Na DoBem, interessa-nos olhar para a saúde a partir de várias perspetivas, sobretudo quando falamos de prevenção, regeneração e recuperação do organismo. Foi por isso que convidámos Carina Guerreiro, fundadora da OxyClinic, a escrever sobre o papel do oxigénio em diferentes contextos clínicos e terapêuticos.
Com formação em enfermagem e um percurso nas áreas da saúde integrativa, medicina preventiva, ozonoterapia e oncologia integrativa, a Carina tem vindo a explorar abordagens centradas na regeneração e na capacidade do organismo para recuperar. Neste artigo, partilha a sua perspetiva sobre um tema que continua a despertar curiosidade e debate: de que forma pode o oxigénio apoiar a recuperação e a qualidade de vida.
E se muitas doenças tivessem, em comum, algo tão simples… como falta de oxigénio?
Ao longo da prática em saúde integrativa, foi-se tornando cada vez mais evidente que diferentes condições (inflamação crónica, infeções persistentes, dor prolongada, cicatrização difícil, fadiga) partilhavam frequentemente um mesmo terreno biológico: tecidos mal oxigenados e menor capacidade de regeneração.
Este interesse não surgiu apenas do ponto de vista clínico, mas também de um percurso progressivo na área da saúde, iniciado com formação em enfermagem e aprofundado posteriormente através de diferentes abordagens da saúde integrativa, medicina preventiva, acupuntura e medicina japonesa. A procura foi sempre a mesma: compreender o organismo como um todo e encontrar formas de melhorar a sua capacidade de regeneração.
O primeiro contacto com as terapias bio-oxidativas surgiu através da ozonoterapia, inicialmente em contexto pessoal, devido a uma ciática persistente e posteriormente no âmbito de uma patologia autoimune com dores articulares recorrentes. A utilização da ozonoterapia injetável levou a melhorias significativas, despertando um interesse mais profundo por esta área e pelas terapias baseadas no oxigénio.
A ozonoterapia médica é uma terapia bio-oxidativa que utiliza uma mistura de oxigénio e ozono medicinal com o objetivo de melhorar a oxigenação dos tecidos, modular a inflamação, apoiar o sistema imunitário e estimular a regeneração. Pode ser aplicada de diferentes formas, incluindo infiltrações locais, auto-hemoterapia, aplicações sistémicas indiretas, insuflações e aplicações tópicas, dependendo da indicação clínica. É utilizada em situações como dor inflamatória, infeções persistentes, fadiga, patologia autoimune, cicatrização difícil e suporte regenerativo.
Foi através destas terapias que esta visão começou a ganhar forma. Observavam-se melhorias clínicas relevantes, mesmo em situações complexas, algumas delas com infeção persistente apesar de terapêutica antibiótica prolongada.
Com o tempo, tornou-se evidente a necessidade de integrar também a oxigenoterapia hiperbárica. Na vida diária respiramos ar com cerca de 21% de oxigénio à pressão atmosférica normal. Dentro de uma câmara hiperbárica, o paciente respira oxigénio a uma pressão superior, o que permite aumentar significativamente a quantidade de oxigénio dissolvido no sangue e a sua chegada aos tecidos. Este aumento da oxigenação melhora a microcirculação, reduz a inflamação e favorece os mecanismos naturais de regeneração.
A OxyClinic nasce deste conceito. Um projeto que esteve a maturar durante cerca de cinco anos, período em que foram recolhidas experiências e conhecimento em vários países, incluindo Alemanha, Espanha, Estados Unidos e Dubai. Durante esse tempo, a ideia foi sendo construída, consolidando uma visão integrativa da medicina.
Foi também durante o período da pandemia que muitas destas ideias amadureceram. Após o período COVID, surgiu a decisão de avançar e assumir o risco de criar um espaço dedicado a esta abordagem. A OxyClinic nasceu há cerca de três anos, com o objetivo de integrar terapias regenerativas, ozonoterapia e medicina hiperbárica numa abordagem estruturada e multidisciplinar.

