Alimentação

Mediterra. Fomos conhecer o novo restaurante com vista de mar que faz o Tagus Park parecer um sítio giro

Decoração maravilhosa, uma vista de tirar o fôlego, pratos pensados para serem do bem, com todas as preocupações de sazonalidade e origem dos alimentos. Mas ainda há coisas a trabalhar.

Se uma pessoa quer apenas comer bem, então é simples: é ir a casa da mamã. Ali, não há que enganar. São aqueles sabores que nos levam à infância, é o prato que a mãe já sabe que nos vai trazer conforto, alegria. 

Pronto, dito isto, aquilo que hoje todos procuramos quando vamos a um restaurante é uma experiência global, que vai muito além do comer bem. Queremos comer bem, mas queremos uma coisa muito mais holística, queremos ambiente, onda, decoração, detalhes nas paredes, na mesa, no prato, queremos simpatia, queremos coisas instagramáveis, e pronto, também queremos comer bem. 

Continuemos nesta coisa do comer bem. Há os que acham que comer bem é ir deitar abaixo aquele cozido à portuguesa que há todas quartas-feiras no restaurante do bairro. Há os que acham que comer bem é passar um dia a petiscar numa tasca alentejana ou transmontana. Mas cada vez mais há os que acham que comer bem é comer produtos naturais, biológicos, de que conhecem a origem, e confecionados por quem se preocupa com questões como a sustentabilidade ou o desperdício alimentar. 

Agora vamos juntar estas duas ideias, a de viver uma experiência e a de comer bem. Isto, para vos falarmos do novíssimo restaurante Mediterra, que abriu no dia 16 de outubro no Tagus Park, em Porto Salvo.

Quem já ficou de pé atrás ponha o dedo no ar. Restaurante no Tagus Park deixa qualquer um a tremer de uma vista, verdade, mas se calhar é por isso que o Mediterra faz sentido ali, para ser aquilo que mais nenhum é, um restaurante único, com preocupações únicas, uma comida única, um chef único. Mas já lá vamos às coisas boas. Antes disso temos de falar das mais preocupantes.

Então, andávamos por Lisboa quando decidimos ir almoçar ao Mediterra. Waze, “Me-di-ter-ra”. Nada. Se calhar escrevemos mal. “Restaurante Mediterra”. Zero. Tentámos ir lá morada: “Tagus Park Núcleo Central 100”. OK, vamos. A5, saímos para o Tagus Park e, claro, o Waze levou-nos não sabemos bem para onde, um núcleo de tecnologia ou lá o que era aquilo. Uma volta num sítio estranho, uma rua sem saída, um volta completa ao Tagus Park, e nada de número 100 do Núcleo Central. Solução: ligar para o restaurante, a ver se nos davam umas luzes sobre o sítio aonde teríamos de nos dirigir. Fomos ao Google, digitámos www.mediterra.pt e… erro. Site indisponível. Não há problema, há sempre a página de Instagram. Lá fomos a @mediterra.restaurante, página bonitinha, clean, fotos de pratos incríveis, mas número de telefone, que é bom, nada. Mais uma volta ao Tagus Park a olhar para o ar — pelas fotos já tínhamos percebido que era um sítio alto, com uma vistaça.

A vista não desiludiu

Optámos por seguir uma seta que nos enviava para uma zona de “Restaurantes”. Acabámos nas traseiras da Novartis, num parque de estacionamento, sem saber muito bem onde andávamos. Olha, fomos na aventura. Umas esplanadas, OK, bom sinal. Entrámos no edifício e vimos um segurança num balcão. Fomos até lá para perguntar se eventualmente o senhor saberia onde era o Mediterra. Não foi preciso ele falar, mesmo ao lado do balcão lá estava um painel a indicar que o restaurante ficava no quarto piso. Era só subir aqueles elevadores. Finalmente.

Como é fácil perceber, por esta altura uma parte importante da experiência de um almoço já está contaminada. Nada é mais desagradável do que não conseguir chegar aonde queremos chegar. Na sua “Viagem do Elefante”, José Saramago escreveu que “chegamos sempre ao sítio aonde nos esperam”, e a verdade é que isto aconteceu mesmo. Chegámos. Custou, mas chegámos.

