Quando um tema aparentemente “de nicho” se revela numa porta para algo maior, a DoBem vibra! A genealogia tem esse poder. Começa como curiosidade e transforma-se numa viagem de pertença, reconciliação e sentido sistémico. Nesta história que inspira, damos palco à Vera Santos, genealogista e criadora de Raízes Ancestrais, que nos leva pela sua própria travessia. Uma travessia onde datas e nomes se tornam pessoas. Onde o passado não é prisão, mas pista. Onde a sistémica deixa de ser teoria e se mostra, viva, na pele de uma família.
Comecei na genealogia entre 2020 e 2021, na altura do Covid. No início, isto nasceu de uma curiosidade partilhada com o meu ex-marido. Ele tinha documentação da família e queria saber mais. Eu aproveitei a deixa e ajudei.

Só que a minha curiosidade tinha um foco muito específico: queria conhecer a minha parte paterna, porque eu nunca conheci a minha avó paterna. Ela morreu meses antes de eu nascer e cresci a ouvir uma frase que me ficou marcada: “Faleceu uma e ficou cá a outra.” Diziam que não era só o aspeto físico: era a forma de estar, a personalidade, o jeito curioso, questionador, atento a tudo e a todos. Eu nunca tinha convivido com ela e, mesmo assim, havia ali qualquer coisa que me chamava.
E depois havia um detalhe que me intrigava desde sempre: um sobrenome espanhol na família, lado paterno, Rodeiro, vindo dessa linha. Eu perguntava à minha tia-avó de onde vinha aquilo. Ela não me sabia explicar. E pode parecer pequeno, mas para mim não era. Como é que um nome atravessa gerações e ninguém sabe de onde veio? A ausência de resposta foi, literalmente, o começo.
O que é genealogia, afinal?

Genealogia, para mim, é isto: a arte e o método de seguir pistas para reconstruir uma história familiar com base em documentos, registos e memórias. Mas não é só “fazer uma árvore”. É fazer perguntas à vida. É procurar certidões, cruzar dados, perceber lugares, ligar datas, validar nomes. É como montar um puzzle gigante onde, às vezes, falta a peça principal e temos de aprender a procurar por caminhos alternativos.
Só que há uma verdade que eu aprendi depressa. O documento dá-te factos. A história dá-te alma. E foi aí que isto deixou de ser uma curiosidade documental para passar a ser uma paixão.
Quando a curiosidade encontra um segredo
Comecei com o básico. Pedi certidões. Fui buscar registos de nascimento dos meus avós. E foi nesse caminho, simples e objetivo, que apareceu a primeira “revelação” que ninguém na família sabia.

Descobri que a minha bisavó, com quem eu ainda cheguei a privar, era filha de pai incógnito e acabou por ser adotada por quem viria a ser o meu trisavô. Quando contei isto, a minha tia e a minha avó ficaram surpreendidas. Não faziam ideia. Aquilo não era um escândalo, nem um drama. Mas era uma peça importante da nossa história. Uma peça que tinha ficado escondida, talvez por vergonha, talvez por silêncio, talvez porque ninguém achou que importava.
E é aqui que a genealogia começa a mostrar o que é. Porque, quando se encontra um segredo, não se encontra só um facto. Encontra-se uma pergunta. E muitas vezes a pergunta é emocional. O que ficou por dizer? Quem ficou por reconhecer? Quem ficou sozinho?
O momento em que a árvore deixa de ser hobby

Eu comecei isto para deixar um legado para os meus filhos. Um registo. Uma pertença. Uma memória. E ao longo do tempo fui partilhando com eles as descobertas, as curiosidades, os nomes, os lugares. Eu queria que eles sentissem vínculo e orgulho. Que soubessem que pertencem a uma linha. Que existe uma história antes deles.
Hoje, vejo o meu filho mais velho falar disso na escola, nas aulas de História, fazer perguntas sobre enquadramentos, ligar a vida dele a um passado real. E isso deixa-me feliz, porque aquilo que começou como “brincadeira” começou a ficar sério.
A fase em que os documentos já não chegam
Depois de ter a informação documental organizada, fui à procura de mais. E o “mais” já não eram documentos. Eram histórias.

