Exercício

Será que devemos treinar com dores musculares? Um PT responde

Sabemos que o descanso pós-treino é fundamental, mas também que devemos ser ativos, se possível, todos os dias. E quando há dores musculares?

Ter dores musculares no pós-treino é um agridoce: tanto nos transmite a sensação de que o treino foi puxado, como só a ideia de ir à casa de banho é dolorosa. Muitas vezes estas dores aparecem após períodos extensos sem treinar, o que condiciona os treinos seguintes. Mesmo assim, vamos, mas será que devemos?

Fomos à procura da resposta junto de um personal trainer, mas, primeiro, quisemos saber o que são, afinal, as dores musculares.

“As dores musculares são, de uma forma muito geral, uma resposta do nosso organismo ao treino. Durante o processo de treino, existe uma série de adaptações fisiológicas nomeadamente o rompimento das fibras musculares e é a reparação das mesmas que causa as dores após o treino”, explica o Pedro Gonçalves à dobem.

Isto significa que as dores são apenas um sinal de que o corpo está a readaptar-se a um estímulo, o que não é sinónimo de um treino eficaz. “Depende muito do tipo de treino que estamos a fazer, porque, por exemplo, um treino de força vai ter maior probabilidade de causar dores musculares do que um treino cardiovascular e este não deixa de ser um treino”, diz Pedro Gonçalves.

“Para além disso, o corpo dorido nem sempre é uma consequência positiva e esta afirmação está relacionada com um dos maiores mitos do fitness, pois se um treino nos deixar excessivamente doridos poderá significar que o estímulo não foi o mais adequado para nós naquele momento”, alerta.

Da mesma forma, as dores musculares podem, por vezes, ser indicadoras de uma possível lesão, nomeadamente uma mialgia de esforço ou mesmo algo mais grave, revela o personal trainer.

Já quando as dores deixam de aparecer após o treino, pode significar que está na altura de adaptar o plano e seguir para um patamar mais exigente.

É possível evitar a dor pós-treino?

Costumamos dizer “no pain, no gain” (“sem dor, não há ganho”), mas a expressão não tem de ser levada à letra no que diz respeito ao pós-treino. Apesar de as dores musculares serem normais, não têm de ser extremas — ao ponto de ter dificuldade em subir ou descer meia dúzia de degraus.

Primeiro, é preciso garantir que está a ter o estímulo de treino adequado para minimizar a dor. Segundo, há que cumprir com aquilo que o levou a treinar: ter hábitos saudáveis.

“Fazer uma boa alimentação, hidratação e em alguns casos um treino de recuperação no dia seguinte (treino de menor intensidade)”, é, segundo Pedro Gonçalves, a chave para evitar maiores dores musculares.

Mas se, ainda assim, as dores persistirem no dia seguinte a um treino, podemos treinar em esforço? “Poder podemos, contudo não é a situação ideal”, esclarece o PT.

Tudo vai depender do nível de cada pessoa. Para alguém que se está a iniciar no exercício físico, “treinar com o corpo dorido é quase inevitável”, segundo Pedro Gonçalves, uma vez que pode ser a causa de “alguma deficiência na técnica de treino ou contrações musculares em zonas que não são supostas”, diz.

Já para alguém familiarizado com o exercício físico, “essas dores são associadas a um desgaste e recuperação da musculatura trabalhada anteriormente e nesses casos não é de todo positivo voltar a treinar os músculos lesados”, acrescenta.

No entanto, há uma alternativa para quem não consegue mesmo ficar parado, e quer treinar com dores musculares, mas com o maior conforto possível. “Fazer uma boa recuperação ativa (uma corrida, por exemplo) é muito mais benéfico do que ficar no sofá à espera que as dores vão embora”, sugere o personal trainer.

Treinar com dores musculares ajuda a superá-las. Mito ou verdade?

Quando usamos as dores como argumento para não treinar no dia seguinte, do nosso lado soa sempre a desculpa e do outro vem sempre um ataque: “Se treinares as dores passam.”

A verdade é que muitas vezes fomos nesta conversa e depois de dar alguma atividade aos músculos, eles lá cederam e o treino não custou assim tanto. Mas a dúvida continua a pairar. Será mito ou verdade? “Depende”, garante o personal trainer à dobem.

“Se for um treino com uma intensidade mais baixa e que trabalhe capacidades distintas do treino que provocou essas dores, pode ajudar na recuperação”, explica o personal trainer.

No entanto, sabemos que há sempre um “mas”. “Voltar a treinar com intensidade elevada para recuperar as dores musculares é um mito. A recuperação ativa ajuda os músculos a voltar ao seu estado normal, aliviando o stress naturalmente provocado pelo treino”, refere Pedro Gonçalves.

No fundo, o segredo é “ouvir o nosso corpo, pois os dias de repouso total são também eles de extrema importância”, termina o especialista em exercício físico.