Agora começa a segunda parte da experiência, que é a entrada no Mediterra. O elevador deixa-nos num hall clean, com boas energias, e somos impactados por um painel em latão onde está inscrito o nome do restaurante. Bonito, sofisticado. Depois vem a melhor parte. A entrada no restaurante é magistral, com uma vista que se perde até ao mar, janelas de alto a baixo a deixarem entrar toda a luz do mundo naquele espaço arejado, bem decorado, e que transpira natureza por todo o lado. As mesas estão devidamente espaçadas, COVID rules, os empregados cumprem com todas as regras de saúde e segurança, mas nem as máscaras escondem um atendimento simpático e disponível. Escolhemos uma mesa à janela, mas ainda não nos tínhamos sentado e já o chef Nuno Queiroz Ribeiro estava ao nosso lado para nos oferecer uma visita guiada, que teve direito a explicações sobre a decoração, a origem das peças em sala, passou pela cozinha e terminou à nossa mesa.

O couvert, com pão caseiro, cenouras laminadas, azeite e azeitonas

Podíamos ter optado por um menu executivo (18,50€), que já traz couvert, entrada, prato principal e sobremesa, ou um menu alternativo (12,50€), apenas para quem quer prato principal, bebida e café, mas quisemos antes olhar para a carta e procurar ir atrás do que nos apetecia verdadeiramente. Enquanto decidíamos, chegou um couvert com um pão caseiro, fresco, ótimo, acompanhado de azeite e cenouras laminadas (3€). Bom arranque, para dar continuidade à conversa com o chef Nuno Queiroz Ribeiro, que nos foi falando da sua relação com a comida e a terra. Um tópico que nos levou a um creme de legumes da época (2,5€), que sabe tão bem quanto parece, um verdadeiro creme, saboroso, intenso, e que eleva a fasquia para o que aí vem. Ao mesmo nível ficaram os cogumelos marinados em citrinos (6,50€), outra entrada, provavelmente o melhor momento da refeição. O contraste entre o sabor suave, mas marcado, do cogumelos com a acidez dos citrinos deu uma força muito interessante ao prato, que nos deixou com vontade de que não acabasse. Mas acabou. Foi pena. Até porque depois a experiência gastronómica não escalou. 

Veio para a mesa um fallafel interessante, embora algo seco (por ser feito no forno, e não frito, o que agradecemos), mas com um sabor agradável, altamente potenciado por um tahini (pasta de sésamo) muito bem conseguida, mas que, soubemos pelo chef, vem de um fornecedor líbanês especializado neste molho muito comum em toda esta região que vai do Líbano, passa por Israel, Jordânia, Egito e chega a Marrocos. A acompanhar o Fallafel vinha um excelente arroz integral, bem confecionado e saboroso, e uma salada de tomate pouco surpreendente.

O outro prato foi talvez o lado menos positivo da refeição. Experimentámos o hambúrguer de feijão preto e arroz integral (12,50€), mas fomos enganados logo pelo nome. O hambúrguer não é de feijão preto, e não é acompanhado de arroz integral. O hambúrguer é mesmo feito com feijão e arroz integral, sendo que o ingrediente dominante é o arroz, o que torna o hambúrguer muito menos hambúrguer e muito mais uma espécie de massa de arroz tostada, que foge muito à ideia que temos de um hambúrguer, mesmo que vegetariano. Não ajudou ter vindo demasiado tostado, o que nos fez perceber que é um prato que ainda está em afinação, o que é perfeitamente normal num espaço que estava aberto há menos de uma semana.

Não podíamos ir embora sem provar as sobremesas. Para fechar uma refeição do bem, totalmente vegana, optámos pelo Cheesecake vegano de amêndoa, limão e abacate do Algarve (6€) e pela Panacotta vegana com sésamo e tâmaras (4,5€). Não se pode dizer que os pratos não fossem interessantes, mas, também eles, ainda precisam de algum apuro. O cheesecake, cru, tem uma massa de amêndoa ao meio demasiado forte, que domina por completo o sabor, e que nos leva para um universo muito diferente daquele que é um cheesecake. A mistura com o abacate prometia, mas, para nós, não resultou na perfeição. A panacotta estava boa, mas não tinha a consistência de uma panacotta, já que vinha líquida. Faltava-lhe talvez um pouco mais de frio, ou de um substituto gelatinoso que permitisse solidificar e dar aquele ar trémulo da panacotta.

Ainda assim, e voltando ao início, hoje em dia comer bem é, sobretudo, viver uma experiência holística, que mistura comida, empratamento, ambiente, vista, decoração, atendimento. Mas, para nós, no topo de tudo isto vem sempre o facto de a comida ser, ou não, do bem, aquele que é o nosso conceito. E com todas as pequenas afinações que o Mediterra ainda possa vir a necessitar, o que tem é já mais do que suficiente para ser um dos nossos restaurantes do bem da grande Lisboa. É um daqueles spots para marcar com um V de voltar. Muitas vezes.

Mediterra

Morada: Tagus Park, Núcleo Central 100, Porto Salvo
Telefone: +351 938 394 820
Horário: de segunda a sexta-feira das 12 às 20 horas