No verão de 2022, as minhas tardes foram passadas a conversar com a minha avó materna. Ela era detentora de muita informação do lado dela. Nem tudo era vivido, porque ela também perdeu a mãe cedo, mas as histórias passavam. E eu queria entender não só o que aconteceu, mas como as pessoas eram. Como reagiam. Como amavam. Como sobreviviam.
Eu queria perceber personalidades, para perceber padrões. Para perceber o que é que eu própria estava a carregar para a minha vida sem me pertencer. Sem dar conta, eu comecei a assumir um papel que hoje reconheço com clareza. Um papel de cura familiar.
Quando a vida obriga a olhar para trás
Em 2024, a minha vida mudou radicalmente. Passei por um divórcio emocionalmente complicado. Fui confrontada com dores que senti, com uma certeza estranha e nítida, que não eram só minhas. Tive burnout. Tive internamento. Tive acompanhamento psiquiátrico e psicológico.
E há uma coisa que só se entende quando se passa por dentro. Num internamento, num hospital, numa ala psiquiátrica, não tens acesso a distrações. Não tens acesso à vida lá fora. Tens acesso à tua mente e às tuas emoções. E quando não há fuga, tudo vem à tona.
No dia em que fui convidada a ficar internada, sem previsão de saída, eu estava numa cadeira de rodas à espera de ser avaliada. Só chorava, não conseguia falar. Ao meu lado estava uma senhora de idade que pediu para me abraçar. E então aconteceu uma coisa que eu nunca consigo contar sem tremer por dentro: essa senhora começou a contar a sua história e era igual à da minha avó, que tinha falecido meses antes. Ela falou de um filho que perdeu, da mesma idade que a minha avó perdeu. Falou de cancro. Descreveu até a forma como se vestia em casa. E era exatamente como a minha avó se vestia. Eu não conseguia olhar. Não por medo, mas por intensidade.
O meu ex-marido, que é muito atento e também muito ligado ao espiritual, começou a fazer perguntas. Perguntou onde ela morava. Ela morava na minha rua. E eu nunca a tinha visto na vida. Depois chamaram-na e, naquele momento, tudo fez clique. Ela tinha o nome da minha avó.
Pode soar loucura para quem lê. Para mim foi sinal. Foi como se a vida dissesse, de forma impossível de ignorar: “Olha. Vê. A cura passa por aqui.”
O dia em que me permiti ser filha
Quando saí do hospital, permiti-me à vida pela primeira vez. Permiti-me ser mimada pelos meus pais. Vivi dois meses em casa deles e permiti-me ser filha.

E isto, para mim, é um ponto de viragem sistémico. Porque eu percebi que, muitas vezes, eu estava no papel de mãe da minha mãe. E quando consegui entrar no meu lugar de filha, algo reorganizou-se por dentro.
A partir do momento em que me permiti ser filha, e não continuar no papel de mãe da minha mãe como tantas vezes aconteceu, algo reorganizou-se dentro de mim. Aqui, eu percebi que o que estava a acontecer não era apenas uma crise individual. Era um momento de consciência. De linhagem. De lugar. A partir dali, senti que alguma coisa começou a curar-se, em mim e na minha família.
O padrão que vi na minha árvore
Quando voltei a olhar para a minha árvore depois desse período, já não vi nomes. Vi pessoas. Pessoas com dores, padrões, silêncios, repetições.
E comecei a identificar um padrão muito forte no meu lado materno. Abandono e rejeição. Eu senti isso em 2024 ao ponto de me abandonar a mim própria. E quando comecei a ligar os pontos, a história ficou quase cruel na sua coerência:
