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Quais são as diferenças entre a psicologia, psicoterapia, e as terapias alternativas?

O ser humano sofre desde que existe humanidade. Os gabinetes de psicólogos e psicoterapeutas são os mais procurados para se curarem estes males. Mas qual é a diferença?

Disseram-me uma vez que o equilíbrio é do mais instável que há. Este paradoxo cravou-se na minha cabeça e de repente o mundo passou a fazer muito mais sentido. É que é verdade: o equilíbrio é como fazer equilibrismo no controlo de todas as variáveis que interferem com a nossa a vida. Temos os amigos, temos a família, temos as relações, temos o trabalho. Por cima disto tudo, temo-nos a nós próprios. Ninguém nos avisou quando éramos pequenos, mas existir é por si só tramado.

Adiante. Quanto mais alinhadas estiverem todas as variáveis, mais próximos estamos do tal conceito da felicidade. “Uma boa saúde mental é sinónimo de felicidade. Quando estamos felizes, dizemos que estamos em equilíbrio — em equilíbrio com o nosso corpo, com as nossas emoções, com o nosso propósito de vida, com a forma como vivemos cada dia e com a relação que temos com os outros”, diz o psicoterapeuta Pedro Brás.

Mas não é assim tão simples, porque — lá está — há as variáveis que provocam a instabilidade: “Este equilíbrio, muitas vezes não é fácil de alcançar, porque todos os dias enfrentamos problemas que perturbam esse estado. Quando os problemas do dia a dia nos perturbam, ao não conseguirmos gerir as emoções negativas, elas desequilibram a nossa harmonia mental e provocam depressão e ansiedade. Todos vivemos momentos com emoções negativas, mas se elas não fluírem, ficam bloqueadas dentro de nós.”

A solução, que exige também um esforço assim próximo do colossal, é escutarmo-nos e não recalcarmos: “Para nos sentirmos bem e mentalmente saudáveis, temos que gerir as emoções e deixá-las fluir.”

Da mesma forma que aprendemos a ler e a escrever com a ajuda de um professor, também nesta arte do escutar pode ser fundamental termos uma espécie de guia. E é aí que entram os psicólogos, psicoterapeutas, psicquiatras ou terapeutas alternativos. Mas de onde vêm todas estas ramificações? E o que é que a distingue?

No fundo, é isto:

  •  Os psiquiatras são formados em medicina e especializados em psiquiatria. Tratam transtornos psicológico (geralmente mais severos) e psiquiátricos, sendo os únicos que podem prescrever medicamentos. “Os psiquiatras são médicos que se especializaram na influência do comportamento humano através de medicação psicoativa.”
  • “Os psicólogos são profissionais que estudam o comportamento humano nas mais variadas correntes teóricas”, diz Pedro Brás. São formados em Psicologia e entendem os problemas psicológicos como consequência de vivências que moldam a nossa relação connosco e com os outros. A abordagem terapêutica reside no apoio e aconselhamento psicológico.
  • Os psicoterapeutas não têm de ter formação em Psicologia, ainda que muitos também tenham este grau académico. “Os psicoterapeutas são profissionais que têm formação em modelos de intervenção prática no comportamento humano e aplicam técnicas psicológicas para alterar os estados de doença mental”, explica o psicólogo. “As correntes psicoterapêuticas mais conhecidas em Portugal são a psicanálise, as terapias cognitivas, a terapia cognitiva comportamental e a mais recente a psicoterapia HBM”, acrescenta. 
  • “Por fim, os terapeutas alternativos, usam teorias e intervenções não comprovadas cientificamente, mas que fazem sentido para os pacientes que as usam na busca do seu equilíbrio emocional”.

Agora, com mais pormenor. E de onde vem isto tudo?

Ainda que nunca se tenha alertado tanto para a saúde mental como agora, a realidade é que o ser humano sofre desde que existe. “Ao longo do tempo em que a humanidade existe, o homem sempre se deparou com problemas que perturbavam o seu bem-estar mental”, diz o mesmo especialista.

Pedro Brás aponta a perda, o luto e as relações conflituosas entre os indivíduos como os maiores problemas com que o ser humano se tem deparado ao longo da sua existência. “Para resolver estes problemas que afetam o bem-estar da humanidade, foram desenvolvidas teorias religiosas que visavam a explicação de fenómenos de difícil compreensão.”

