Em dezembro, quase sem darmos conta, o Natal passa a ser uma lista infinita de coisas para comprar: presentes, comida, decoração, roupa “para a ocasião”. A certa altura, já nem sabemos se estamos a celebrar… ou apenas a tentar cumprir checklists.

Na DoBem, acreditamos que saúde também é isto: questionar o ritmo, o consumo, a forma como ocupamos o nosso tempo e o nosso dinheiro. E que falar de equilíbrio passa, inevitavelmente, por falar de sustentabilidade.

Por isso convidámos a Rita Tapadinhas, fundadora do projeto Plant a Choice – uma plataforma que torna a sustentabilidade e a redução de desperdício mais simples e prática no dia a dia, com foco em consumo consciente, reutilização, alimentação sustentável e hortas urbanas.

Pedimos-lhe uma crónica honesta sobre esta pergunta simples e desconfortável: afinal, para que serve o Natal? A seguir, encontras o texto na íntegra, tal como a Rita o escreveu – e, mais abaixo, algumas respostas e ideias práticas para um Natal com menos desperdício e mais propósito.


Para que serve o Natal?

por Rita Tapadinhas

Entre as decorações nas ruas, a música temática na rádio, os jantares de Natal e os descontos para a compra de presentes, é impossível não pensar no Natal por esta altura. Dezembro é, para muitos, sinónimo de quadra natalícia e os primeiros 23 dias do mês são passados em antecipação dos 24° e 25°.

O Natal é a altura em que a azáfama do dia-a-dia é substituída pela azáfama das compras de presentes, das compras para a ceia, das compras de outfits para as festas e, em muitos casos, das compras de nova decoração natalícia para a casa. É um período em que as listas de compras competem com as listas de tarefas, ou, dizendo melhor, em que as compras se transformam em tarefas.

Talvez esteja na altura de parar um pouco para pensar em qual o sentido de tudo isto. Para que serve o Natal?

  • Para estar mais tempo com a família?
  • Para nos conectarmos com o nosso lado mais solidário?
  • Para estar mais em casa, envoltos em mantas, a ver filmes?
  • Para comer pratos e doces que não costumamos cozinhar durante o resto do ano?
  • Para comprar coisas?

É certo que, para muito do que fazemos, é preciso fazer compras, mas os níveis de consumo no Natal excedem muito o real necessário e tendem a crescer: no ano passado, segundo a SIBS Analytics, o número e o valor total de compras realizadas nos primeiros 24 dias de dezembro aumentaram 15% face ao ano anterior.

Para que será que todas estas compras e todo este consumo servem? É para isto que serve o Natal? Para que outros propósitos poderíamos utilizar o dinheiro que nos sobraria se não comprássemos tantas coisas? Para que outros fins poderíamos usar o tempo que teríamos a mais? Não conseguiríamos reutilizar as decorações de anos anteriores? Não poderíamos trocar o vestido que levámos no ano passado à festa de Natal de empresa com o que a nossa amiga/mãe/irmã levou à dela, em vez de estarmos as duas a comprar um vestido novo? Não poderíamos planear melhor a ceia de Natal, de forma a não gerar tantas sobras que uma semana depois vão acabar no lixo? A nossa carteira, e o ambiente, agradeceriam com certeza.

Ora, numa altura conturbada a nível global, podemos argumentar que, ainda mais do que há alguns anos atrás, a azáfama do Natal traz um pouco de luz e distração às preocupações do resto do ano. O Natal é, sem dúvida, uma altura feliz para muitos, mas, como em tudo na vida, faz sentido refletir sobre o que é essencial e importante, e o que está a mais. Fazer um consumo mais consciente traz-nos vantagens financeiras, liberta-nos mais tempo para estar com a família ou a fazer aquilo de que mais gostamos, e ajuda o ambiente.

Este Natal, sugiro pensarmos em qual o propósito desta quadra e fazermos as nossas escolhas de acordo com isso. A resposta será diferente para cada um, mas, se para si o Natal não servir para fazer compras, então faz sentido que toda a quadra gire à volta delas?

Como comecei a encontrar respostas para estas perguntas

Quando comecei a refletir sobre o excesso de consumo e desperdício associados ao Natal, foi impossível não fazer alterações aos meus hábitos. O resultado foram Natais mais simples, com decorações e presentes mais intencionais, e alguma poupança também. Eis alguns dos hábitos que alterei: 

No que toca à decoração, comecei a procurar aquilo de que preciso, dentro do que já tenho, antes de pensar em comprar.
A solução mais óbvia é, sem dúvida, reutilizar as decorações de anos anteriores, mas também comecei a criar os meus próprios enfeites a partir de materiais reutilizados, como rolhas de cortiça, corda de sisal, cera de velas que já não acendem, raminhos de alecrim…

O objeto que mais reutilizo mais é, sem dúvida, a árvore (no meu caso, uma artificial). É a mesma desde sempre, embora gostasse muito da ideia de ter uma natural. Para já, o plano é mantê-la sendo que, num dia que queira ter uma árvore natural, quero optar por uma que provenha de uma iniciativa responsável, como a limpeza de matas e prevenção de incêndios. 

