almoçar

Lifestyle

Fomos desconfinar e descobrir como é almoçar num restaurante depois da quarentena

Máscaras, viseiras, distância entre as mesas, QR codes nas ementes e desinfetantes à entrada. Há de tudo neste "novo normal".

Somos uma equipa que gosta de comer, mas comer bem. Basta chegar ao nosso escritório para encontrar snacks espalhados um pouco por todo o lado — sempre snacks dobem., claro (#sqn) — e na hora de almoçar há sempre uma discussão saudável sobre qual é a melhor marmita do dia, e da qual todos acabamos a tirar um pedaço. 

E sendo uma equipa que gosta não só de comer, mas também de conviver, foi com desgosto que recebemos a notícia de os restaurantes iam fechar por causa da pandemia da COVID-19. Sim, não precisam de dizer, nós sabemos que tinha mesmo de ser e que era preciso conter o vírus, mas se houve coisa que nos deixou tristes foi saber que, por tempo indeterminado, não poderíamos ir a alguns dos nossos sítios preferidos. 

Claro está que, assim que soubemos que iam voltar a abrir, não tardou até marcarmos um dia para irmos até a um dos nossos restaurantes de eleição. Requisitos: tinha de ter comida dobem., ser no centro de Lisboa e estar a cumprir todas as normas de segurança e higiene impostas pela Direção Geral de Saúde. 

Acabámos por escolher o The Green Affair, e desafiámos a Ana, coordenadora de conteúdos, e a Isabel, publisher e diretora geral da dobem., que não se viam há mais de dois meses, a desconfinarem num restaurante. Tudo por motivos dobem. 

A experiência da Ana

Quando combinei este almoço com a Isabel estava confiante e até feliz por voltar a sair e fazer uma coisa tão banal como ir almoçar a um restaurante. Curiosamente, escolhemos o The Green Affair, o último sítio onde tinha ido jantar fora antes de começar o Estado de Emergência. Batia uma saudade daquele Sem Espinhas à Lagareiro. 

Mas a realidade é, que na manhã dessa quinta-feira, comecei a sentir o mesmo que o Bruno Nogueira tanto relatou nos seus diretos ao longo da quarentena. Estava cada vez mais ansiosa por saber que ia sair e, ainda por cima, para um sítio público, cheio de “cóvides” por todo o lado. Mas lá fui, de máscara na mão, gel desinfetante na outra, até ao Saldanha.

Ao chegar ao The Green Affair, vi a Isabel a chegar ao longe e tivemos aquele que foi um dos momentos mais estranhos do dia mas que, na verdade, faz parte deste “novo normal”. Não nos cumprimentámos, não houve abraços, nada. Nem sequer aquele toque do cotovelo. Só falámos, com distância, e de máscaras no rosto. Porque tinha mesmo de ser assim. 

Lá fomos almoçar, porque foi isso que nos levou até ao Saldanha, e à entrada do The Green Affair fomos recebidas pelo Henrique, o dono do espaço, e pela Filipa, uma das funcionárias, que nos acompanhou durante todo o almoço. Ambos de máscara, pediram que desinfetássemos as mãos com o gel que está à entrada. Do outro lado, na porta, estão todas as indicações de segurança implementadas no restaurante.

Sentámo-nos numa mesa perto da janela. O The Green Affair tinha apenas uma outra ocupada, mas depressa chegaram mais pessoas que foram sendo distribuídas pelas mesas com a devida distância entre elas. Assim que nos sentámos, tínhamos duas cartas à nossa espera. “Se quiserem, podem ler o QR Code para fazer o pedido e não mexerem nas ementas”, disse-nos a Filipa. 

Foi o que fizemos, porque apesar de vermos o álcool à entrada, spray desinfetante para limpar mesas numa bancada e funcionários de máscara e viseira, todo o cuidado é pouco e não queremos voltar para casa com vírus. Escolhemos a entrada, prato e bebidas através do telemóvel, mas nem foi preciso pensar muito para saber o que cada uma ia comer. A Filipa veio, apontou os pedidos, e não tardou muito até os pratos começarem a chegar. 

E a meio da refeição, já com dois copos de água e um pouco de chá preto com frutos vermelhos bebido, tive de ir à casa de banho. Problema: será que a casa de banho estava aberta? Asseguraram-nos que sim, e que era limpa e desinfetada várias vezes ao longo do dia, ainda mais do que antes. Ufa. 

Passada a refeição em que, por momentos, esquecemos completamente que há menos de uma semana estávamos em Estado de Emergência, foi altura de pedir a conta. Enquanto isso, já estavam mais duas mesas ocupadas dentro do The Green Affair, três na esplanada, e duas pessoas à porta à espera para entrar. 

O terminal de multibanco chegou à mesa e havia duas opções: inserir o cartão na máquina e fazer o pagamento normalmente — a máquina é sempre limpa entre utilizações — ou pagar com contactless. Somos uma equipa tecnológica, por isso, utilizamos o telemóvel para fazer o pagamento e, assim, evitámos totalmente o contacto com a máquina. 

