I Am Isabel Silva

Natal. É isto que faço todos os anos com a minha família

Estamos separados por 350 quilómetros, mas todos os anos nos juntamos para aproveitarmos ao máximo e celebrarmos o espírito desta época — e beber uns copitos de vinho, claro.

Estamos a 24 de dezembro, véspera de Natal, e por isso hoje quero muito partilhar convosco aquela que é, para mim, uma das épocas mais especiais do ano, por uma razão muito simples. Muito mais do que ser altura do Natal, esta época tem um carácter muito importante para mim, sobretudo porque desde os 18 anos que vivo a 350 quilómetros da minha família.

Devo confessar que já me habituei a essa distância e consigo viver bem com ela no meu dia a dia. Tenho 33 anos, e desde os 18 que vivo sozinha em Lisboa, apesar de a minha família ser muito unida. Mas a verdade é que só percebo aquilo que perco e as saudades que tenho deles quando estamos juntos. Só assim é que percebo que qualquer opção que fazemos na vida, por muito boa que seja e independentemente de ser a mais sensata, ponderada e correta naquele momento, tem sempre coisas menos boas. Ter escolhido viver, estudar e trabalhar em Lisboa tem isso de menos bom, estar longe da minha família.

É curioso como, à medida que o tempo passa, vou sentindo mais vontade de estar mais tempo com o meu pai e a minha mãe. Sou muito ligada a eles e preciso dessa companhia, pela boa disposição que eles têm e por serem pessoas tão divertidas e de bem com a vida. Quando estamos juntos, sinto-me sempre bem. Claro que também adoro quando eles me vêm visitar, mas gosto muito de ir a casa deles. Chegar à minha terra, Santa Maria de Lamas, entrar na cozinha e ver a azáfama da minha mãe a cozinhar, descer as escadas e ir para o salão ver aquela lareira acesa, a árvore de Natal montada, os azevinhos, todo aquele ambiente de Natal. Para a minha mãe, o Natal é sempre vermelho verde e dourado.

Aquele ambiente traz-me sensações tão boas e únicas que eu quando chego penso: eu quero estar sempre com eles. E o natal é importante para mim porque, mais do que celebrar o Natal, é uma celebração da família. Como estou tão longe deles, ainda valorizo mais. Aquilo que para muitos é só um jantar de família normal, para mim é um jantar que não acontece com a regularidade que gostava. Às vezes passa-se um mês e eu não vou a casa, às vezes só consigo ir de dois em dois meses, e isso custa-me muito. Só quando estou com a minha família percebo a falta que ela me faz, por isso é que este momento é tão importante para mim, e que se repete todos os anos, desde que me conheço.

24 de dezembro: a véspera de Natal

A noite de véspera de Natal é sempre passada com a minha família do lado do meu pai, com os meus avós paternos. Depois, no dia 25, estamos novamente todos juntos ao almoço e, à noite, vamos jantar a casa dos meus avós maternos.

Muitos de vocês talvez não saibam, mas sou uma afortunada porque ainda tenho os meus quatro avós. Todos de boa saúde e com muito boa disposição. Só tenho pena de não poder estar com eles tanto quanto queria, mas a vida também é feita de escolhas, e resta-me aproveitar da melhor forma possível.

O jantar da véspera de Natal, assim como o almoço de dia 25, normalmente, era sempre em casa da minha avó paterna, mas agora passou a ser dividido. Um ano vamos para casa da minha tia Umbelina, e noutro estamos em casa dos meus pais.

E o que é que nós fazemos dia 24? A minha mãe tem um prazer enorme em fazer rabanadas caseiras, no forno, com leite e vinho, e faz também bilharacos. Sabem o que são? São umas bolinhas de abóbora fritas, que podem achar que são sonhos de Natal, mas é muito diferente, acreditem. Depois, eu sei que em Lisboa a tradição é comer arroz doce, mas no norte comemos muito aletria, que a minha mãe também faz.

Ao jantar, comemos sempre caldeirada de Natal, que, na verdade, é nada mais, nada menos, do que o bacalhau e grão cozido com penca — a couve —, ovo cozido e azeite fervido, que acompanhamos com um pão, que é a broa, feita pela minha avó no forno dela.

Mas antes do jantar tenho outros rituais. Normalmente vou para casa uns dias antes, por isso, na manhã de 24 acordo e vou correr com os Running Espinho. Já é tradição. Fazemos 10 km e acabamos com um mergulho no mar. A felicidade é mesmo isto, nas coisas mais simples. E sabem que mais? É a melhor forma de ganhar apetite para a consoada.

Depois volto para casa, tomo o meu banho e, enquanto a minha mãe e a minha tia andam pela cozinha, canalizo a minha atenção para o meu pai. Vamos almoçar fora, qualquer coisa leve, e depois damos um passeio pelo Porto, pela zona da Foz ou em Santa Catarina, para comprar algum presente de última hora se for preciso mas, acima de tudo, para meter a conversa em dia. A meio da tarde vou ter com algumas das minhas amigas de cá e fazemos uma troca de presentes para, às 18h, estar em casa. E a verdade é esta, seja onde for, há sempre uma lareira acesa e uma mesa bem montada. E o quanto eu gosto de olhar para aquilo? É lindo.

