Alimentação

Baby Led Weaning. Quando as mães deixam os bebés comerem sozinhos

Marília começou BLW com a filha mais velha. Já Maria Gama prefere falar em alimentação autónoma. Ouvimos as experiências e uma especialista.

Podemos ouvir a expressão inglesa Baby Led Weaning, outras a abreviatura BLW, ou nem precisamos de ouvir nada para saber do que se trata quando lá estão elas, as crianças, com um pedaço de cenoura cozida em forma de palito na mão. Esta tornou-se uma imagem comum nos últimos tempos nas stories de Instagram de mães e influenciadoras que aderiram ao BLW, que mostram como a autonomia que os bebés ganham ultrapassa toda a sujidade criada em volta da mesa.

O Baby Led Weaning é, então, o modo de introdução da alimentação complementar guiada pelo bebé, cujos alimentos são introduzidos pelos pais ou cuidadores consoante a fase de desenvolvimento. A primeira acontece “a partir do momento em que o bebé mostra sinais de estar pronto para se alimentar”, o que, na maior parte dos casos, situa-se por volta dos 6 meses de idade, aponta Maria Fernandez, enfermeira especialista em saúde Materna e obstetrícia, à dobem.

É por esta altura que os bebés estão aptos para “ficarem sentados com pouco ou nenhum apoio, estender a mão e pegar em coisas eficazmente, transportar objetos até a boca com precisão e fazer movimentos mastigatórios”, exigidos pelo BLW.

É verdade que desde cedo interiorizámos e expressámos, até nas brincadeira com bonecas, que a colher é para levar à boca do bebé, mas parece que não há necessidade disso. “O BLW tem por base a forma como os bebés se desenvolvem e as capacidades que surgem naturalmente no primeiro ano de vida. Esta abordagem guiada pelo bebé está enraizada no desenvolvimento físico, mental e emocional”, refere a enfermeira Maria Fernandez, autora do blogue Baby Led Weaning.

Apesar de, na maior parte dos casos, os pais optarem por introduzir esta prática pelos seus benefícios, Marília Pereira, enfermeira especialista em saúde materna e autora do livro “O Bebé Sabe Comer“, não teve outra opção.

“Foi na mais velha que surgiu”, conta a mãe de duas meninas, Inês, com 7 anos, e Sara, 5. “Logo no início, com 6 meses, tentámos fazer introdução alimentar. Ela comia uma ou duas colheres, começava a chorar e nós parávamos. Isso nós sabíamos que não queríamos. Não queríamos choro à mesa, essa angústia e stresse. Acabámos por fazer uma pausa na introdução alimentar e foi aí que encontrei este conceito do BLW, através da Gill Rapley que tem um livro que se chama ‘Baby-Led Weaning'”, lembra Marília Pereira.

O livro foi a fonte de conhecimento e o impulsionador para a especialista em saúde materna aplicar o BLW em casa, pondo de lado um dos contratempos adjacente: a sujidade. “Lembro-me que, em particular ao meu marido, fazia um pouco de confusão. Mas depois dizia-lhe: ‘Lembras-te como era quando fazíamos da outra maneira? Podíamos não ter sujidade, mas ela não comia, chorava, portanto, o que é que é melhor?’ Mas claro que às vezes parece-me mais fácil se eu pudesse alimentar a criança”, admite Marília Pereira.

No entanto, com a experiência, arranjou uma tática e deixa a dica para outros pais. “O banho a seguir ao jantar foi algo que passou a fazer parte da rotina. Assim, podia-se sujar e a seguir ia tomar banho”, diz a enfermeira e consultora de Baby Led Weaning.

Com o passar do tempo, surgiram também novas formas de aliviar os pais, como é o caso do Tidy Tot, que é como um babete que se veste e ao qual se junta um tabuleiro que encaixa na cadeira do bebé.

BLW sem o ser

A palavra inglesa que se tornou então conhecida por Gill Rapley em 2005, já era um conceito que se aplicava à mesa. “Ia sendo implementado por muitos pais, muito antes de ter um nome, mas, hoje em dia, já temos muitos dados advindos dos estudos realizados desde que se começou a aplicar de forma empírica, que avaliam a sua aplicabilidade, riscos e resultados”, refere Maria Fernandez.

