maratona de nova iorque

Exercício

Maratona de Nova Iorque #1: Tinha tudo a meu favor, mas fiz uma estupidez que mudou as coisas

Passei três meses a preparar-me para a minha quarta major, e a verdade é que estava preparada. Mas cometi um erro que, ainda hoje, não sei explicar porque o fiz.

Quando no início de 2019 vos contei que vinha aí um dia muito especial, estava longe de imaginar que a Maratona de Londres ia ser apenas a primeira Major que corria este ano e que no final do ano estaria a percorrer os 42,195 metros da Maratona de Nova Iorque. Para quem não sabe, existem seis grande maratonas no mundo, as chamadas Six Major: Berlim, Londres, Chicago, Tóquio, Nova Iorque e Boston. Boston e Berlim já cá cantam, e no início do ano, a convite da New Balance, fui a Londres correr mais 42,195 metros — recordem aqui o vídeo onde vos contei esta novidade.

É o sonho de qualquer maratonista correr nestas cidades. Pelo desafio, mas sobretudo, pela energia, carinho e incentivo que sentimos nas ruas. Sentimo-nos como heróis, porque terminar aquela prova é um grande feito e determina muito quem nos somos. Dá-nos confiança e atitude para as outras esferas da nossa vida. Mas isso é um tema que tem pano para mangas, por isso, prefiro guardá-lo para mais tarde e focar-me apenas na experiência daquela que, para mim, foi a Maratona — entre as quatro das six major que já corri — mais emotiva, alegre e organizada de todas. Mas isto é apenas o que eu tenho a dizer sobre a Maratona em si. A minha prova, que corri na manhã do dia 3 de novembro, foi bem diferente.

Sabem quando que as coisas têm uma energia fenomenal mas nós, apesar de quereremos muito agarrar esse power, não conseguimos? Pois, eu tentei agarrá-lo, e até cortei a meta em 3h21’, e foi lindo chorar no final — de alegria, claro —, porque tudo valeu a pena. Desde a preparação até ao dia em que me sentei para vos escrever este texto. Da mesma forma que correr, correr durante muito tempo, na estrada, à beira mar, na montanha ou num outro lugar inspirador, será sempre umas das grandes paixões da minha vida. Porque correr dá-me a cura. Tira de mim tudo o que é tóxico e ajuda-me a simplificar. Quero correr com saúde até ao resto da minha vida.

Mas durante não foi muito fixe.

Um pequeno deslize no dia anterior mudou tudo, e quero partilhá-lo convosco, mas há um outro fator que teve influência na minha performance naquela manhã, e que eu só percebi o peso que ele teve algumas semanas depois da Maratona de Nova Iorque. E sabem porquê? Porque as respostas às perguntas que colocamos a nós próprios levam tempo. E agora que eu já refleti, chegou a hora de partilhar. Não imaginam como é libertador e o quanto me faz bem partilhar estas experiências.

Há dias li um post no Instagram do Hotel Feel Viana que me fez todo o sentido. A imagem da praia do Cabedelo ao final do dia, as gaivotas a sobrevoar o mar e esta frase: “The Secret to happiness is freedom. And the secret to freedom is courage.”

É que é “mêeeeeeeem isto”!

2 de novembro: o dia anterior à prova

Na manhã antes da prova acordei motivada e confiante. Saltei da cama, abri a janela e espreitei para a rua sem conseguir perceber se estava um incríBel dia de sol, porque estava rodeada de prédios com umas boas dezenas de metros altura, mas percebi que a rua estava calma. Pudera, fiquei numa Airbnb em Wall Street e aquela zona não é propriamente uma área residencial, mas dava jeito pela proximidade ao ferry que, no dia seguinte, me levaria até ao ponto de partida da prova: Staten Island.

Para mim, quanto mais próxima ficar da zona de partida, melhor. Fico menos stressada e tenho menos preocupações, porque para isso já bastam aquelas que surgem quando menos esperamos. Mais vale controlar aquelas que só dependem de nós.

Mesmo não tendo o sol a bater-me no rosto, estava cheia de vontade de fazer a minha corrida de ativação em Battery Park, que ficava ao lado de casa. Este parque não é tão grandioso como o Central Park, mas é igualmente inspirador pela proximidade ao rio, pela vista desafogada, sem prédios e buzinas de carros e, sobretudo, pelo modo de vida que está ali presente.