A religião começou por ser o primeiro recurso para se lidar com estes estados e emoções: “O homem encontrava uma estratégia de pensamento que o ajudava a sentir-se melhor, apesar das emoções negativas que as experiências traziam… Assim, o conhecimento religioso ajudava a fluir emoções e a desbloquear o ser humano.”

Mas as áreas que foram pioneiras no estudo do ser humano foram a Filosofia e a Medicina: “Foram as primeiras disciplinas que se dedicaram ao tema do conhecimento humano, na sua parte física e mental. A Medicina tratava do corpo, a Filosofia da alma.”

Com os tempos modernos, dá-se uma mudança. E o comportamento entra na equação. Primeiro, há 300 anos, com um médico alemão chamado Mesmer, com quem se iniciou o estudo da influência das crenças no comportamento humano: “Desenvolveu-se a partir daqui um conjunto de conceitos, teorias e técnicas terapêuticas, sobre a melhor forma de ajudar o homem nos seus problemas mentais.

Depois dele, veio outro alemão a quem se atribuiu a alcunha de pai da psicologia: “Há 100 anos, Freud deu início a uma nova abordagem na intervenção da psique humana. Criou o primeiro modelo científico de psicoterapia, a psicanálise”, explica. “Este modelo tem uma base de teórica de conhecimento científico, e um conjunto de técnicas interventivas.”

Com Freud abre-se, então, uma janela nova, e dá-se “oportunidade ao estudo do comportamento humano e à intervenção terapêutica, sem ligação ao corpo nem ao cérebro.”

E aprofunda-se uma hipótese determinante. O mal-estar não tem de ser geneticamente herdado ou sequer sinónimo de uma patologia relacionada com o nosso organismo. As memórias, as vivências, também pesam: “Começou-se a perceber que o comportamento humano e as suas doenças mentais estão mais ligados às aprendizagens passadas e às emoções que propriamente à nossa carga genética ou a qualquer outra patologia do corpo.”

É, basicamente, daqui que surgem todas as outras correntes. Podemos considerar que a psicologia é o maior chapéu, onde cabem outros, que são, no entanto, independentes e de desenvolvimento paralelo. “Paralelamente à psicologia, foram sendo desenvolvidas várias correntes científicas sobre com diferentes métodos e técnicas interventivas e de influência do comportamento humano”, diz Pedro Brás.

A estas técnicas chamamos de psicoterapias: “As correntes psicoterapêuticas mais conhecidas em Portugal são a psicanálise, as terapias cognitivas, a terapia cognitiva comportamental e a mais recente a psicoterapia HBM. “

Organizam-se em associações ou sociedades profissionais que se auto-regulam, com formações ministradas por essas sociedades e que têm uma duração de, em média, quatro anos letivos. “A psicoterapia é assim uma disciplina com formação independente da psicologia e da psiquiatria e da regulação das respetivas ordens profissionais.”

Porém, residia aqui um problema: a solução não aparece de repente, nem tampouco o mal-estar desaparece à primeira consulta.

“O problema que se observa neste tipo de intervenção psicoterapêutica é o tempo que é preciso para uma mudança estruturada do pensamento e do comportamento”, diz. “O tempo para levar o ser humano a atingir um estado de equilíbrio mais breve pode durar dois meses e os mais longos vários anos.”

Na década de 60, surge a terapêutica com influência no sistema nervoso central, prescrito por psiquiatras — “médicos que se especializam na intervenção humana com medicação psicoativa” e os únicos que podem receitar medicamentos — com efeitos calmantes em perturbações como a ansiedade. “Na falta de melhor ajuda, a medicação psicoativa tomou lugar rápido no tratamento das perturbações mentais mais comuns como a depressão e a ansiedade.”

Mas nem toda a gente queria enveredar por esse caminho. E nem toda a gente se sentia capaz de esperar pelos resultados da psicoterapia. É assim que, por fim, começa a crescer o mercado das terapias alternativas.

“São técnicas interventivas que cientificamente não são comprovadas, mas que de alguma forma, para alguns pacientes, faz sentido a sua aplicação, existindo em alguns casos melhorias substanciais que de facto ajudam os pacientes a saírem dos estados perturbadores.” Aqui inserem-se a acupuntura, fitoterapia, naturopatia, osteopatia ou quiropráxia.