Atualmente, um dos exemplos de que a alimentação autónoma das crianças pode surgir de forma natural sem ter o rótulo BLW é o de Maria Gama, nutricionista e mãe de Vasco, com 19 meses.

“O Vasco foi amamentado em exclusivo até sensivelmente aos 6 meses. Por essa altura, com a diversificação alimentar, fomos-lhe dando a experimentar, por exemplo, cenoura ou brócolos para a sua mão, promovendo também a sua autonomia”, conta a nutricionista à dobem. A sugestão de introduzir os alimentos de forma autónoma foi da pediatra Carlota Veiga de Macedo, que acompanha o Vasco, e os pais (ambos nutricionistas) não pensaram duas vezes.

“Sendo nós nutricionistas, isso fez-nos, desde logo, muito sentido pelo facto de, por um lado, não sermos nós a definir a quantidade, e por outro, pelo facto de ser o nosso filho a construir a
sua própria relação com a comida, sem ser por nós imposta”, diz Maria Gama. Contudo, a nutricionista não designa a alimentação implantada ao filho de BLW.

“Nunca quisemos denominar a diversificação alimentar do Vasco como BLW, pois isso envolve um método específico que não seguimos à risca”, afirma. “Como a nossa pediatra sempre referiu, o mais importante era fazer isto sem pressões e de forma divertida. Admito que podem haver, de facto, algumas semelhanças, no que diz respeito à promoção da autonomia, mas por exemplo, como nutricionistas, fez-nos sentido que ele ingerisse também a sopa, que por vezes não é oferecida nessa abordagem pelo facto do seu consumo não ser completamente autónomo desde o início”, explica Maria Gama.

E o facto é que Vasco, a pouco e pouco, aprendeu a manusear a colher da sopa, ao mesmo tempo que aprendia a trabalhar com o garfo. “Obviamente, houve vezes que comeu a sopa com as mãos, mas nunca deixámos de oferecer e esses momentos ficarão em vídeo, para recordações futuras”, diz a nutricionista, embora recordações mais recentes façam esquecer que em tempos houve dificuldades.

Ainda assim, para Maria Gama, o maior desafio de promover a autonomia de Vasco na alimentação foi não desistir. “Se há um dia em que o Vasco não quer comer os brócolos, oferecemos novamente no dia seguinte, sem assumir que ele deixou de gostar. Se não quer comer a sopa, reforçamos a importância do nosso exemplo e mostramos-lhe que também o estamos a fazer”, diz a nutricionista, reforçando que dar o exemplo em casa é fundamental, embora crie outro desafio.

“A organização necessária a garantirmos que fazemos as refeições com ele. Hoje em dia tentamos sempre jantar com o Vasco às 18 horas porque ao observar-nos a comer, automaticamente, acaba por comer também melhor e de forma mais tranquila”, acrescenta.

E não é só no dia-a-dia de Maria Gama que as refeições em conjunto acontecem. Na verdadeira prática do BLW, este é um princípio fundamental.

Bebés e adultos juntos à mesa

Promover a autonomia, a exploração e apreciação dos alimentos é um dos objetivos desta prática, mas não é o único, nem sequer o principal. “Comer com o bebé, partilhando a refeição familiar e fazendo desta um momento de celebração familiar é o cerne do BLW. Não há necessidade de papas nem purés, com recurso à colher. O bebé alimenta-se de forma autónoma, explorando e apreciando refeições saudáveis em família desde o primeiro contacto com os alimentos sólidos”, explica a enfermeira Maria Fernandez.

“O nosso foco não é a quantidade dos alimentos que eles ingerem. O principal foco é realmente estarmos todos juntos à mesa, haver esta partilha. Acho muito giro em vez de pensar o que é que eu vou fazer para o nosso almoço e para o do bebé, pensar o que vou fazer para nós que sirva para o bebé também”, o que, de acordo com Marília Pereira, traz até benefícios para a alimentação dos adultos. “Faz-nos repensar nas nossas próprias refeições, comer de forma mais saudável. Acho que isso é também uma destas maravilhas”.