É ali que os Nova Iorquinos gostam de praticar desporto. Há espaço para correr, para fazer caminhadas, campos de voleibol de praia, de skate, ténis e padel, parques para as crianças brincarem, artistas a pintar, famílias a passear, esplanadas para desacelerar e jardins com árvores lindas. Sinto que tenho de perder tempo nesta descrição, porque sempre que ali chegava para começar a correr sentia-me feliz, porque o universo meu estava a dar a oportunidade de respirar tudo isto. Às vezes o truque para mudarmos o nosso humor está nestes pormenores. Respirar, observar, absorver e depois partir para a corrida.

Depois de admirar tudo isto, sempre com muita calma, lá fui correr durante 30 minutos. Só fiz umas retas, para dar uma animada. Recordo-me que pedi ao João — que também veio correr esta prova pela primeira vez — para no último quilómetro do treino correr ao meu lado ao ritmo que eu queria colocar na maratona — 4:40 min/km. Não queria olhar para o relógio e queria apenas escutar as sensações do meu corpo.

“Estás neste momento a ritmo de Maratona” — disse o João a uma certa altura.

ImpecáBel! Era mesmo isto que queria sentir. Estava muito confortável naquele ritmo, com o touro cá dentro desejoso de ser solto, com as pernas leves e soltas.

“Isabel, agora tens de ter calma. Segura o entusiasmo e amanhã soltas tudo na segunda metade da prova”, pensava para mim mesma.

Lembro-me de ter esta sensação na Maratona de Boston, na de Roma, no Porto e em Sevilha, mas não a tive em Berlim. Pelo contrário, sentia que estava num ligeiro esforço. Não há nada como avaliar as experiências que já vivemos para nos tornarmos mais fortes nas próximas.

Resumindo, sabem o que é que isto significa? Se não estou cansada e se estou cheia de power, fiz um bom tappering, ou seja, dei o devido descanso ativo nos 15 dias que antecederam a prova.

“Johny, agora é chegar a casa, tomar um banho e seguir para o Whole Foods para almoçar. Aproveitamos e compramos já o nosso jantar  e vimos para casa descansar” — disse tudo isto mega confiançuda porque, em boa verdade, agora era só mesmo comer, dormir e ir correr. Fiz tudo certo até aqui.

A única coisa que fiz de errado, e ainda hoje não sei bem explicar bem porquê, foi ter mudado uma pequena rotina no meu almoço. Mas já lá vamos.

Escolhi o Whole Foods porque é um supermercado mas dá para almoçar, porque tem uma zona de buffet com produtos de ótima qualidade — desde saladas com leguminosas, arroz, millet, quinoa, etc —, e que vêm sempre na dose certa. O difícil é escolher. Nesse dia optei por uma refeição colorida e consistente, vegana, porque me facilita a digestão, e isso para mim é fundamental na véspera de uma prova.

Não há nada que me irrite mais do que, passadas quatro horas da refeição, sentir que ainda estou a “arrotar” a comida, o que me acontece muito quando como peixe ou carne grelhada, pior ainda se o prato estiver bem condimentado, por isso, habituei-me a comer comida consistente, cozinhada de forma simples, a vapor, cozida, com pouco sal e temperado com ervas aromáticas. É assim que me sinto bem, e realmente importa o que sentimos, sempre.

Todos os dias como sopa, mas naquele almoço não havia sopa do meu agrado. À falta disso, decidi substituir por um smoothie que já tinha experimentado num outro dia. Era de outro sabor, mas como gostei da marca e da lista de ingredientes achei — estupidamente, percebi depois — que aquilo ia fazer o mesmo que uma sopa. Só vos digo que era tão saboroso que o bebi de uma assentada e, como estava com alguma fome, rapidamente passei para o prato principal.

Outra asneira: comer rápido. É que nem dei tempo ao cérebro para me dar o sinal de que, se calhar, não devia comer mais, porque na verdade aquele smoothie já me tinha alimentado quase até ao jantar. Ao invés, continuei a comer porque tinha de abastecer o depósito. Achava eu, porque não tinha, bastava comer com calma e escutar o meu corpo, uma coisa em que tanto acredito mas que, neste dia, fiz ao contrário.

Quando estava nas últimas garfadas da refeição sentia-me a abarrotar, mas  depois via o João a comer com tanto prazer que dei por mim a achar que devia estar no mesmo estado. Só que não.

