Era manhã Domingo de Páscoa, teria 11 ou 12 anos e acompanhava o Pároco da minha Paróquia na visita Pascal. Tinha acordado com o Hallelujah de Handel que tocava alto nos megafones colocados na torre da Igreja. 

Na noite anterior, no regresso da Vigília Pascal, já me tinha deitado mais leve, porque depois da Semana Santa, com tantas celebrações à volta da Paixão de Jesus, antecipar a Ressurreição era um bálsamo para o meu coração de criança.

Na visita Pascal, levávamos a cada casa a notícia de que Jesus está vivo e de que a morte não tinha tido a última palavra. Eramos recebidos com alegria, pão de ló caseiro, amêndoas e folares doces, amorosamente colocados sobre mesas cobertas por toalhas de renda branca. A emoção de quem nos abria a porta, para acolher e beijar a Cruz, era visível. Não me lembro de comer nada do que estava na mesa, apesar da insistência de quem nos recebia para que aceitássemos uma fatia de bolo. Agradecíamos, guardávamos o envelope com a côngrua e seguíamos para a próxima casa. As portas estavam abertas e muitos portões ostentavam ramos de flores brancas. Entre casas pobres e ricas, não havia diferença na alegria de receber e beijar a Cruz.

Nos anos seguintes, talvez até aos 18 anos, acompanhei sempre a visita pascal. Vi o Pároco receber a côngrua em algumas casas mais abastadas, e deixar algumas dessas ofertas generosas noutras casas mais humildes. Esta troca devia passar despercebida a quase todos os que faziam a visita pascal. No meu caso, apesar de não me escapar este detalhe, nem sequer percebia o real significado do gesto do Padre.

Nasci e fui educada numa família católica. Hoje digo com o coração grato que, felizmente, tive essa sorte. As pessoas que me introduziram na Fé eram espelhos daquilo em que acreditavam e eu bebi de uma Fé viva enquanto crescia.

Mais tarde, na Universidade, continuei a frequentar com assiduidade grupos universitários e comunidades católicas, e nunca me afastei dos Sacramentos. Continuei a ser, como agora se diz, “católica praticante”. Como estudante a viver longe da família de origem, a minha Fé também tinha consequência nas minhas escolhas diárias, mas não sentia o peso de ter opções diferentes daquelas que os meus colegas tinham. Carregava no peito a certeza de ser profundamente amada e daí nascia a generosidade, a capacidade de amar os outros, a humildade, o não julgamento, a entrega ao estudo e aquilo que me era pedido enquanto estudante. Acredito que quem me conheceu nessa altura se tenha apercebido da alegria interior que sempre me acompanhava, a alegria de quem tem Fé, de quem mantém um relacionamento íntimo com Deus e confia que tudo aquilo que acontece é para o seu bem (mesmo que no momento possa não parecer).

Voltar a Santiago de Compostela

Comecei por te contar como vivia a visita Pascal na infância, porque estou a escrever perto da Páscoa de 2026, tenho agora 54 anos. 

Ao longo dos últimos 25 anos afastei-me da prática religiosa e da Fé que tinha. Apesar de continuar a ser cristã (a acreditar em Cristo e na Sua mensagem), não alimentei a minha Fé. Afastei-me das comunidades onde poderia ter continuado a sentir-me acompanhada por quem, como eu, deseja trazer ao mundo o amor de Deus pelos homens e a mensagem de Jesus.

Nestes 25 anos procurei, fora da Igreja Católica, o chão que a Fé me dava. Há muita oferta acessível e, com facilidade, podia combinar várias formas de viver a espiritualidade. No entanto, no meu caso, senti que nada era comparável ao que tinha vivido na minha juventude e, por mais que procurasse, a minha sede e vazio interior mantinham-se e até se adensavam.

O ano passado fiz, com a Isabel Silva o Caminho de Santiago. Depois de fazer o Caminho, o convite a retornar às minhas raízes na Fé gritou tão alto que seria impossível não ouvir. Deus tocou-me através da Isabel, que me foi fazendo questões sobre Jesus, sobre o apóstolo Tiago, sobre os Santos, sobre os Sacramentos, sobre a Bíblia e sobre a minha relação com Deus. Durante o Caminho, renasceu em mim a necessidade de voltar à intimidade com o Deus que me acompanhou na infância e juventude.

A última vez que tinha estado em Santiago de Compostela tinha sido nas Jornadas Mundiais da Juventude, em 1989, com o Papa João Paulo II. Este Encontro dos jovens com o Papa, foi um marco para muitos de nós que ali estivemos e o ouvimos a dizer: “Não tenhais medo de ser Santos”. 

Este convite ainda hoje ressoa em mim: como seria o mundo se todos tivessem como objetivo ser Santos? Como seria o mundo se todos amassem com a qualidade de amor com que Jesus nos convida a amar? 

Se existe este convite, se existe o desejo de percorrer o caminho da santidade, é porque é possível e temos os meios para dizer sim todos os dias e recomeçar as vezes que forem necessárias. 