Apesar de, por vezes, este tipo de abordagem ainda ser mal compreendido, a visão é clara: existe apenas uma medicina. O objetivo deve ser integrar diferentes ferramentas com base na evidência, competência e experiência clínica, sempre com foco no doente.
Para mim, essa integração é uma prioridade. E, por isso, na Oxyclinic, o trabalho é desenvolvido em equipa, com profissionais da medicina convencional e terapias complementares, com o objetivo de aumentar a competência clínica, melhorar a qualidade dos cuidados e validar uma abordagem verdadeiramente integrativa.
Foi neste contexto que surgiu uma história difícil de esquecer.
O Tiago era um homem jovem, com menos de 40 anos, com diabetes tipo I insulinodependente desde a adolescência. Chegou com uma ferida no pé que não cicatrizava e com um cenário já colocado: amputação.
Apresentava infeção persistente, mesmo após cerca de dois anos de antibioterapia contínua. A vascularização estava comprometida, o tecido fragilizado e a cicatrização não evoluía.
Foi iniciado um protocolo integrativo com oxigenoterapia hiperbárica associada à ozonoterapia e acompanhamento global. O processo foi gradual. Sessão após sessão, começaram a surgir sinais de melhoria. A inflamação reduziu, a perfusão tecidular melhorou e a ferida iniciou processo de cicatrização.
A amputação foi evitada. E, com ela, evitou-se muito mais do que a perda de um membro. Evitou-se uma mudança radical na vida de um homem jovem. Evitou-se a perda de autonomia, o impacto psicológico, a limitação física e a necessidade de um longo processo de reabilitação.
Não foi um milagre. Foi o organismo a recuperar quando teve melhores condições para o fazer.
Ao longo do tempo, outras histórias foram reforçando esta experiência.
Como o caso de uma paciente com fibromialgia, marcada por dor crónica generalizada, fadiga intensa e grande limitação funcional. Após integrar a oxigenoterapia hiperbárica no plano terapêutico, começou a relatar menos dor, melhor qualidade do sono e aumento progressivo da energia.
Também na surdez súbita surgem histórias particularmente marcantes. Quando a intervenção é precoce, a oxigenoterapia hiperbárica pode melhorar a oxigenação do ouvido interno e apoiar a recuperação auditiva.
Outro exemplo ocorreu após uma abdominoplastia, onde houve dificuldade na cicatrização com morte de parte do tecido. Nestes casos, a oxigenoterapia hiperbárica pode melhorar a oxigenação, apoiar a viabilidade tecidular e favorecer a cicatrização. Pode também ser utilizada de forma preventiva em cirurgias estéticas, reduzindo o risco de complicações.
Importa, no entanto, reforçar: a oxigenoterapia hiperbárica não é a cura para todas as situações. Mas apresenta uma grande capacidade de apoiar a regeneração e é também utilizada em situações de urgência, como infeções graves dos tecidos moles, pé diabético complicado, isquemia tecidular, enxertos comprometidos ou intoxicação por monóxido de carbono.
Para além destes contextos clínicos, é também utilizada em performance. Como no caso da Isabel Silva, em contexto de alta performance, antes e após maratonas, para melhorar recuperação muscular e reduzir inflamação. Esta aplicação é comum em atletas e jogadores de alta competição.
Seja em doença, recuperação cirúrgica, urgência ou performance, o princípio é o mesmo: dar ao organismo melhores condições para regenerar. E, muitas vezes, tudo começa com algo tão essencial… como o oxigénio. Porque melhorar a oxigenação dos tecidos não é apenas tratar doença. É apoiar recuperação. É potenciar regeneração. É devolver qualidade de vida.

Carina Guerreiro é CEO e fundadora do Grupo OxyClinic – Medicina Regenerativa, Oncológica e Hiperbárica, dedicado à saúde integrativa, medicina preventiva, longevidade e oncologia integrativa avançada.
Licenciada em Enfermagem, especialista em Ozonoterapia Médica, tem formação avançada em saúde integrativa, com especial interesse em oncologia integrativa e medicina preventiva.
Realizou formação em Acupuntura, Medicina Japonesa e Medicina Preventiva, desenvolvendo um modelo clínico holístico e integrativo.
