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Viciada em compras? Estes são os 5 maiores disparates que fazemos quando compramos roupa

Como para cada problema há uma solução, três mulheres que trabalham para uma moda mais consciente dão soluções para que cada erro nas compras seja evitado.

Se há altura em que o consumismo devia entrar em estado de alerta é entre os meses de novembro e dezembro. A Black Friday está a chegar, bem carregadinha de descontos e etiquetas a vermelho que nos saltam à vista, e o Natal também já não tarda. Isto significa que mais tarde ou mais cedo vamos comprar aquelas prendas “só porque fica bem oferecer alguma coisa” e, pelo meio, compramos roupa para nós, porque quem nunca ofereceu um presente a si próprio?

Contudo, principalmente as mulheres, não precisam de muito para se sentirem tentadas a comprar uma nova peça de roupa para o armário. Por trás de tudo isto está uma série de erros que nos levam a comprar mais peças e acessórios que, sejamos honestas, só enchem ainda mais o armário que já só fecha com algum esforço.

A dobem. foi falar com quem está familiarizado com o conceito de moda sustentável para perceber que disparates são estes e como combatê-los. É o caso de Joana Dias da Cunha, de 31 anos, responsável pela marca Fair Bazaar, um marketplace de produtos sustentáveis que vai desde os perfumes, à roupa para homem e mulher. Mas nem sempre a sustentabilidade esteve dentro do armário de Joana.

“Como muitas raparigas da minha geração, fui durante muito tempo um pouco ‘obcecada’ por moda e uma compradora compulsiva de roupa. O resultado deste comportamento traduziu-se em armários cheios de vestuário que por vezes vestia apenas uma vez”, revela à dobem. O dia em que viu o documentário “The True Cost” mudou a forma como vê a indústria da moda e despertou, em especial, para três factos que até então desconhecia:

  1. A indústria da moda é uma das mais poluidoras do planeta;
  2. O mundo consome mais de 80 bilhões de peças de roupa anualmente (400% mais do que há duas décadas);
  3. Uma em cada seis pessoas trabalha para a indústria da moda hoje em dia. A maior parte destas pessoas são mulheres e recebem menos de 3 dólares por dia.

A partir daí adotou estratégias para controlar o seu próprio consumo e não contribuir para um mundo de consumismo.

Também Ana Costa, fundadora da Baseville, marca 100% portuguesa focada na moda sustentável, admite que, como qualquer pessoa, por vezes sente-se tentada ao consumismo, mas ao longo do tempo adquiriu ferramentas para, de modo racional, combater esse impulso.

Ana dá até uma dica infalível para fugir das compras: fazer um bolo de chocolate. Isto sim pode ser tentador. “É uma das coisas bastante discutidas a nível de psicologia, porque, no consumo de moda, se nos apercebermos, conseguimos combater com estes pequenos truques”, explica.

Vera Gallardo também andou por corredores de lojas com outras ideias em mente, mas o “chip” mudou e acaba até de lançar um blogue assente na sustentabilidade, no qual sugere desde marcas de moda e beleza sustentáveis até lojas em segunda mão. É também na nova página que expõe uma expressão que tão bem conhecemos: “Imensa Roupa Mas Nada Para Vestir“.

Para acabar com este dilema, é preciso primeiro identificar os erros para agarrar as soluções. Vamos a isso?

1. Comprar por impulso

Este é talvez um dos pontos com que mais pessoas se identificam e também o que foi transversal aos erros identificados por Joana, Ana e Vera.

“Resulta maioritariamente do conceito de descartabilidade da roupa a que estamos geralmente habituados. Somos todos produtos da sociedade de gratificação instantânea em que vivemos”, aponta a responsável da Fair Bazaar, Joana Dias da Cunha.

Em parte, isto acontece devido às campanhas de publicidade que mostram as últimas tendências ou mesmo a um simples Storie no Instagram de um influenciador que, ao mostrar um novo produto, faz com que o nosso alerta dispare e desejemos atingir a mesma aparência ou standard que é demonstrado com determinada peça.

Mesmo que tenhamos consciência de que isto acontece, reconhecer o problema não significa que conhecemos o seu impacto. “Estudos atuais mostram que 50% das roupas que temos em casa não são usadas e que mais de 300 mil toneladas de roupa vão parar aos aterros só no Reino Unido”, refere Joana Dias da Cunha.

Solução? #buyonliyfnecessary ou, por outras palavras, comprar apenas o que é necessário. Esta é a proposta de Vera Gallardo através do movimento que a mesma fundou. #buyonliyfnecessary assenta em quatro pilares que, de acordo com Vera, “podem constar da nossa checklist antes de iniciarmos as nossas compras”.

  1. Consciência: Reconhecer que o problema não é comprar, mas antes se a compra é necessária e consciente. Porquê da compra, que propósito serve, posso adiar a compra? Posso substituir esta compra? São questões a colocar.
  2. Equilíbrio: É desejável encontrar o equilíbrio no comportamento de compra, encontrar o espaço entre o necessário e o desnecessário. É o desnecessário que queremos evitar.
  3. Recursos: Os recursos do planeta não são ilimitados, na compra privilegiar as opções mais sustentáveis. Saber de onde vêm, quem produziu, os materiais ou ingredientes utilizados é muito importante.
  4. Impacto: São da nossa responsabilidade as decisões que tomamos. Todas as escolhas criam impacto, a dimensão do impacto depende de cada um de nós.

2. Comprar para compensar estados emocionais

Se nunca passou por isto, é algo a não experimentar. É que quando vamos às compras, seja após um desgosto amoroso ou um dia de trabalho complicado, com o pensamento “eu mereço”, raramente o resultado final é positivo para o ambiente (e para a conta bancária).