Entretanto começa a chegar o resto da família. Os meus dois primos, o João Pedro e o Daniel, ambos já casados e com filhos. Cada um deles tem filhos já, o João Pedro tem dois, e o Daniel só tem um. Um desses bebés, a Eva Luís, é minha afilhada. Portanto como estão a ver é uma casa cheia de criançada, e só agora entendo como é que uma criança dá outra vida. Claro que, com tantos miúdos, o meu pai mascara-se sempre de Pai Natal. Mas isto não se pode dizer muito alto, não vão os meus sobrinhos ouvir e lá se vai a magia do Natal.

Então, depois de jantar também temos um hábito que, durante muitos anos, foi ir à missa do galo para desmoer o jantar. Mas a verdade é que, como a missa acabou na nossa terra, agora fazemos outra coisa. Todos os anos, ao pé da igreja de Santa Maria de Lamas, estão expostos vários presépios feitos por pessoas da terra, sejam escuteiros, pessoas da CERCI de Lamas ou até a título individual, não importa, desde que sejam criativos. Então é isso que nós fazemos, vamos ver os presépios. Há sempre uns que são malandros e não querem vir porque chove ou está frio, mas também há resistentes, que sou eu, os meus tios, os meus primos e a minha mãe.

Depois desta animação toda voltamos a casa e abrimos os presentes. Antes só fazíamos isto na manhã seguinte, mas agora mudámos a tradição e abrimos à meia-noite. Por isso, é isso mesmo que vou fazer mais logo. Jantar, dar uma volta a ver os presépios, e se calhar até gravo umas stories para vocês verem como é.

Vou dizer-vos uma coisa: que bem que me sabe nesta altura comer a broa da minha avó, a postinha de bacalhau cozida com pouco sal, o ovo e a pensa. Sabe-me mesmo pela vida. E depois dos presépios, há sempre espaço para a sobremesa. Uma coisa é certa: vou comer a incríBel aletria da Dona Lola, provar um bilharaco e comer uma rabanada. Isso é certo.

25 de dezembro: dia de Natal

O dia 25 é passado em casa dos meus avós maternos, e aí sim a família é muito maior. A minha mãe tem muitos irmãos, que têm muitos filhos, e também esses já têm filhos. É tudo em casa da minha avó Ester e do meu avô Adão. É aí que fazemos o jantar, depois de passar o almoço novamente em casa.

Normalmente, nesta refeição, comemos sempre rojões. Nesta altura costumo fazer sempre marmita, e com sorte até consigo ainda aproveitar uns restos da consoada para levar e comer ao jantar do dia seguinte. E que bem que me sabe. Este ano ainda não decidi bem como vai ser, mas logo se vê.

Antes, quando o Natal era em casa da minha avó paterna, dormíamos todos lá na noite de dia 24, mas agora como estou em casa dos meus pais, acordo e vou, mais uma vez, dar uma corrida com os Running Espinho. Vamos correr, bebemos um café e desmoemos do jantar do dia anterior.

A seguir venho para casa e ajudo as minhas tias e a minha mãe com o almoço. Às vezes até faço aquela minha mousse incríBel — a que vos mostrei aqui — e, à tarde, há sempre um momento espetacular.

O meu grupo de amigos de Santa Maria de Lamas tem tendência a reunir-se em casa de alguém, não sabemos quem, importa só estarmos juntos. Não imaginam o bem que me faz voltar às raízes e estar com estes amigos que já são família e que, independentemente da distância física, quando estamos juntos é como se nos tivéssemos visto ontem. Temos a mesma cumplicidade, a mesma alegria e energia, o que, para mim, é um alicerce fundamental.

Ao fim do dia vou para casa da minha avó Ester e como o arrozinho dela, que é o melhor do mundo. É que ela faz uma coisa muito engraçada no arroz, começa por fazer um estrugido (ou refogado, se forem de Lisboa), e depois coze o arroz ali. Fica com um sabor ótimo, e é curioso porque eu como este arroz seja com o que for, peixe ou carne. Ah, e outra coisa, em casa da minha avó Ester há sempre o tronco de Natal, que eu adoro e rato sempre um bocadinho.

E é assim o meu Natal. Junto da minha família que tanto adoro e com quem, infelizmente, não passo o tempo que gostava de passar. Mas a vida é mesmo isto, aproveitar todos os momentos ao máximo e sempre que possível, porque não sabemos quando eles se voltam a repetir.

Feliz Natal a todos, e agora vou só ali ter com a minha mãe e ver se já posso rapar o tacho da aletria. Logo à noite mostro-vos os presépios.