Dia da Mãe

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Marta e Mariana não querem ter filhos, mas este ainda é um tema tabu entre as mulheres. “Seria muito mais irresponsável ter uma criança”

São cada vez mais as mulheres que tomam esta decisão, pelos mais diversos motivos, mas nem por isso deixam de ouvir julgamentos. Conheça as histórias e os motivos que levam estas duas mulheres a não quererem ter filhos.

Marta Almeida tinha 15 anos e estava na escola secundária quando fez uma cápsula do tempo. Na altura, escreveu os seus três maiores objetivos de vida: casar, ter filhos e viver da escrita. Hoje em dia, com 27 anos, há um desses desejos que já não entra na sua lista: o de ser mãe.

Como Marta, são várias as mulheres que tomaram a decisão de não terem filhos e que, por isso, têm de lidar diariamente com a crítica. Tal como Marta, também Mariana Malhado, produtora de conteúdos digitais e mais conhecida no Instagram como Mariana Bossy, decidiu que não queria ter filhos. A primeira vez que falou no assunto foi num dos episódios do seu podcast, “Conversas Para o Lixo”, que tem com o marido, Francisco.

“Farto-me de dizer no meu canal e nas minhas redes sociais que eu não quero ter filhos”, começa por dizer no episódio publicado em dezembro de 2019.

Mariana explica à dobem. que esta sua decisão nem sempre é bem aceite. “Vais mudar de ideias” ou “como assim, não queres ser mãe”, são alguns dos comentários que costuma ouvir quando partilha esta sua vontade. A influenciadora digital acrescenta que, nesta fase da sua vida, essa não é uma hipótese.

Marta sente o mesmo, e garante à dobem. que são várias as pessoas que tendem a interpretar mal a sua decisão e a do marido, Sérgio Andrade, com quem é casada desde 2019, embora estejam juntos há quase uma década. A grande maioria pensa, imediatamente, que o casal não gosta de crianças.

“Nós gostamos muito de crianças, temos sobrinhos que adoramos”, começa por dizer. “Quando nos perguntam se queremos ter filhos, respiramos fundo e dizemos logo que não é por não gostarmos de crianças, temos sempre de explicar isso.”

A vontade de passar tempo de qualidade a dois

Qualquer mãe e pai sabe que a chegada de um filho traz grandes mudanças na vida do casal. As rotinas e as responsabilidades alteram-se, a relação entre os pais muda e até a própria mãe acaba por se tornar numa pessoa diferente. Não é de ânimo leve que se costuma dizer que, quando nasce um filho, nasce também uma mãe.

Esta mudança, especialmente a mudança de rotinas, tem um grande impacto na vida do casal. As noites sem dormir, as discussões sobre quem se levanta de noite para mudar fraldas ou dar comida, sobre quem vai ao supermercado, quem cozinha, e outra tantas tarefas numa lista que parece infinita e que, com a chegada de uma criança, têm necessariamente de começar a existir. Para Mariana Malhado, estas mudanças teriam um grande impacto na sua vida, e essa não é uma prioridade, pelo menos, não para já.

Costumo dizer que adoro a minha vida como ela é e não estou a ver, neste momento, a minha vida a mudar em função de outro ser humano”, explica à dobem.

As mudanças na dinâmica familiar e, principalmente, o tempo em conjunto são um dos principais motivos que levam Marta Almeida a não querer ter filhos. Depois de, em 2015, o marido ter tido um acidente de viação grave, o casal passou a dar mais valor ao tempo a dois.

“Andávamos quase sempre a mil, não havia tempo de qualidade para nós e, quando houve o acidente, descobrimo-nos nesse sentido”, explica. “Percebemos que era bom termos tempo para os dois, e uma criança ainda nos tiraria mais tempo, o que acabaria por interferir na nossa rotina.”

Não querer ser mãe ainda é tabu

E se é certo que para muitas mulheres ser mãe é algo tão certo como qualquer outra necessidade básica, para outras isso não é bem assim. No entanto, e tal como Marta diz à dobem., nos dias de hoje ainda vivemos numa sociedade onde não ter vontade de ter filhos ainda é mal visto. Quantas e quantas vezes não estamos em conversas com amigas ou colegas de trabalho e se alguma diz, sem rodeios, que não quer ter filhos, instala-se um silêncio constrangedor na mesa? Esse silêncio pode até ser seguido por alguns comentários de choque. Parte-se — erradamente — do princípio de que todas as mulheres têm essa vontade quando, na verdade, há quem não o queira, e não tenha receio de o assumir, mesmo que tenha de ouvir comentários depreciativos.

O grande problema da sociedade é esse, toda a gente quer ter direito a uma opinião, somos todos livres, podemos todos falar, mas há certas coisas que, quando dizes, parece que estás a cometer um crime”, diz Marta Almeida. “É a nossa vida. Eu estou a tomar uma decisão para a minha vida, não tem nada a ver com os outros.”

