. Como cuidado. Como maneira de olhar para as pessoas, para o trabalho, para a criação, para os animais, para a vida e até para alguém que passa por nós na rua e a quem escolhemos dirigir uma palavra mais bonita.
Há uma frase do Ângelo que ficou a ecoar em mim: “o amor é a melhor coisa para a coisa melhorar.” E talvez seja mesmo. Porque quando há amor — amor verdadeiro, não frase feita — há mais escuta, mais cuidado, menos alerta, mais segurança emocional. Há um regresso ao corpo. À respiração. Àquilo que nos aproxima.
Estar disponível também é uma prática
Uma das partes mais bonitas desta conversa nasceu de uma coisa aparentemente banal: a curiosidade.
O Ângelo contou-me que consegue parar na rua para observar alguém a fazer uma passadeira, só porque quer perceber como se faz. E eu reconheci imediatamente essa forma de estar. Também gosto de reparar nos detalhes, nas pessoas, nas conversas pequenas, nos encontros improváveis. Porque muitas vezes aquilo que nos inspira não chega quando estamos a forçar uma resposta. Chega quando caminhamos. Quando olhamos para o mar. Quando repetimos um gesto simples. Quando deixamos a mente esvaziar o suficiente para alguma coisa nova poder entrar.
Há uma profundidade enorme no trivial, quando estamos realmente presentes.
Uma conversa pequena pode tornar-se a história do almoço. Um cheiro pode devolver-nos uma memória inteira. Uma caminhada pode trazer uma ideia. Um desconhecido pode deixar-nos uma frase que muda o dia. Mas para isso é preciso uma coisa que parece cada vez mais rara: disponibilidade.
As redes, a comparação e aquilo que escolhemos consumir
Também falámos sobre redes sociais. Sobre o lado bonito do digital, mas também sobre o lado que nos rouba presença. O Ângelo usa as redes para criar pequenas pausas no meio do scroll. Para deixar uma frase, uma imagem, uma ideia que faça alguém parar dois segundos e sentir qualquer coisa boa. Mas há o outro lado: a comparação. O hábito de vermos os outros a fazerem coisas e acharmos que também devíamos estar a fazer aquilo, mesmo quando aquilo não tem nada a ver connosco.
E aqui ficou uma imagem muito clara: as redes são uma rede. Nós escolhemos o peixe que queremos comer.
Podemos consumir aquilo que nos inspira, acrescenta e faz bem. Ou podemos continuar a expor-nos a conteúdos que nos deixam mais ansiosos, menores, dispersos ou em falta. Não se trata de demonizar o digital. Trata-se de recuperar escolha.
O bloqueio criativo às vezes precisa de pausa, não de pressão
Quando entrámos no processo criativo, percebi uma coisa muito importante no Ângelo: ele é profundamente intransigente com a sua liberdade de criação. E isto não é capricho. É condição.
Para ele, a criatividade precisa de espaço. De margem. De tempo não programado. De dias que tenham alguma incógnita. De poder pegar numa ideia quando ela aparece, seja às 11h da manhã ou às 23h da noite. Ele aponta tudo: ideias boas, ideias estranhas, ideias que talvez sejam para agora, para daqui a uns meses ou para daqui a anos. Cadernos, post-its, blocos de notas, papéis soltos. Tudo pode ser lugar de semente. Mas há uma regra de fundo: a criatividade precisa de espaço para respirar.
Quando o dia está cheio de tarefas, lembretes, horários e mil pequenas obrigações em segundo plano, a ideia pode até chegar. Mas dificilmente ganha corpo. A mente divide-se. A energia dispersa-se. A criação perde força.
E talvez esta seja uma das grandes mensagens deste episódio: quem quer criar precisa de proteger a sua liberdade criativa. Não de forma irresponsável. Não como fuga à vida prática. Mas como compromisso sério com aquilo que quer construir. Porque uma ideia não nasce apenas da vontade. Nasce também das condições que criamos para a receber.
No fim, perguntei ao Ângelo que mensagem queria deixar ao mundo. E a resposta voltou ao lugar mais simples: levar a vida com mais leveza. Fazer o bem. Praticar o bem com as pessoas que possam estar a precisar dele.
A vida fica mais bonita quando praticamos o bem.
No desporto, isso chama-se fair play. Na arte, empatia. Na comunicação, generosidade. Nas relações, cuidado. No dia a dia, pode ser apenas uma frase dita com carinho, uma escuta mais atenta, uma presença menos apressada. Talvez seja isso que une toda esta conversa: amor, presença e criatividade não são coisas separadas.
Quando estamos presentes, amamos melhor. Quando amamos melhor, escutamos melhor. Quando escutamos melhor, criamos melhor. Quando criamos melhor, devolvemos alguma coisa ao mundo. E talvez a pergunta não seja “como é que posso fazer mais?”, mas antes:
O que preciso de retirar para conseguir estar inteiro no que faço?
Porque a criatividade não aguenta uma agenda cheia. O amor também não. A presença muito menos. E, ainda assim, é nesse espaço que a coisa pode começar a melhorar.
Podes conhecer melhor o trabalho do Ângelo no Instagram e no site oficial.






