I Am Isabel Silva

Foram dez dias, mas agora, chegou ao fim o meu isolamento, e quero contar-vos tudo sobre ele

Depois de ter passado 47 dias em casa durante a quarentena obrigatória, foram mais dez dias de isolamento, mas que me ensinaram muito, e quero partilhar tudo convosco.

Queridos leitores, hoje chegou ao fim o meu isolamento de dez dias, após ter testado positivo ao vírus da COVID-19. Cumpri todas as normas que me foram recomendadas pela minha médica de família, de acordo com as normas definidas pela Direção-Geral da Saúde, que me acompanhou desde o primeiro dia e me foi ligando diariamente para saber como estava. À parte do olfato e paladar, que ainda deverão demorar algum tempo até regressarem em pleno, estou bem, e é também por isso que este dia é tão especial.

Hoje, quero partilhar o que vivi e senti nos dez dias em que estive isolada, sem poder sair à rua. 

Mas se achavam que estive fechada a sete chaves, como se costuma dizer, estão enganados. Continuei a sair, sim, mas sem deixar a minha casa. Fui todos os dias para a minha rica varanda, e para o meu eterno mundo de pensamentos positivos e empreendedores. E posso dizer-vos que foi uma lufada de ar fresco!

Tudo tem o seu tempo. E devemos respeitar e investir o nosso tempo a fazer as coisas que nos fazem bem. Ao contrário dos 47 dias de confinamento que todos vivemos no estado de emergência, estes dez dias que passei em isolamento foram mais desafiantes para mim. 

Estar infetada com um vírus que mata dá medo e impõe respeito. E não acontece só aos outros. Calha a todos, inclusive, aos jovens robustos que sabem que têm uma saúde de ferro. Vejam o  o meu caso. Apesar dos sintomas ligeiros que tive —  as ligeiras dores de corpo que duram apenas um dia e aperda súbita de olfato e paladar , e dos cuidados base a que este “novo normal” obriga — o uso de máscara, o distanciamento social e desinfeção regular de mãos —, o meu sistema imunitário não se safou e foi apanhado na curva.

Saber que ele está cá dentro foi um grande abanão. Uma tomada de consciência ainda maior para o nosso sentido de responsabilidade para com todos. O isolamento obrigou-me ao mesmo recolher obrigatório pelo qual todos estamos a passar neste momento, mas só o facto de saber que faço parte daquele número de infetados de que ouvimos todos os dias falar nas notícias levou-me para uma outra dimensão dos meus pensamentos. 

E eu andei por lá, sobretudo quando falava com os meus avós ao telefone e percebia o quanto é mesmo importante estar fisicamente longe deles, quando ia à varanda fazer as primeiras respirações profundas do dia. Mas, desta vez, não havia corrida na Cidade Universitária, e quando os meus queridos vizinhos tocavam à campainha — às 6h40 da madrugada e às 17h30 —, para passear o Caju, eu, do 9.º andar do meu prédio, apreciava o passeio e pensava em como seria espetacular poder estar ali, naquela que é a minha rotina de passear o meu cão e depois ir beber um café no “Pão aos Pedaços”.

Sair à rua, quer esteja sol, nevoeiro, chuva, vento, frio ou calor faz parte dos nossos desejos mais primários. Arejar, respirar, olhar e sentir a natureza que nos rodeia é prazeroso, gratificante e essencial, mas só me apercebi verdadeiramente da importância desta rotina quando me vi privada dela.

A liberdade é mesmo a maior dádiva do mundo. Eu sei que é, mas este isolamento quis marcar a sua posição e mostrar-me as diferenças, como quem diz “agora vá, diz-me lá que eu não sou mais duro do que o outro isolamento dos 47 dias!” 

Mas, honestamente, acham que tudo isto — com toda a importância do mundo que tem — me tirou o estado positivo e sereno? Nem pensar. Acredito que tudo o que acontece na vida — seja inesperado ou não —, tem sempre um lado bom, quanto mais não seja o de sair da zona de conforto e procurar novos pontos de equilíbrio. 

O que é que eu aprendi com este isolamento

Em primeiro lugar, a acreditar que tudo vai passar. Que há um principio, meio e fim para tudo nesta vida. 

Em segundo lugar, a identificar o que gostava de fazer, já não podia fazer e como poderia adaptar-me.

Finalmente, a abraçar novas rotinas.