“Há muito o receio de partilhar uma opinião [sobre este tema] mas está tudo bem porque todos somos diferentes e temos o direito disso, e quanto mais falarmos, melhor”, diz Mariana Malhado.

E não é só de amigas e colegas de trabalho que se ouvem estes comentários. Marta Almeida recebe algumas reações até mesmo da própria família. Apesar de sempre ter partilhado tanto com a sua família como com a do marido a decisão de não quererem ser filhos, os avós, principalmente a sua mãe e sogra, têm alguma dificuldade em aceitar.

“Para a minha mãe é uma dor no coração, porque o meu pai dizia que eu ia ter três meninos”, conta. “Dizemos-lhe que não queremos, mas parece que não lhe entra na cabeça. Está sempre a dizer ‘uma criança dá alma à casa, é logo diferente’, e quando eu digo que tenho uma novidade para lhe dar, acha sempre que estou grávida, mesmo que já lhe tenhamos dito que não queremos ter filhos.”

Apesar de sentir que este ainda é um assunto tabu, Marta não tem receios em falar sobre ele, e não descarta a hipótese de, se um dia tiver um azar, não seguir com a gravidez. “Pode ser pouco convencional, mas provavelmente não teríamos”, diz à dobem. “A meu ver, seria muito mais irresponsável ter uma criança e sentir que não temos condições ou que não conseguimos corresponder com o que ela precisa, do que optar por não ter.”

Muito mais do que ter condições financeiras há também que ter em conta o estado da relação do casal. É que ter filhos não é uma tarefa fácil e que, por isso, deve acontecer pelos melhores motivos. Contudo, há situações em que nem sempre isso acontece e em que os pais optam por ter filhos não só por uma questão de convenção, mas também para trazer algo novo à relação.

“Mas será que este é o motivo certo para termos filhos? Mais vale termos o ato altruísta de não os ter e levar a vida que realmente queremos, do que os termos só para um objetivo mais egoísta. [Querer colocar um ser humano na terra que, possamos partilhar o nosso amor] deve ser o foco de querer criar alguém e amar esse alguém, e se não for esse, então é melhor não ter”, diz Mariana Malhado.

A opinião da produtora de conteúdos diverge da do marido, Francisco, que sempre quis ser pai mas que aceita a decisão da companheira, que não descarta a hipótese de, um dia, vir a mudar de opinião.

“Nunca pensei nisso e gostava de ser uma pessoa que tem esse sentimento, porque não tenho o sentimento de mãe”, diz Mariana. “Quando vejo outras mães, não sinto que queria ser uma mãe. Espero, sinceramente, que isso um dia mude até para poder satisfazer o meu marido, porque ele gostava muito de ser pai mas, de facto, não tenho esse sentimento em mim.”

Já Marta Almeida também não descarta a possibilidade de a sua opinião vir a mudar, mas garante que as hipóteses de isso vir a acontecer são bastante escassas até porque, acredita, ainda há muitas coisas que quer partilhar apenas com o marido.

“Quando era mais nova dizia que gostava de ser mãe antes dos 30 anos mas, agora, sinto que ainda tenho muitas coisas para fazer, por isso, não faz sentido ser agora e, provavelmente, nunca fará.”

Apesar de saber que a vida pode sempre mudar, Marta acredita que ser mãe é algo que não está nos seus planos e que apesar de toda a gente apontar vantagens e lhe garantir que a experiência de ter um filho é algo único, para a sua realidade, as desvantagens sobrepõem-se.

“[Eu e o meu marido] Olhamos um para o outro como a nossa família, e ter uma criança é uma responsabilidade para o resto da vida, tem muitos pontos positivos e, se calhar, até mais do que negativos, mas é uma responsabilidade muito grande”, explica, recordando um encontro que teve com um casal amigo com quem falou sobre a sua decisão. “Pouco tempo depois de casarmos falámos sobre isso com eles, e fizemos todo o discurso de gostarmos de crianças, e a nossa amiga disse ‘nós sabemos que vocês gostam de crianças, e se eu soubesse o que sei hoje, não tinha tido a minha filha. Com todo o amor que sinto por ela, mas se soubesse todo o percurso que tive de fazer até hoje, a decisão teria sido diferente’.”

Já Mariana Malhado tem a mesma opinião, e acredita que os pontos negativos se sobrepõem aos positivos quando se fala em ter filhos.

“Eu não me posso pôr num papel de ‘eu enquanto mãe’, porque não estou a passar por isso, mas acho que ia perder algumas coisas e ganhar outras, obviamente. Mas não estou disposta, neste momento, a abdicar dessas coisas que vou perder”, confessa.

Texto escrito por Ana Gordo e Leonor Costa