A autonomia dada pelo BLW acaba ainda por se refletir em reuniões à mesa com mais membros da família. Marília Pereira dá o exemplo das próprias filhas, quando estavam à mesa com os avós, os tios, os primos e outras crianças. “É engraçado ver as diferenças e ver que não há tanta necessidade de distrair, por exemplo, com os tablets. Manusear os alimentos já é uma distração enorme”, diz Marília Pereira, acrescentando que nota também uma diferença na forma como se comportam à mesa e apreciam os alimentos.

Os bebés comem realmente menos com o BLW?

Os bebés devem comer o que e quando querem e o defeito não é do Baby Led Weaning. “Tanto o leite materno como o leite de fórmula, como os alimentos (sejam oferecidos triturados ou em BLW) devem ser oferecidos em livre demanda, sempre respeitando os sinais de fome e de saciedade de cada bebé, para que este tenha a oportunidade de ouvir o seu corpo e responder às necessidades que ele transmite, o bebé come aquilo que precisa — a isto chamamos autorregulação”, esclarece a enfermeira Maria Fernandez.

Além disso, o BLW não só pode, como deve, ser aplicado em simultâneo com a amamentação — uma vez que o leite é o alimento principal até ao primeiro ano de vida, seja materno, seja artificial —, o que por si só ajudará a garantir os nutrientes necessários.

“Oferecer leite antes da refeição ajudará a fornecer os principais nutrientes de que o bebé necessita, complementando-o de seguida com os alimentos, com o objetivo de expô-lo a diferentes aromas, texturas, sabores, entre outros, para que possa apreciá-los ao seu próprio ritmo”, como acontece com a prática do BLW.

Maria Fernandez acrescenta ainda que é o leite materno que fornece mais calorias aos bebés, o que significa que “oferecer grandes quantidades de alimentos antes ou em vez de amamentar pode reduzir a ingestão de leite de um bebé muito rapidamente e levar a um fraco ganho de peso”. Consequentemente, isso pode trazer uma perceção errada sobre o BLW, quando não praticado devidamente.

“Às vezes, é difícil de gerir. Achamos sempre que não comem o suficiente e que deitam tudo no chão. Nós temos essa sensação, mas depois quando mudamos a fralda, pelo cocó, vemos que não. Afinal, ela comeu alguma coisa”, brinca Marília Pereira.

“Os perigos do BLW são os mesmos que os da abordagem tradicional”

Uma das principais questões sobre o BLW — além da tolerância que é preciso para ignorar a sujidade, a demora durante a refeição e o dever de dar o exemplo (quando muitas vezes só apetecia fugir às regras) —, é o medo que os bebés se engasguem a comer sozinhos.

Só que, de facto, este é um risco iminente em qualquer tipo de introdução alimentar. “Os perigos do BLW são os mesmos que os da abordagem tradicional e podem evitar-se se os pais estiverem bem informados sobre a segurança à refeição”, esclarece Maria Fernandez.

É por isso que o Baby Led Weaning não pode ser introduzido sem uma formação prévia e aconselhamento de um pediatra, para conseguir, primeiro, desmitificar os mitos e, em segundo lugar, ter as ferramentas necessárias para fazer com que o método tenha sucesso e seja seguro.

No caso do engasgamento, a enfermeira especialista em saúde materna e obstetrícia deixa alguns critérios básicos de segurança: oferecer as refeições com o bebé sentado e direito, supervisionar sempre a criança durante as refeições e adequar bem a consistência dos alimentos para que não constituam perigo de engasgamento.

Em suma, além do BLW contribuir, a longo prazo, para uma menor agitação durante a refeição, de acordo com pesquisas transversais realizadas no Reino Unido e na Nova Zelândia, sabe-se que “apresenta excelentes resultados na aprendizagem e recetividade dos alimentos” e até pode levar “a um melhor padrão alimentar e reduzir a obesidade no futuro”, remata a enfermeira Maria Fernandez.