cápsula de flutuação

Lifestyle

Passei 50 minutos no limbo (ou, vá, numa cápsula de flutuação)

Não se vê nada. Não se cheira e não se ouve. A noção de tempo desaparece. O corpo descansa. Dentro daquela cápsula, a dimensão é outra.

Os olhos estavam abertos, mas não viam nada. Também não havia cheiro. O corpo deixou de ter peso. Parecia que, no meio da escuridão, só existia uma consciência. Fazer uma sessão de flutuação remeteu-me para dois lugares: para o limbo ou de volta ao útero da minha mãe. Estava noutra dimensão, num sítio estranho, mas descansado. Houve um momento em que pensei na Sandra Bullock que, coitada, no “Gravity” andou horas perdida a flutuar no espaço. Eu estava perdida, estava numa cápsula de flutuação, a flutuar, mas sabia que a qualquer momento iria regressar ao 14B da Rua Pedro Nunes, em Lisboa. Mas adiante.

Experimentei uma sessão de flutuação no Float In Picoas, um dos dois centros que têm o serviço disponível. E do que se trata? Disso mesmo: durante pouco menos de uma hora estive a flutuar numa cápsula (que eu acho mesmo mágica) que mistura 600 litros de água com 300 quilos de sal epsom, uma combinação de sulfato, magnésio, carbono e oxigénio, benéfico para a saúde (mas, calma, não é para beber), uma vez que tem propriedades terapêuticas, especialmente boas para a pele, circulação e antioxidantes. É também esta fórmula que facilita a higiene da água, uma vez que é anti-bacteriana, criando uma barreira contra agentes patogénicos.

A sessão durou 50 minutos (50€), mas outras podem ter 1h30 (75€). O ritual no Float In acontece da seguinte forma: chegamos, bebemos um chá e, ainda na recepção, dão-nos uns chinelos e guardam os sapatos. De seguida, rumamos ao balneário, onde está disponível um roupão e tudo o que, posteriormente, será necessário: desodorizante, secador (daqueles bons, potentes) e creme hidratante.

Entrar na cápsula e deixar de sentir a gravidade

Estive 50 minutos no limbo (ou numa cápsula de flutuação)

A hora H começa a seguir. Já de roupão e de biquíni por baixo (ainda que aconselhem a não utilizar roupa nenhuma), entramos numa sala onde descansa a dita cápsula ao qual dão o nome de flutuário. Tem quatro botões: um para o fechar total ou parcialmente, outro que acende uma luz de presença, um para ouvir música e um botão de emergência. Antes de a experiência começar, toma-se um duche, que está dentro da sala, onde também nos aguardam toalhas, uns tampões para os ouvidos (caso necessário, eu não usei) e vaselina para quem tem alguma irritação na pele. Este ponto é excelente: quem pratica flutuação no Float In não precisa de andar carregado com mochilas, toalhas, chinelos, champô, amaciador ou gel de banho. Lá há de tudo.

O suposto é que esta terapia de relaxamento, que dizem equivaler a entre quatro a seis horas de sono, seja feita na escuridão total, sem qualquer tipo de som. Afinal, o grande objetivo é a privação sensorial, o que significa que, idealmente, não se ouve, sente ou toca.

Receosa, pus um pé. Depois, pus o outro. Deitei-me e, numa água a uma temperatura muito confortável, comecei a flutuar. Achei que não seria capaz de fechar a cápsula mágica, mas enganei-me. A curiosidade aliada à vontade de ter a verdadeira experiência fizeram-me carregar no botão ao fim de cinco minutos. Logo a seguir aboli a música. A luz já tinha desaparecido. Meti os ouvidos debaixo de água e ali estive, quieta e a flutuar durante quase uma hora, num pingue-pongue de pensamentos tão aleatórios que não guardo na memória (à excepção daqueles que revelei no início deste texto). Será este o significado de mente vazia?

Estive 50 minutos no limbo (ou numa cápsula de flutuação)

De acordo com Mariana Costa Veludo, do departamento de comunicação da Float In, a atividade é transversal e procurada por pessoas de diferentes faixas etárias, em diferentes contextos — incluindo para curar ressacas. Há quem pratique a flutuação todas as semanas. Há quem passe por lá pontualmente. E há quem experimente e não volte. Estar numa cápsula e estar na absoluta escuridão durante 50 minutos pode não ser fácil, sobretudo para quem sofre de algum tipo de claustrofobia. Ainda assim, na Float In Rato estão disponíveis flutuarios open top, ou seja, que não são cobertos.

Apesar de soar a novidade, a cápsula de flutuação já existe desde a década de 50. O primeiro tanque foi construído em 1954 e foi ali que se fizeram as primeiras experiências sensoriais. Nos anos 60 a NASA passou a utilizar estas cápsulas com sal, que eram usadas nos treinos dos astronautas. Os primeiros estudos sobre os benefícios da flutuação foram realizados ao longo da década de 70, sendo abordados os tais efeitos terapêuticos. Assim, nos anos 90 passou a ser uma actividade associada à promoção do bem-estar, presente em 30 países.

O que tem de bom a flutuação?

Tiago Valente, CEO da Float In, foi quem trouxe a ideia da cápsula de flutuação para Portugal, depois de ter estado a flutuar no Mar Morto, na Jordânia. A terapia está associada a vários benefícios, que vão desde a redução do stress, aumento de bom humor (isto é verdade — os meus colegas na redação já notaram) e criatividade, a um sono mais profundo (sendo por isso aconselhado para quem sofre de insónias), ao combate de doenças crónicas (especialmente recomendado para quem sofre de enxaquecas), sendo ainda uma atividade associada à promoção de relaxamento muscular, o que faz desta terapia uma boa opção para desportistas.

Saída da cápsula, a sessão segue e termina nesta sala, com um chá.

“A cápsula de flutuação acelera o tempo de recuperação das lesões, reduz a acumulação de ácido lático, elimina rapidamente a fadiga, ajuda a reduzir a dor e a inflamação, reduz os níveis de cortisol, relaxa a mente, melhora a concentração / foco, melhora a circulação de oxigénio”, diz a Float In. Para mulheres grávidas também poderá ser bom uma vez que alivia as dores musculares, estimulando também a circulação e um sono mais saudável, contínuo e profundo.

Não sofro de dores crónicas, não tenho nenhum problema nos músculos (excepto a falta de estímulos que lhes ando a proporcionar) e dizem que quando durmo pareço morta de tão profundo que é o meu sono. Mas, como quase todos os outros sete biliões de seres humanos na Terra, sofro de elevados níveis de stresse, ainda que já nem os sinta. A experiência foi peculiar. Antes de terminar, não sabia mesmo dizer se já ali estava há dez minutos ou há 45. O tempo desaparece, o corpo também. Não há estímulos externos. Apenas aqueles que o nosso cérebro nos dá. Mas ele também está a descansar. É o que acontece no limbo.

Voltei a sentir a gravidade há algumas horas, mas há uma parte que parece ainda estar a flutuar, relaxada e bem disposta. Parece que estou sob o efeito de um psicotrópico, mas daqueles sem consequências más.