Esta não é a história só de um atleta profissional: é a história de alguém comum que decidiu fazer da maratona uma forma de cuidar de si hoje, e do homem que quer ser daqui a 20 ou 30 anos. Pedimos ao Rui Pereira D’Ascensão que nos contasse porque corre. E ele escreveu para nós.


Tenho 49 anos, sou casado e pai da Laura, de 12. A minha vida é cheia: jantares com amigos, jogos de padel, idas ao futebol com o grupo do costume, fins de semana em família. Sempre tive atividade física: no verão raquetes e vólei de praia, no inverno esqui na neve. Apesar de não conseguir estar quieto, nunca me tinha dado para correr.

O meu percurso de corredor/maratonista começou como o de tantos outros: uma brincadeira. Alguém nos desafia para uma corridinha ao final do dia ou de manhã, e quando damos por nós já estamos inscritos numa prova de 5 ou 10 km. No meu caso, foi a minha mulher — a Sofia — que corria com um grupo e precisava de companhia em alguns treinos. Sempre gostei de desporto, mas nunca tinha sentido vontade de correr. Ainda hoje, para ser sincero, não “adoro” correr. O que eu gosto — e muito — é do que sinto quando volto dos treinos e das provas: um bem-estar que nenhuma outra atividade me deu.

Depois de algumas provas até 10 km, em 2015, já depois de termos treinado algumas vezes juntos, a Isabel desafiou-me para ir com ela à Corrida das Fogueiras: quinze quilómetros noturnos em Peniche. A envolvência das fogueiras e o apoio das pessoas fizeram-me sentir, pela primeira vez, um corredor a sério. Pouco depois, já estava inscrito na meia maratona de Lisboa e, com um grupo de amigos, na meia de Paris. Nessa altura já se falava em maratonas, mas eu dizia sempre que não era para mim.

Até que, empurrado pela dinâmica do grupo (já tínhamos ultrapassado tantas barreiras juntos), acabei inscrito na Maratona de Sevilha. A prova correu bem: muito treino, calma, uma maratona plana. Uma experiência para a vida. Mas, na minha cabeça, irrepetível.

Claro que não foi.

A maratona tem um poder quase aditivo. Quando é treinada com seriedade, o caminho custa, mas é progressivo e recompensador. Criam-se rotinas, a vida reorganiza-se à volta do objetivo. E aquilo que inicialmente parece que nos vai roubar tempo… acaba por nos dar mais tempo. Ao reservar uma hora por dia para treinar, tudo o resto começou a encaixar: alimentação, descanso, horários. A corrida devolveu-me estrutura.

A Maratona de Nova Iorque e um novo horizonte

Lembro-me perfeitamente do momento em que recebi o e-mail da Maratona de Nova Iorque. Estava no carro, parado à porta de casa, depois de um dia caótico. Abri o telemóvel quase por reflexo. Quando li “You’ve been accepted”, senti uma descarga elétrica pelo corpo inteiro, como se alguém me tivesse abanado. Fiquei quieto, de coração acelerado.

Já tinha feito Sevilha e Barcelona, mas sabia que aquele e-mail significava algo maior: a oportunidade de correr a maratona mais famosa do mundo.

Foi em Nova Iorque que descobri o Hall of Fame dos Six Star Finishers, quem completa as seis Majors (Tóquio, Boston, Londres, Berlim, Chicago e Nova Iorque). Na altura, só 17 portugueses tinham a medalha. Hoje, em 2025, somos mais de 120. E eu sou um deles.

Percebi ali que tinha um objetivo maior, de longo prazo. Achei que me levaria uma década a concluir. Sete anos depois, com uma pandemia pelo meio, conquistei a Six Star Medal.

A busca pelo sub-3h… e o desfecho que não esperava

Em Berlim, em 2019, estive muito perto do sub-3h (3h03). Isso fez-me acreditar que podia lá chegar. E foi no Porto, em 2021, na minha primeira maratona em Portugal, que “bati no muro” a sério. Aos 23 km as pernas simplesmente deixaram de responder. Rebentei.

Mas nesse dia não podia desistir. A minha filha tinha ido apoiar-me, estava com amigos à minha espera. Mais tarde soube que, quando comecei a atrasar-me e alguém sugeriu que algo podia ter acontecido, ela respondeu: “O meu pai não desiste.”

E eu não desisti. Caminhei, corri devagar, apoiado por um amigo, o Marco, que atravessava problemas de saúde e, mesmo assim, não me deixou para trás. Nunca esquecerei.

Voltei a tentar em Chicago, onde fiz 3h02. Fui com ritmo de sub-3h até quase ao fim, mas faltou força nos quilómetros decisivos.

Hoje, com quase 50 anos, sei que não quero voltar a perseguir o sub-3h. As tentativas foram desafiantes, mas não desfrutei das maratonas — sobretudo nos quilómetros finais. E carreguei depois lesões que, tenho a certeza, nasceram desse esforço extra.

No dia 16 de novembro de 2025 corri a Maratona de Palermo. Fiz 3h18. Com desafios diferentes: calor, altimetria, repetição de percurso — e, ainda assim, com um sorriso enorme, feliz, cheio de vontade de fazer mais. Não desisti do propósito; apenas ajustei as expectativas. Continuo a sentir-me competitivo, mas mais sábio.

O privilégio de cuidar de mim

A maratona ensinou-me que cuidar de mim não é um luxo — é uma responsabilidade. Treinar não é apenas correr:

  • é dormir melhor
  • é comer melhor
  • é gerir o stress
  • é ser mais produtivo no trabalho
  • é ser mais paciente em casa
  • é estar mais presente com os amigos

Com cada maratona cresce a minha convicção: acredito profundamente que, se continuar a correr, chegarei à velhice com mais saúde, mobilidade e lucidez.

A corrida — e especialmente a maratona — dá-me algo que nenhum outro desporto me deu: uma transformação física e mental que se prolonga no tempo. Não é apenas sobre o presente; é sobre garantir que o meu futuro terá qualidade.

Talvez nunca sintas vontade de correr uma maratona. Talvez nem gostes de correr. E está tudo bem. Porque, no fundo, todos vivemos a nossa própria maratona — no trabalho, na família, nas responsabilidades que se acumulam, nas decisões difíceis, nos dias em que parece que não temos mais para dar.

O importante não é a velocidade, é a consistência.
Não é a perfeição, é aparecer todos os dias.
Não é a meta, é quem nos tornamos no caminho.

E se cuidares de ti um pouco todos os dias — seja correr, caminhar, fazer yoga, meditar ou simplesmente respirar com intenção — vais perceber que a vida também se organiza, se acalma, se alinha.

O futuro que estou a preparar hoje

Gosto de imaginar-me com 70 ou 80 anos, a calçar os ténis devagar, mas ainda a calçá-los. A subir escadas com a minha neta pela mão, sem medo de falhar um degrau. A caminhar rápido, com lucidez, força e liberdade.

E imagino a Laura (a minha filha) comigo, anos depois, a calçar ténis para uma prova, e eu a correr ao lado dela, partilhando cada quilómetro, cada sorriso, cada esforço — transmitindo-lhe o que aprendi ao longo de todos estes anos.

Esse é o amanhã que estou a construir hoje, quilómetro a quilómetro, treino a treino.

A maratona não é apenas uma prova.
É uma forma de ser.
É a garantia de que continuo — hoje e amanhã — a cuidar da melhor versão de mim.

Rui Pereira D’Ascensão
Engenheiro civil e fundador do projecto 10kapas