Além disso, não estamos sozinhos nem dependentes, unicamente, das nossas forças. Deus fez-se e faz-se presente nos Sacramentos, nas Comunidades que rezam e se reúnem em seu nome, nos locais de peregrinação, em todas as Igrejas, nas famílias que vivem a sua vocação, em tantos locais e no nosso coração. Como se lê no Evangelho de São Mateus (MT 28, 20): Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos.

Voltar a Santiago com a Isabel, fez com que voltasse a ler a Palavra de Deus, a rezar e a viver a partir dos convites que me são feitos por essa Palavra. Regressei às minhas raízes e reencontrei a Fé que me sustenta e que dá sentido a tudo o que faço. 

As consequências de ter Fé

A liberdade de escolher ter outra religião, não acreditar em nada ou acreditar noutras coisas, é uma opção possível para todos os seres humanos. Da minha parte não há julgamento e apenas quero partilhar como alimento a Fé que tenho, e que descrevi anteriormente.

A Fé é um Dom, mas depende da resposta humana. Nada nos é imposto.
Como se lê em Apocalipse 3:20:
“Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo.”

O que é que acontece se abrires a porta, deixares que Jesus entre e passe a viver contigo?

Como é que manténs uma relação com alguém que te ama e a quem amas? Possivelmente passas tempo com essa pessoa, pedes ajuda, tomas decisões que estejam de acordo com esse amor, acreditas naquilo que a pessoa te diz, estás ao seu serviço (no sentido maior da palavra, quando serviço significa amar), honras os compromissos que tens com a pessoa que amas, não permites que nada interfira no vosso amor… É assim quando deixas Jesus entrar e inicias uma relação com Ele.

Alimentar este amor, para um Católico, significa orar diariamente, meditar na Palavra, participar nos Sacramentos, oferecer tempo à Igreja ou a alguma associação que precise, viver os tempos litúrgicos em Comunidade, conhecer Aquele que amamos e que nos ama. É isto que tenho feito, com consistência e confiando na Graça de Deus, porque sei que Deus me amou primeiro e apenas estou a responder ao amor com que sou amada.

Muitas vezes temos medo de abrir a porta e deixar Jesus entrar, porque sabemos que esta relação vai interferir nas nossas escolhas, vai exigir que cresçamos no amor aos outros, muito além do que inicialmente possamos desejar ou sentir que somos capazes.

Alimentar a Fé, para mim, significa fazer o que Jesus nos ensina: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, orar pelos que nos perseguem, perdoar os inimigos (e não só), não julgar, não colocar a nossa confiança nas coisas do mundo, não estar ao serviço da fama ou do dinheiro, santificar o trabalho, dar até aquilo que nos poderá fazer falta, encarar os desafios com confiança. Poderia continuar esta lista, mas esta amostra basta para veres as consequências de abrir a porta e deixar Jesus entrar. Não é possível ser “católico não praticante”, assim como não é possível ser músico e não tocar um instrumento.

Quando se tem Fé, escolhemos o caminho que não está de acordo com os valores do mundo em que vivemos. Por isso, é tão importante termos uma Comunidade que nos apoie, procurar grupos de catequese de adultos, de oração e meditação na Palavra, ou outros que as paróquias tenham para apoiar quem queira viver uma Fé comprometida.

Páscoa de 2026

“Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, e havendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim.” 

Jo 13, 1

Há mais de 25 anos que não vivia os tempos litúrgicos, como um cristão católico é chamado a viver. Este ano, leio a liturgia diária, alimento a Fé através da oração com a Palavra e participo nas Celebrações em cada Domingo e da Semana Santa.

Estou a viver a Quaresma e a caminhar com Jesus nestes 40 dias que O levam até à morte (e ressurreição). No Evangelho que lemos diariamente, vejo o quanto Ele nos ama, o quanto amou aqueles que O acompanhavam naquele momento difícil, e como a sua mensagem de amor foi rejeitada por quem tinha o poder e a riqueza. Vejo Jesus a perdoar o imperdoável, vejo-o a ser acusado de coisas que não fez e a ser julgado por crimes que não cometeu. Não levanta a voz, não se defende e pede que aqueles que o torturam sejam perdoados.

Esta qualidade de amor que Jesus apresenta, esta capacidade de amar até às últimas consequências, não se constrói num dia, mas sim ao longo de anos de uma relação íntima com Aquele que amamos. Por isso, cultivar a Fé diariamente é tão importante, imitar Jesus mesmo sabendo que vamos falhar, e recomeçar sempre que damos conta de que nos afastámos do Seu Amor.

Se abrires a porta hoje, de deixares Jesus entrar e cear contigo, o que é que vais ter de transformar na tua vida?

Eu tive o privilégio de nascer no seio de uma família cristã e de ter bebido de uma Fé viva na Paróquia onde me ensinaram a amar Jesus. Mas este caminho, este encontro com Ele pode acontecer em todos os momentos da Vida, em qualquer idade e independentemente do nosso passado.

Desejo que a tua Páscoa seja vivida com Fé e a Alegria da Ressurreição.