A minha avó perdeu a mãe com dois anos. Andou de casa em casa, porque ninguém a queria. A minha avó casou já grávida, num casamento que “tinha de ser”, e viveu rejeição na relação. Não deu voz aos sentimentos. Gerou a minha mãe e a minha avó tentou abortar a minha mãe durante seis meses. A minha mãe nasceu. Sem problemas. Mas a pergunta fica. Que sentimento fica inscrito nas células quando a tua vida é rejeitada antes de começar?
Eu cresci com uma mãe muito autoritária, pouco acolhedora. A emoção que mais senti foi rejeição. E abandono também. Eu não tenho dores hoje por isso, porque está sanado, mas não está esquecido.
E então aconteceu o que muitas mulheres fazem sem perceber. Quando fui mãe, quase assumi uma missão: mostrar aos meus filhos que eram amados. Dizer “amo-te” sem medo, sem economia, sem vergonha. Como se eu estivesse, sem saber, a quebrar um ciclo.
Há um momento em que eu engravido do meu segundo filho e o primeiro pensamento que me atravessa é “eu não quero estar grávida”. Logo depois tive um descolamento de placenta e a vida pôs-me frente a frente com o espelho. Eu senti-me horrível com a ideia de rejeitar um filho, porque sabia o que essa energia faz. E naquele instante, pensei algo que hoje considero uma chave. “Eu estou a dar voz a algo que não é meu. Isto pertence ao passado.”
Foi assim que comecei a perceber a diferença entre honrar e ser leal. Honrar é reconhecer. Ser leal é repetir. Eu não queria repetir.
“Honrar, mas não ser leal”
Percebi que, no meu divórcio, eu não estava a ser rejeitada como um destino. Tomei uma escolha. Dei o passo. Se alguém rejeita ou abandona, a responsabilidade é dessa pessoa. Não é minha. E foi no momento em que eu tratei isto como consciência, e não como sentença, que tudo mudou.
Tudo mesmo. Hoje vivo em paz, com a sensação de consciência tranquila. Acredito que as pessoas que aparecem na vida têm propósito. E as que saem também. E, sim, eu sei que também curei e fui canal de cura para pessoas à minha volta, sem romantizar a dor. Apenas assumindo a responsabilidade de fazer diferente.
O meu nome é VERA: a linhagem materna
No início de 2025, descobri que a minha mãe tinha um cancro uterino, estádio 3. Havia possibilidade de ser operável ou não, porque estava no limite e podia haver outros órgãos comprometidos. E eu, desde o início, tive um feeling muito forte: a minha mãe ia curar-se.
Percebi isto de um lugar muito particular. Se tantas dores passam pelo útero, pela linhagem materna, pela passagem de testemunho, então ela também precisava fazer uma cura nela. Ela foi operada a 21 de maio de 2025, exatamente um ano depois do meu divórcio. Para mim, isto foi sinal. Como se a vida dissesse “o processo começou há um ano e continua.” Durante o tratamento, recebi sinais que me fui agarrando com fé: os médicos, cirurgiões e especialistas em saúde tinham sempre “Vera” incluído no nome.
Pode parecer estranho para quem lê. Para mim, foram pequenas evidências de que ela estava acompanhada, de que havia algo maior a segurar o processo.
Ela terminou a quimioterapia e está bem. Não tem nada no corpo. E eu vi nela uma força que eu não esperava. Vi uma mulher agarrar-se à vida, mesmo depois de ter perdido um irmão para cancro. E vi ali uma coisa que me comove. A genealogia a acontecer no presente. O passado a ecoar, sim, mas também a ser transformado.
Costumo dizer que a minha avó materna, Florinda, foi a maior prova de transformação. Ela tinha tudo para viver em dor e escolheu viver em amor. Deu amor. Irradiou amor. E acho que foi através desse amor que a cura na minha família foi feita. Foi ela que escolheu o meu nome: Vera.