Agora, assim de repente, lembrei-me de um exemplo perfeito que acontece com frequência quando corro em dias de vento. Nos treinos mais duros, de velocidade e de longa duração, o vento de frente tira qualquer motivação e vontade de manter o foco e o ritmo. Mas em vez de me deixar derrotar por esses sentimentos, na minha cabeça, transformo o problema em desafio. “Ai é? ‘Bora, Isabel, continua”, e aproveito este vento para ativar o core e trabalhar força. Um corredor não vive só de umas pernas fortes.

Sempre fui assim. Às vezes sou um bocado dura comigo, mas em muitos casos só me traz coisas boas.

“Ai é? Não sais à rua para correr, passear o Caju, nem mesmo para ir à arrecadação do prédio ou passar pela entrada e dar um ‘bom dia’ ao porteiro?”

Se não posso treinar na rua, conviver com a família do bairro e, sobretudo, não tenho a mesma energia porque o vírus quis roubar-me o que não lhe pertence, então, vou ajustar-me.

Os meus treinos durante o isolamento

Nos primeiros dias, confesso que a minha energia não estava a cem por cento.

Apesar dos sintomas ligeiros, a verdade é que o sistema imunitário está mais débil e, por essa razão, a minha forma de treino mudou radicalmente. Mais do que um treinador, o Paulo Colaço é o amigo e confidente que me faz ver o lado certo das coisas. 

Dar atividade ao corpo passa, sobretudo, por despertá-lo e ativá-lo para começar o dia com boas sensações. Consoante as minhas reações aos treinos, ajustávamos a sua tipologia. Durante os seis primeiros dias, fiz um trabalho fabuloso de força, mobilidade e equilíbrio, sem comprometer a parte respiratória e cardiovascular. Mantive a rotina de acordar com o dia a nascer, abria as portadas da sala e deixava a aragem entrar. 

Todos os dias, durante 40 minutos, investi o meu tempo no meu corpo e no respeito pela minha serenidade. O compromisso a esta primeira rotina do dia foi o principio da minha alegria diária. 

O meu refúgio: a varanda do meu T1

Nem no verão vim tantas vezes à varanda como durante este isolamento. Tinha sempre um post-it junto ao meu computador como lembrete para ir lá fora apanhar vitamina D, um nutriente essencial para a vitalidade do nosso corpo. 

Dormir, a minha maior falha

Foi talvez aqui que mais falhei, algo que não acontece na minha rotina normal.

E porque é que falhei? Porque estar em isolamento obrigou-me a ter um outro post-it junto ao computador onde escrevi: “conversa com as pessoas de que gostas”. 

Não é de todo uma obrigação mas, entre reuniões de trabalho, artigos para escrever e foco nos momentos de criatividade para criar projetos, foram alguns os dias em que o relógio já apontava para as 19h30 e eu ainda estava em frente ao computador. O tempo voa quando fazemos aquilo de que mais gostamos. 

Mas se o foco era deitar-me às 21h30, ainda tinha de jantar e, claro, promover alguma vida social para lá dos amigos de trabalho, então dificilmente me iria deitar antes das 23 horas. E assim foi. Mas está tudo certo. Roubei aqui, ganhei ali, depois volto à rotina. Não é assim a lei da vida? “Keep the Balance”, já diz o íman do meu frigorífico.

Comer, para nutrir o meu corpo

Que verbo tão lindo! Fui feita para comer. Há muito poucas coisas na vida que me dão tanto prazer como comer, mas comer na dose certa, com o sabor certo e nas horas certas. 

Passo parte do meu tempo a pensar no que vou, preciso e quero comer porque, para lá do sabor, interessa-me dar ao corpo os nutrientes certos para manter o sistema imunitário forte.

Mais do que nunca, impõe-se não ratar e comer só na hora do pequeno-almoço, lanches, jantar e almoço. Dizer não aos açúcares, dizer sim aos hidratos e gorduras de qualidade, apostar ainda mais nos alimentos anti-inflamatórios, comer muitos vegetais, e manter-me hidratada. Nesta fase de isolamento, valeram-me as encomendas dos cabazes da Quinta do Arneiro e a mercearia do meu bairro, o Alecrim Aos Molhos.

Um pequeno grande detalhe que fez com que tudo isto tivesse metade da graça: eu perdi completamente o olfato e paladar. Ainda sinto saudades deles.

Este foi o maior sintoma que a COVID-19 provocou no meu corpo.

Tenho cá em casa o perfume da minha mãe. Adoro cheirá-lo porque faz-me sentir mais perto dela. Deixei de a sentir. O cheiro do meu Caju, que me conforta e me dá vontade de o abraçar ainda mais, deixe de o sentir. O sabor do café, do azeite, do cacau e das especiarias que uso nas minhas refeições, deixei de o sentir. 