Saímos, de coração — e estômago — cheio, e com vontade de ir almoçar fora novamente. Até porque, na realidade, pouco mudou. Há mais regras de segurança e higiene? Sim. Temos de ter alguns cuidados, claro. Mas todo o pânico que senti ao sair de casa foi desaparecendo, e agora já só quero voltar a sair e estar com as minhas pessoas.

Tudo a seu tempo, mas a promessa fica feita: na próxima semana, voltamos a encontrar-nos porque, aos poucos, as nossa vida vai retomando a normalidade. 

A experiência da Isabel

Tinha muita vontade de perceber, ao fim de 50 dias de confinamento, como é que os restaurantes se iam comportar. Ainda há muito este receio de sair à rua, sobretudo quando vamos para um espaço fechado e sabemos que vamos pegar em coisas que estão em cima de uma mesa, e não sabemos bem como foram tratadas ou cuidadas. Claro que isso ainda acarreta um receio ainda maior. No entanto, dadas as indicações da DGS, obviamente estava curiosa para perceber. Uma coisa é o que vemos nas notícias, mas nós queremos perceber e sentir na pele como é este desconfinar. 

Tínhamos saudades de comer fora e, de facto, este projeto nasce no dia 8 de maio, o meu aniversário, na altura do meu confinamento. Ou seja, a dobem. foi uma revista que foi produzida e lançada durante o Estado de Emergência. O que significa que, desde que começamos a produzir, até ao lançamento e até este dia, a equipa dobem. ainda não tinha estado junta presencialmente, esta foi a primeira vez. Portanto foi um almoço muito especial por isso. 

Portanto, por um lado queríamos perceber como é que os restaurantes se estão a comportar, mas, por outro, queríamos matar saudades e enaltecer aquilo que tanto privilegiamos, que é o capital humano e estar com os outros. Foi um momento muito especial. Estava um dia lindo de sol.

A verdade é esta: havia uma panóplia de restaurantes para escolher, mas tentámos escolher um que fosse consensual para almoçar. Queríamos um restaurante que fosse vegano e no centro da cidade, uma vez que agora com o confinamento temos estado sempre em nossas casas, portanto queríamos voltar ao centro da cidade. Então lembrámo-nos do The Green Affair, que é um restaurante a que já fui, uma vez, e onde queria voltar. Além de que, como tem esplanada, e tem portadas com ligação direta para a rua, pareceu-nos mais aprazível.

E o que é que senti? Que há, de facto, uma preocupação para nos tranquilizar, mas que não há fundamentalismos. 

Há regras de segurança mas não me senti nada constrangida. Não me senti controlada, entendem? Por vezes as pessoas podem achar que esta questão do confinamento pode tirar algum prazer na refeição e na saída para um restaurante, mas não. 

Posso dizer que fui almoçar com a Ana, de uma forma muito descontraída. Aproveitei, desfrutei da comida que estava ótima e desfrutei do ambiente, porque esse também era o receio, de não haver ambiente. Mas não. 

As pessoas entram, cumprem as regras e são civilizadas. Obviamente que a lotação é reduzida, mas, visualmente, tirando os empregados que estão sempre de máscara, por razões óbvias, tudo o resto me parecia normal, e tive uma refeição perfeitamente normal. 

Achei interessante o QR code, que faz com que os clientes, se não quiserem tocar na ementa, não tocam, o que é bom. De qualquer das formas está sempre desinfetada. E foi um almoço normal. 

O meu grande receio era que uma saída para almoçar, ou jantar, não deixa de ser, também, um ato social.Muitas vezes vezes nós vamos almoçar ou jantar não é porque temos fome e não nos apetece cozinhar em casa. Não, simplesmente porque queremos desfrutar do espaço, da companhia, e ter um programa diferente. E o meu grande receio é que essa magia do jantar fora, porque os portugueses são muito de jantar fora e gostamos de experimentar novos restaurantes, se perdesse, mas não, não se perdeu. Muito pelo contrário. Até se sente que as pessoas estão felizes de estar nos restaurantes, a jantar ou almoçar fora. Portanto acho que, mantendo as regras de segurança da DGS, isto tem tudo para continuar a dar certo. 

Adorámos o restaurante. A minha Buddha Bowl de Quinoa estava deliciosa. Adorei a pak choi escaldada que vinha por cima. E no final, quando foi para ir embora, só me apetecia dizer “só mais cinco minutos”.

Senti-me muito bem. Fui muito bem tratada. Nota-se que os próprios empregados estão felizes de estar a trabalhar, que tinham saudades de comunicar, de falar com pessoas. E isso é uma coisa que se sente. Não só entre nós, mas também ao observar os empregados a irem às outras mesas. Estavam felizes por estarem a trabalhar e comunicar com os outros. E isso é muito bonito de se ver nos restaurantes. Nota-se uma energia completamente diferente. 

Dentro das coisas menos boas, eu acho que este confinamento vai ter a capacidade de despertar, ainda mais, o lado bom das pessoas. E, claramente, o melhor lado é o da partilha, e foi isso que aconteceu.

Por isso venham, saíam, desconfinem, porque vale a pena, desde que cumpram com todas as regras de segurança. 

Texto escrito por Ana Gordo e Isabel Silva