Mais tarde, já a fazer genealogia, consegui entrar em registos espanhóis e descobri que a raiz da família dela vinha de uma vila pescatória espanhola chamada… Vera. Qual a probabilidade?

Depois, a cardiologista que tentou reanimar a minha avó chamava-se Vera. Estas coisas repetem-se como um padrão simbólico que, para mim, confirma: existe algo invisível que liga. E, quando se tem coração aberto, essas ligações mostram-se.
Porque é que a genealogia me fascina tanto?
Porque não é só sobre quem morreu. É sobre quem vive.
Eu adoro ver pessoas a reencontrarem familiares através da árvore. Primos que não falavam há cinco ou seis anos e voltam a conversar porque alguém descobriu um ramo. Famílias a marcarem encontros para falar de história de família. Pessoas a falarem de quem já partiu com carinho, como se estivessem a acender uma vela num sítio esquecido.
Se eu sou um canal para unir pessoas através do amor e não através da dor, sinto que a minha missão está cumprida. Eu não quero dar só nomes. Eu quero dar nomes, datas, história. Quero que as pessoas se conheçam através dos seus ancestrais e voltem para si através deles.
A genealogia, neste momento, ainda não é o meu trabalho a 100% nem a minha fonte principal de rendimento. Faço-o como hobby, mas faço com intenção. E talvez seja essa a diferença entre um hobby e um caminho.
Como funciona o processo, passo a passo
Para quem quer começar, costumo explicar de forma simples, porque a genealogia pode parecer um mundo gigante.
Primeiro, começa-se pelo que é certo: os teus dados e os dos teus pais.
Depois avança-se para avós e bisavós, com certidões e registos. O ideal é reunir certidões de nascimento, casamento e óbito, e organizar tudo.
A seguir, cruza-se informação. Confirma-se se os nomes batem certo. Se os locais batem certo. Se as datas fazem sentido. Depois, quando a parte documental está mais sólida, vem a parte que muda tudo.
As histórias. Conversar com familiares mais velhos. Perguntar como eram as pessoas. O que viveram. O que repetiam. O que ninguém falava.
Porque, no fim, os documentos dizem “o quê”. As histórias dizem “como”. E o “como” é onde a cura mora.
Não tenho dúvidas de que a cura passa muitas vezes por tomar consciência dos padrões na família. Quando se vê um padrão e se decide não perpetuá-lo, há qualquer coisa que se reorganiza. Por dentro e por fora.
Foi isso que eu vivi. Eu vi abandono e rejeição como herança emocional. Eu vi como isso se repetia em mulheres da minha linhagem. Vi como isso me atravessava. E decidi não lhes ser leal. Decidi honrar, sem repetir.
E depois vi a vida a responder. Vi milagres pequenos e grandes. Vi a minha mãe a curar-se. Vi relações a transformarem-se. Vi-me a sair de um lugar de sobrevivência para um lugar de consciência.
Honrar o legado é amar. Ser leal à dor é ficar preso. E esta diferença, para mim, é o coração de tudo.
Histórias incríveis de que poderás gostar
A genealogia tem um lado delicioso: começa com “quero saber de onde venho” e, de repente, transforma-se num filme. Um filme de coragem, de verdades escondidas e de padrões que atravessam gerações como quem atravessa rios. Aqui ficam três pequenas histórias reais, contadas com o cuidado que merecem, para perceberes como a árvore, às vezes, não mostra só ramos. Mostra vida.
1) O “filho ilegítimo” que afinal era um padrão repetido
Uma pessoa começou a investigação familiar e encontrou algo que, durante muito tempo, foi nomeado assim: um “filho ilegítimo” na linhagem. A primeira reação foi surpresa, espanto. E também julgamento, porque parecia difícil compreender como é que aquilo tinha acontecido.
Só que, em vez de ficar presa ao escândalo, a árvore começou a falar mais alto. Porque não era um caso isolado. Ao longo de várias gerações, surgiam histórias semelhantes, como se houvesse um fio invisível a repetir-se. O que parecia algo isolado era, afinal, um padrão a pedir consciência. Uma lealdade geracional que, até ali, não tinha sido vista.
E é aqui que a genealogia deixa de ser curiosidade e se torna escolha. Não é preciso expor ninguém. Só reconhecer. Porque, às vezes, o maior ato de amor por uma família é parar de fingir que não aconteceu e decidir fazer diferente a partir daí.
2) A avó Maria Joana e o terreno que libertou
Na família, a história da avó chamava-se sempre do mesmo jeito: dor antiga. A avó Maria Joana tinha sido assassinada, e essa memória ficou a pairar como uma névoa sobre a linhagem. Não era só um acontecimento. Era uma marca. Um silêncio que atravessou gerações.
Durante muito tempo, aquela história viveu num lugar estranho: toda a gente sabia “mais ou menos”, mas ninguém sabia ao certo. Contudo, ficava o terreno intocável, como lealdade àquela energia e pessoa. Até que a genealogia começou a puxar fios, a pedir registos, a abrir gavetas, a juntar peças. E a avó Joana passou a ser pessoa com contorno. A parte difícil é que nada aparecia. Nem certidão, nem registos claros, nem respostas rápidas. Foi um emaranhado de buscas, pedidos, portas certas e portas erradas.
E depois, a vida mexeu. Surgiu alguém de fora, com documentação na mão, a querer comprar o terreno ligado a essa história. Não por negócio frio. Mas por conexão: para viver ali com a filha. Para recomeçar. Para cuidar do espaço. Como se aquele lugar, visto e reconhecido, pudesse finalmente virar página. A proposta foi tão improvável, tão fora do padrão daquela zona, que pareceu uma resposta do próprio campo. Como se o passado, finalmente visto, desse autorização ao presente para seguir.
O terreno acabou por ser vendido. E a venda tornou-se continuidade de legado: ajudou a família a criar um novo capítulo, mais vivo, mais enraizado, mais alinhado com aquilo que realmente importava. Às vezes, a genealogia não serve apenas para descobrir. Serve para pacificar. E quando pacífica, a vida mexe-se. Agora aquele lugar já não era só dor. Era caminho.
Às vezes, a genealogia não serve apenas para descobrir quem foi. Serve para devolver dignidade ao passado, para que o presente volte a andar.

Natural de Silves, a Vera é genealogista por paixão e alma curiosa pelas histórias que o tempo quase apaga. É também mãe de dois rapazes, experiência que aprofunda ainda mais a sua ligação às gerações.
Criadora do projeto Raízes Ancestrais, ajuda pessoas a descobrirem a sua história familiar através de pesquisa documental rigorosa, reconstrução de árvores genealógicas e recolha de memórias que atravessam gerações.
Une investigação histórica e sensibilidade sistémica, vivendo a genealogia como um caminho de pertença e consciência.