Relativamente aos embrulhos, já é muito raro utilizar papel “novo” para os fazer.
Entre papel de jornais e revistas, caixas de cereais viradas do avesso e decoradas com canetas de cor, ou pedaços de tecido, consigo embrulhar quase todos os presentes com materiais reutilizados.

No caso dos presentes, priorizo experiências ou algo que possa ser consumido.
Às vezes é difícil acertar nos gostos de todas as pessoas a quem vamos oferecer prendas, o que pode, frequentemente, levar a compras sem sentido só para “despachar” a lista de presentes. Para evitar isso, escolho, muitas vezes, opções consumíveis (produtos de beleza, higiene, ou mesmo alimentares), porque sei que mais facilmente não ficarão esquecidos num armário, sem qualquer utilidade. Uma alternativa que também tenho testado mais recentemente é oferecer experiências, como uma aula de olaria, um jantar ou uma ida ao teatro. 

7 coisas que não vou comprar neste Natal

Ao longo do tempo, fui identificando vários “focos de desperdício” desta quadra, que tenho tentado evitar: 

1. Decorações novas 

Existe todo um estímulo exterior para comprarmos mais enfeites para a árvore de Natal, mais canecas natalícias, almofadas temáticas… mas, se já tenho decorações do ano passado, e consigo criar novas com materiais reutilizados, para quê continuar a consumir mais?

2. Presentes sem sentido

Pior do que as compras impulsivas, que acabam rapidamente guardadas para sempre e sem utilização, são os presentes sem sentido, que nem sequer foram escolhidos por quem os recebeu. Tento mesmo, todos os anos, dedicar algum tempo a pensar no que oferecer a cada pessoa, e não apenas a “despachar” a lista de presentes.

3. Papel de embrulho

O papel de embrulho é um descartável com um tempo de utilização muito curto e a verdade é que podemos fazer embrulhos muito bonitos com materiais reutilizados. Aos poucos, notamos que as pessoas a quem oferecemos presentes embrulhados em materiais “pouco convencionais”, como papel de jornal, caixas de cartão reutilizadas, ou pedaços de tecido, começam também a oferecer os seus presentes assim. 

4. Roupa alusiva à época

As camisolas de Natal cheias de cores, figuras, padrões e, às vezes, até com luzes, chamam, sem dúvida, a atenção de qualquer um, mas acabam a ter utilidade apenas uma ou duas vezes. Será que faz sentido o investimento financeiro e ambiental? Se forem de uma marca de fast fashion, as questões sociais e ambientais associadas tenderão a ser ainda maiores.Em vez de investir nisso, prefiro usar roupa que já tenho e que sei que vou continuar a usar o resto do ano. 

5. Musgo

O musgo fica, sem dúvida, muito bem em decorações natalícias, mas a sua colheita contribui para ameaçar várias espécies importantes para a saúde dos ecossistemas. Com tantas alternativas para decorar a casa, não há mesmo necessidade de exercer mais uma pressão sobre a natureza.

6. Doces ou pratos que ninguém quer realmente

Há pratos e doces que fazem parte da tradição de Natal, mas que acabam repetidamente a ser desperdiçados ano após ano. Nesse caso, acredito que faz mais sentido deixar a tradição de parte e optar por alternativas que sabemos que são apreciadas pelas pessoas com quem vamos passar a quadra. 

7. Roupa nova para cada festa

É muito tentador comprar roupa nova para o jantar de empresa, para a consoada ou para o dia 25, mas, na maioria dos casos, já temos em casa tudo o que precisamos. Repetir roupa, especialmente em ocasiões especiais, é um ato simples de consumo consciente. E, se alguém reparar, pode ser o ponto de partida perfeito para falar de sustentabilidade. 

Talvez o Natal não precise de ser perfeito, apenas mais verdadeiro: menos centrado em coisas, mais focado em tempo, presença e escolhas que nos façam sentido.

Se este texto te fez olhar para a tua lista de compras com outros olhos, não é para te encher de culpa – é para te lembrar que tens margem para escolher diferente. Um objeto a menos, uma conversa a mais, um prato que não se desperdiça, uma prenda pensada com calma. São pequenas decisões, mas somam-se.

Na DoBem, queremos que cada dezembro seja um convite a esta pergunta: o que é que, para ti, faz mesmo o Natal valer a pena? A partir daí, tudo o resto pode ser afinado.

Rita Tapadinhas é fundadora do projeto Plant a Choice, onde partilha, em formato digital, formas simples de viver com menos desperdício: desde dicas de reutilização e receitas anti-desperdício até consumo consciente e hortas urbanas em espaços pequenos. É licenciada e mestre em Gestão pela Nova SBE, foi consultora estratégica e hoje dedica-se a criar conteúdos, e-books, workshops e consultoria em sustentabilidade para pessoas e negócios.