O sabor tornou-se indiferente, mas acho que nunca perdi o apetite porque agarrei-me Às texturas. Apostei em sopas cremosas e quentinhas com toppings de sementes; comia tostas de arroz com fartura porque aquele sabor estaladiço satisfazia-me como nunca. Pão torrado também foi uma das minhas apostas porque, apesar de não ter sabor, agradava-me o trincar e o quente da torradeira. 

Quais os alimentos que comia que me davam algum sabor? Os mais intensos e maduros.

Curcuma, gengibre e rabanete:  por serem sabores muito fortes, conseguia sentir-lhes ligeiramente o sabor.

Banana madura: se estivesse bem madura, deliciava-me com este pequeno grande deleite.

Bebida vegetal de aveia: acho até que abusei desta bebida. 

Óleo essencial de eucalipto: todos os dias cheiro este óleo. É bastante forte e é também umas das formas de treinar o olfato e desentupir as vias respiratórias. 

Café: não posso dizer que sinto o sabor do café, mas talvez o seu travo forte, e isso para mim já é uma vitoria.

Aguardo notícias destes dois sentidos. Sei que a recuperação é lenta, ao contrário da perda que, no meu caso, foi súbita, mas acredito que dentro de semanas já vou estar a 100%.

Ver sempre o LADO B(om) 

Mesmo a decisão mais acertada e segura que tomei na minha vida vai sempre trazer-me momentos menos bons. O que importa é saber que, quando coloco tudo na balança, o lado bom é o mais pesado e o mau é uma oportunidade de aprendizagem.

Neste caso, o isolamento total tornou a criar em mim o hábito de estar mais vezes comigo própria. Ainda mais. Sempre gostei de viver o meu espaço e, se bem se recordam, na altura do estado de emergência escrevi precisamente um artigo sobre isso. Recordem-no aqui.

Porém, quando a vida retomou, mesmo sendo um novo normal, a agitação e adrenalina do dia a dia voltou. À parte estar ainda mais consciente da importância e necessidade que tenho em criar momentos de reflexão sobre tudo o que se passa à minha volta e comigo própria, a verdade é que a sociedade pede-nos tanto que, por vezes, tenho dificuldade em colocar um travão.

E depois vem o stresse, que me torna ansiosa. E depois tenho dificuldade em concentrar-me e focar-me porque estou ansiosa. E depois sinto-me sempre a mil, mesmo em dias calmos. 

No meu caso, estas sensações são secundárias, mas não deixam de ser preocupantes. São sinais que o corpo me está a dar, e tenho de ter tempo e prestar-lhes a devida atenção. Porque um dia podem ser irreversíveis. 

Este isolamento trouxe-me novamente um equilíbrio ao meu eu. Porque sou a pessoa mais importante da minha vida, tão importante como o meu entusiasmo para trabalhar nos meus projetos, como o meu perfeccionismo, vontade de comer bem e exercitar-me, é a paz da minha saúde mental. 

Levei alguns dias a desacelerar, mas consegui. Meu rico isolamento! Obrigada!

Agora o meu desafio é ter sempre ferramentas diárias que me ajudem a não desvalorizar os momentos que me permitem descelarar. A saber:

  • Estar mais com amigos que não trabalham comigo;
  • Criar mais momentos de lazer, seja a ver séries ou filmes;
  • Criar mais momentos para estar com as minhas plantas cá de casa;
  • Ir ainda mais vezes ao Norte ter com a família;
  • Nunca esquecer quais são os meus três grandes focos.

Estar infetada com o vírus da COVID-19 fez-me sentir que a vida é um sopro. Que somos tudo mas que, de repente, não somos nada. Sou do team fazer acontecer, e acredito que nós fazemos o nosso caminho. Mas, tal como no dia em que corremos uma maratona, por muito boa preparação que tenhamos feito, o sucesso nunca vai depender só de nós, mas também de factores externos.

O meu pensamento é muito simples e pragmático. Só preciso de sentir que dei o meu melhor e que fiz tudo o que estava ao meu alcance para que tudo corresse pelo melhor. Porque quem dá o que tem, a mais não é obrigado.

Ser grato e respeitar. Ser leve e positivo, mas consciente e responsável. 

Tenham atenção na rua. Usem a vossa linda máscara, mantenham o distanciamento e guardem na vossa mala o gel desinfetante. Quando forem ao restaurante tirem a máscara apenas para comer, e socializem com a máscara no rosto. Sigam as regras de quem cuida de nós. E sobretudo, estejam bem informados. Sejam curiosos e queiram sempre saber e conhecer mais. 

A desinformação reflete-se no maior risco de contágio. 

Pratiquem o bem, que o resto vem.