Estão a ver quando têm a barriga tão inchada que parece que têm de fugir de uma agulha porque se ela pica vocês rebentam? Já não me lembrava de estar assim há muito tempo. Levantei-me e fui à casa de banho e, quando voltei, disse ao João: “preciso de andar, vamos andar até casa a ver se isto passa”, e lá fomos. Durante alguns minutos o João ainda achou que estava a brincar, mas depois lá começou a perceber que aquilo me estava a afetar, a mudar o meu mood e a mexer com o entusiasmo que tinha para a Maratona de Nova Iorque.

A prova era no dia seguinte, às 8h30 da manhã, nem dali a 24 horas, e às 15 horas do dia anterior estava com uma má disposição daquelas de andar a chá e torradas no dia seguinte. Não para correr 42,195 metros. Entendem?

Eu sabia que aquilo que tinha não era grave. Só para entenderem o que se estava a passar, num dia normal, provavelmente já não comia mais nesse dia e, antes de me deitar, depois de umas belas caminhadas, tomava um cházinho e ia para a cama. Mas neste dia em específico o cenário era totalmente diferente. Estava a programar jantar às 19 horas, dar tempo de fazer a digestão até ali às 21h30 e, depois, ia-me deitar. O despertador ia tocar às 3h30 da madrugada.

É que isto das majors é muito bonito, mas implica alguma logística. Na Maratona de Nova Iorque são 45 mil pessoas a correr e, por isso, para garantir que o tiro de partida é dado à hora certa, há que antecipar. É preciso apanhar o ferry para Staten Island e o nosso partia às 5 horas da manhã. Tinha de sair de casa 30 minutos antes e preparar tudo para sair. Daí ter de acordar tão cedo. Já em Boston tive este sentimento de que, antes de começar a prova, já tinha corrido outra maratona. Mas vale sempre a pena.

Bem, mas voltando à minha barrigada, a verdade é que da maneira que estava nem às 19 horas do dia seguinte ia ter vontade de comer. Estava agoniada, com uma ligeira vontade de vomitar, até. O João foi comprar uma água com gás por volta das 18 horas, e isso ajudou, mas não ao ponto de me dar vontade de comer. Claro que tudo isto gerou uma tristeza e ligeira revolta comigo própria. Porque este era um deslize que eu podia controlar, e não controlei.

Tentei não dramatizar e manter-me calma. Acabei por jantar às 21h30, forçada, porque sabia que ia precisar daquela energia a meio da prova. Mas la está: como em tudo na vida, quando tudo é forçado, arrancado a ferros, as coisas não acontecem do jeito que gostaríamos que acontecessem.

Corri a Maratona de Nova Iorque e estou grata, a mim e ao Universo. Sinto-me genuinamente feliz e orgulhosa mas, caraças, no fundo, eu podia ter curtido tanto aquela corrida e ter feito uma prova do caraças, com aquela energia que eu tanto gosto e que tem a capacidade de se multiplicar a segunda metade da prova e dá uma adrenalina que não encontro em mais lado nenhum. A verdade é esta: tinha tudo a meu favor.

Só que não. Porque apesar do apetite inesperado que tive para o pequeno-almoço, essa refeição não foi suficiente para evitar a marretada que levei ao passar a Ponte de Queens.

Defendo e sei bem a importância que uma alimentação adequada tem no nosso rendimento. Quando praticamos desportos de grande intensidade e de longa duração, ainda se torna mais desafiante perceber o que devemos comer, em que quantidade e com que antecedência. Falo por mim que, durante a preparação, tenho apetite e necessidades muito superiores às de uma fase normal de atividade física. O meu objetivo aqui é apenas partilhar convosco como um pequeno detalhe conseguiu ter uma influencia tão importante e deixar-me em stresse.

Possivelmente muitos iriam lidar de uma forma mais calma e ponderada do que eu, mas como, efetivamente, sou aquilo que como, às vezes basta-me uma pequena indisposição para me sentir completamente arruinada.

Até podem ter existido outras coisas a ajudar. Mas a principal eu identifiquei-a de imediato, mal terminei de beber meio litro de um Smoothie de gengibre, curcuma e bebida de caju, durante a refeição, uma coisa que nunca faço. “Se nunca o fazes, porque é que o fizeste nesse dia que era tão importante?”, perguntam vocês, e eu digo-vos: não sei. É estúpido, mas fiz.

A verdade é que sou muito mais do que um smoothie, caso contrario não tinha agora a medalha da Maratona de Nova Iorque aqui ao meu lado enquanto escrevo este texto. Porém, se o tivesse evitado, certamente que me teria sentido muito mais confiante. E a confiança é meio caminho andado para concretizarmos com atitude.