“A moda é emocional. Portanto, quando sabemos que emocionalmente temos algum desequilíbrio, devemos racionalizar e pensar ‘será que preciso mesmo disto?'”, sugere Ana Costa, acrescentando que devemos ter também presente que a roupa não traz alegria e a adrenalina do consumo passa mal chegamos a casa.

A fundadora da Baseville exemplifica com o chocolate. “Quando comemos chocolate, a primeira dentada é sempre o pico de maior satisfação”. O mesmo acontece com a roupa: na primeira utilização de uma nova peça atingimos o grau máximo de satisfação, mas a partir daí cai na indiferença.

3. Não olhar para a roupa que temos no armário

“A compra deverá ser feita de forma consciente, tendo como premissa base, a necessidade”, defende Vera Gallardo. Esta será também a base para uma não ida às compras.

Exato, não ida. Pode até conceber a ideia, mas antes de se dirigir para uma loja, seja online ou num centro comercial, deve primeiro abrir os armários.

“Há pessoas que têm o guarda-fato cheio e não sabem efetivamente aquilo que têm, nem há quanto tempo usam ou não usam”, começa por dizer Ana Costa.

Mas um dos pontos principais a ter atenção nos armários é a disposição da roupa: “Há quem tenha peças em cima de peças. Isso faz com que quando as pessoas, ao abrir, não tenham logo a ideia daquilo que têm e isso faz pensar que falta uma ou outra peça, quando na verdade a têm”, explica.

Por isso, a solução, é fazer uma vistoria ao roupeiro antes de se pôr a caminho para uma sessão de compras.

Contudo, se mesmo assim o armário estiver realmente a precisar de algumas peças, há dois critérios a ter em conta: apostar em artigos intemporais e de qualidade, sugere Vera Gallardo, e escolher roupas e acessórios para “contar uma história, uma missão, uma decisão consciente”, diz Joana Dias da Cunha.

“O slow fashion pode ser divertido e sexy ao mesmo tempo”, destaca a responsável pela Fair Bazaar.

4. Deixarmo-nos enganar por marcas de roupa que se dizem sustentáveis

Hoje em dia a oferta de soluções mais sustentáveis é variada, desde a moda à cosmética. Como toda a oferta tem como fim responder à procura, quando esta é elevada algumas marcas podem não olhar a meios — o que significa que por vezes podemos não estar a comprar algo assim tão ecológico.

“Encontramos marcas que sabem que precisam de ser vistas como sustentáveis e para isso iludem com campanhas aparentemente muito ecológicas, mas na realidade apenas são formas de distrair o consumidor e levá-lo a comprar sem sentimento de culpa”, afirma Vera Gallardo e Joana Dias da Cunha acrescenta ao uso incorreto do conceito de “sustentabilidade” dá-se o nome de “greenwashing”.

“Encontramos marcas que sabem que precisam de ser vistas como sustentáveis e para isso iludem com campanhas aparentemente muito ecológicas, mas na realidade apenas são formas de distrair o consumidor e levá-lo a comprar sem sentimento de culpa”, afirma Vera Gallardo e Joana Dias da Cunha acrescenta ao uso incorreto do conceito de “sustentabilidade” dá-se o nome de “greenwashing”.

A educação no que diz respeito à sustentabilidade é, por isso, um aspeto muito importante nos dias que correm, razão pela qual Joana lançou recentemente a Fair News, uma “revista digital sobre sustentabilidade, que pretende trazer conteúdos e informação relevante para ajudar os consumidores a comprar e agir de uma forma mais consciente”.

Já Vera Gallardo sugere que se tome atenção às certificações das marcas de modo a perceber se estão alinhadas com aspetos como a proteção ambiental, comércio justo e cruelty-free, e também que se “privilegiem as marcas produzidas e vendidas localmente“, acrescenta.

5. Descontrolo na Black Friday

Falta menos de um mês para o dia de promoções mais aguardado do ano, 27 de novembro, que é também o pico, arriscamos a dizer, da loucura do consumismo.

A corrida às lojas físicas é a prática mais recorrente, mas este ano, devido à pandemia, o online pode ser o foco principal dos consumidores de modo a evitar ajuntamentos.

Isto leva a um problema. “Na compra online não experimentamos, não sabemos se nos fica bem. Depois, chega a casa, não vamos trocar e vai ficar retido no nosso guarda roupa”, aponta Ana Costa da Baseville.

Ainda assim, na opinião da empreendedora, na Black Friday podem fazer-se compras conscientes, como é o caso de peças de valor avultado em época normal, mas que são desejadas há muito tempo e fazem sentido no armário.

Contudo, se o instinto de consumismo permanecer, Vera apresenta um mecanismo, que já funcionou consigo, para resistir ao impulso. “As pessoas recorrem a lojas online para a escolha de todas as peças que ‘querem’ comprar (porque se trata apenas de um impulso), colocam no cesto virtual todos os itens e depois de passar algum tempo nessa compra fictícia, quando chegado o momento de pagar, o cesto é eliminado. No final há uma satisfação que impede o impulso da compra real. Vale para muitas pessoas, para outras a situação da compulsão apresenta características que podem necessitar de outro tipo de ajuda”, explica a blogger.

Já Ana Costa, tem outra estratégia. “Nestas alturas ou vou ao cinema, ou faço um bolo de chocolate em casa, tudo para me distrair de coisas que eu sei que não me fazem sentido”, embora reconheça que por vezes usa esta altura para aproveitar algumas promoções de artigos para os filhos em marcas conscientes.

Ainda assim, a dica chave para enfrentar a Black Friday é pensar: “É só mais uma sexta-feira”, remata Ana Costa.